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sábado, 13 de julho de 2019

Palace II - Três Quartos com Vista para o Mar | sensação de impotência e a constatação da impunidade



Um dramático documentário de horror com viés catastrófico

Um registro cujo marco se dá em pleno carnaval de 1998. Um registro que tem início com projetos de vida. Um registro cujas raízes remontam à chegada dos portugueses na Terra Brasilis. Um registro que revela causas e consequências, visíveis e invisíveis, diretas e indiretas, que se alastram pelo passado, explicam o momento presente e desenham um futuro obscuro de uma nação que ainda clama por uma justiça travestida de sopro de esperança na pele da impunidade. Um documentário intitulado “Palace II - Três Quartos com Vista para o Mar” com lançamento nacional previsto para 18 de julho de 2019 – mais que oportuna lembrança de um dos maiores desastres dos anais da engenharia civil brasileira, levada para a tela dos cinemas, pela direção de Gabriel Correia e Castro e Rafael Machado que, ao lançarem mão da linguagem jornalística na condução da obra, denunciam a perturbadora sensação de inoperância da justiça no trato dos direitos dos cidadãos comuns.

Edifício residencial contemplando cento e setenta apartamentos – cuja construção se deu ao longo da década de 1990, sob a responsabilidade da Construtora Sersan do deputado federal Sérgio Naya – o Palace II, que para muitos representou a realização do sonho de morar na Barra da Tijuca, na cidade do Rio de Janeiro,  foi marcado pelo seu desabamento, em 22 de fevereiro de 1998, decorrente de vícios de cálculo estrutural conjugados ao uso de materiais de baixa qualidade, causando a morte de oito pessoas e deixando cento e cinquenta famílias desabrigadas.

O longa de Castro e Machado reacende chamas do passado alimentadas por falsidade ideológica, por falsificação de documento público, por sonegação e fraude de execução fiscal, por ganância, por desprezo à ética e por quebra de decoro no sentido mais abrangente do desrespeito ao ser humano – conferindo à produção, qualidades de um dramático documentário de horror com viés catastrófico. Ao retratar a luta jurídica das vítimas do Palace II pelos seus direitos, contra o dono da construtora Sersan, o documentário navega pelos meandros do litígio, em meio à morosidade dos trâmites da justiça, cuja inércia se mantém, vinte e um anos após o desastre, contra os que não têm foro privilegiado ou recursos financeiros para comprar uma sentença que favoreça seus interesses.

A sensação de impotência e a constatação da impunidade, fartamente concedidas nos quase noventa minutos de filme, é algo desolador, para o espectador incapaz de não se ver em cada um dos padecedores do Palace II que brigam por algo que deveria ser uma garantia para todos os cidadãos de bem ou do mal – a justiça, cuja cegueira não se explica, se decorrente de total imparcialidade ou de mero equívoco.

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Ta Azor! a Lucidez de Artaud - Sonhos travestidos de lucidez

Sonhos travestidos de lucidez e em terrível estado de solidão



Ao conduzir toda a sua obra pelo incessante desejo de se encontrar, o poeta, pintor, escritor, ator e dramaturgo Antonin Artaud renega a consciência estética, fundamentada em simulacros – a realidade empírica da sobrevivência – embora, manipule a vida como se fosse, supostamente, regida por forças mágicas, a partir de uma consciência cósmica, firmada entre o universo e o divino.

As metáforas associadas às obras do artista são desenhadas no espetáculo “Ta Azor! - A Lucidez de Artaud”, sob o roteiro de Calé Miranda, que gera uma aura dolorosa em torno de um espírito inquieto. A concepção de Calé preenche o espaço cênico com os movimentos, quase coreografados, e pelo texto, austeramente, articulado por Mônica Izidoro, Fátima Colin, Júlio César Pires e Arthur Vinciprova. Como se acometidos por um devaneio onírico, os personagens elegem a cura da dor e da impotência intelectual como o ponto forte da peça, ao discursarem sobre a síntese entre a matéria e o espírito.

Em meio a um espetáculo eminentemente sensorial, o espectador pode se dar ao luxo de cerrar os olhos e compreender o que se passa, simplesmente, através do sentido do olfato – inebriado pela fragrância do mix de ervas composto por hortelã, alecrim, arruda, dentre outros – e pela percepção dos movimentos e da insana coreografia em meio a uma paisagem sonora fantasmagórica, ao mesmo tempo, alucinante, por Marco Netto – consolidando a brutalidade, a promiscuidade, o sofrimento e as privações sofridas por Artaud. Porém, longe da intenção de promover ao espectador a experiência de estar na plateia de um teatro cego, Calé promove uma riqueza cromática a partir da inconsciente leveza orgânica do desenho de luz assinado por  Eliza Moreira, associado ao policromatismo de seu figurino, em busca pelo sentido obscuro da essência de Artaud.

Dessa forma, o espectador é induzido a experimentar uma terapêutica possibilidade de renascimento e de regeneração através de sonhos travestidos de lucidez e em terrível estado de solidão. A arena ambientada, acolhe o público em meio à história, segundo um teatro, sob um novo formato, que dramatiza a escrita e que se dirige ao leitor-espectador. “Ta Azor - A lucidez de Artaud” dá lugar ao corpo humano proferindo palavras em busca de uma cura que se afasta da crueldade, que se apresenta poética e volátil – como a vida de um indivíduo qualquer, inconscientemente lúcido.

segunda-feira, 1 de julho de 2019

Homem-Aranha: Longe de Casa - uma continuação, mais do que satisfatória

Uma continuação, mais do que satisfatória

Veneza, Berlim, Londres e Praga são as cidades icônicas que servem de cenário para a sequência das aventuras do jovem Peter Parker, no filme “Homem-Aranha: Longe de Casa”.

Condicionalmente, a plena compreensão do filme demanda que o espectador esteja bem atualizado junto ao universo Marvel – em especial, ter assistido ‘Vingadores - Ultimato’, com vistas à assimilação do real significado do evento apocalíptico apelidado ‘The Blip’ e, não ser impactado com o spoiler apresentado, de cara, na abertura do filme, ao som de Whitney Houston – ‘I will always love you’.

Com o mundo livre de Thanos, os professores do Midtown planejam um passeio escolar para Europa. Consequentemente, Parker vislumbra a oportunidade de desfrutar a tão almejadas férias e abrir o coração para a sua amada MJ em solo europeu. Ao chegarem ao seu destino, eis que surge um monstro, causando destruição geral. Entra em cena um homem que, se intitulando Mysterio, luta contra a monstruosa criatura. Com isso, acaba conquistando a simpatia de Parker, com quem cria laços de amizade, com o aval de Nick Fury.
  
A direção de Jon Watts tem uma veia imaginativa pirotécnica impactante, além de não poupar o espectador de uma avalanche de cenas de humor teen e de uma boa e adequada dose de realidade aguda, ao se tratar de vida e morte – um somatório que faz do longa uma continuação, mais do que satisfatória, de uma franquia ansiada por uma legião de fãs do Aranha. Seja no início, no meio ou no fim, tudo tem o seu porquê. As cenas pós créditos aprofundam, ainda mais, o que o Universo Marvel promete para a próxima sequência. 

‘Longe de Casa’ contempla um roteiro inteligente e maduro, assinado por Chris McKenna e Erik Sommers – dupla que consegue a proeza de manter a refrescância juvenil inserida em um capítulo da saga dos Vingadores.

O Olho e a Faca - sem referencial emocional, que confunde sonho com realidade


Sem referencial emocional


De um lado, um acidente bizarro em uma plataforma de petróleo, cuja responsabilidade recai sobre o líder do grupo de embarcados. De outro, um cara gente boa, muito querido pelos companheiros de labuta que, na disputa pelo cargo de gerente da plataforma, vê todo o carinho e camaradagem, dispensados pelos colegas, se perder no fundo do mar. Em terra firme, esse homem, apesar de casado, com filhos e pais vivos, também dá suas escapadinhas e tem uma vida em paralelo com uma amante – linhas gerais do filme “O Olho e a Faca”, filosoficamente dirigido por Paulo Sacramento.

O elenco é composto por Roberto Birindelli, Caco Ciocler , Maria Luísa Mendonça, Luís Mello e conta com uma rápida aparição, quase sem texto, de Débora Nascimento. Maciçamente, o cast parece servir apenas de escada para Rodrigo Lombardi e seu personagem sem referencial emocional, que confunde sonho com realidade, encara todos que o cerca como inimigos, e tenta, de todas as formas contidas em um surto psicótico, voltar à terra e abandonar o mar interno de sua alma atormentada.

Apesar do argumento deixar o espectador a ver navios quanto à meta pretendida pela produção, o longa é agraciado com produção sonora estruturada pela expertise de Miriam Biderman, Ricardo Rei e André Tadeu e com a primorosa fotografia de José Roberto Eliezer – que impedem que  “O Olho e a Faca” se posicione em patamar abaixo daquele reservado para um filme regular.

Quem tem medo de Travesti - Acende a chama do absurdo que vela o preconceito


Acende a chama do absurdo que vela o preconceito, ao mesmo tempo que projeta os holofotes da coerência que celebram o direito de cada um viver de acordo com a sua identidade

A discussão central inserida no espetáculo “Quem tem medo de Travesti” é definida por uma perspectiva humana que compreende um posicionamento defensivo frente ao preconceito, mantida por muitos conservadores – quando não pela identidade de gênero capaz de acirrar a homofobia, pelo seu debate contemporâneo, de caráter ético, à sombra da inatividade. A discriminação polemiza as boas intenções dos paladinos do Senhor em nome da família e transforma a orientação sexual e as discussões sobre sexo biológico, em algo contextualizado, em embates historicamente retrógrados.


“Quem tem medo de Travesti” é uma conjunção de talentos, idealizada por Silvero Pereira que também dirige o espetáculo, juntamente com Jezebel De Carli – dupla essa que não pode ser dissociada de BR Trans, peça escrita e protagonizada por Pereira e dirigida por De Carli, na qual o ator, ao mesmo tempo, autor, conta experiências de vidas,  desempenha números musicais e torna visível um segmento da população ignorado pela sociedade.


“Quem tem medo de Travesti” é elencado por uma trupe de artistas militantes, composta por Denis Lacerda, Diego Salvador, Italo Lopes,  Patrícia Dawson, Verònica Valenttino, e Rodrigo Ferreira (Mulher Barbada), que incorporam, com excelência dramatúrgica, diversos personagens do universo transformista. Com teatralidade ímpar, incomum nesse segmento performático, as personagens contam histórias de suas vidas, desnudando o que há de mais precioso no ser humano – a empatia. O cerne do espetáculo não aparenta, apenas, atentar para a diversão do espectador, uma vez que também expõe, de forma dramática, ao mesmo tempo, apoteótica, o repúdio ao preconceito e à discriminação que vitimizam os travestis, ao fazer com que a intolerância seja desmascarada no contexto do espetáculo que denuncia um Brasil que lidera o ranking mundial de assassinatos de transexuais.


Apesar de ser um espetáculo viabilizado sem patrocínio, mas por meio de financiamento coletivo, “Quem tem medo de Travesti” conta com recursos musicais, cuja pesquisa se deve à polivalência de Silvero Pereira, cuja preparação vocal é zelosamente trabalhada pela professora Angela Moura e contemplando a música original assinada por Verónica Valenttino. Expondo a essência desnuda e trajada das artistas os figurinos e adereços concebidos por Antônio Rabadan, complementados pelo mais que adequado e personalizado vizagismo, definem a veia humana, bestial e artística de cada uma das personagens. O projeto cenográfico, não só, é pragmático, atendendo à facilidade de montagem e desmontagem ao longo das turnês, mas lhe é conferido ares cosmopolitanos tão evidentes quanto os são cidadãs do mundo, as protagonistas do espetáculo. Dramatizando o que é tragédia e exaltando as performances musicais e coreografadas, o desenho de luz cênica assinado por Ricardo Vivian, acende a chama do absurdo que vela o preconceito, ao mesmo tempo que projeta os holofotes da coerência que celebram o direito de cada um viver de acordo com a sua identidade.


Sem escapismo, “Quem tem medo de Travesti” não foge à luta e enfrenta as adversidades diárias que são impostas aos indivíduos que resolvem defender a sua sexualidade, com perseverança e resistência – mesmo que, no momento de seus desempenhos, não estejam, declaradamente, representados pela plateia – apenas, subliminarmente.

quarta-feira, 26 de junho de 2019

Divino Amor - Um sinal de alerta para um obscuro futuro para o qual o país está sendo conduzido



Um sinal de alerta para um obscuro futuro para o qual o país está sendo conduzido

Como se, a partir de um olhar remoto, uma criança relata, em ‘off’, uma história que se passa em 2027, num Brasil que, segundo ela, havia passado por uma transformação e que a festa mais ansiada pelo povo não seria mais o Carnaval, mas as raves religiosas estatizadas. A cena se passa em meio a uma dessas festas, onde iluminação e som se impõem como agentes perturbadores – levando o espectador se questionar a partir de quando essas mudanças teriam sido, marcantemente, deflagradas.

As imagens sensuais traduzidas pelo olhar inflexível de Gabriel Mascaro alicerçam, sob sua direção, uma ficção científica erotizada, tendo como pano de fundo um regime evangélico conservador de extrema direita. Um regime que toma de assalto a população brasileira que, privada de sua individualidade e de sua privacidade, dispõe a sua vida ao ato de amar a Deus. Aqueles que não se enquadram ao sistema, padecem com o excesso de burocracia que lhes recaem de forma exponencial e inversamente proporcional ao amor e ao temor que prestam ao “Senhor nosso Deus”.

O seleto elenco de “Divino Amor” serve de alicerce a uma busca incessante, pela maternidade, por Joana, performada pela talentosa Dira Paes, definindo o fio condutor do filme de Mascaro, em meio aos absurdos de um futuro que espelha um Brasil onde os direitos humanos encontram-se tão dilacerados quanto atualmente ameaçados pela liderança de pregadores evangélicos empossados como ministros. O longa é um sinal de alerta para um obscuro futuro para o qual o país está sendo conduzido. A atual leitura biométrica digital, da íris e da face ocupa um patamar primitivo se comparada com o escaneamento dos indivíduos ao atravessarem portais comerciais e institucionais, a partir dos quais têm suas informações pessoais e orgânicas expostas a qualquer um que direcione o seu olhar para o monitor à serviço daquela exposição invasiva, outrora considerada privada e inviolável. O atendimento psicológico é prestado por um “confessionário” travestido de “Drive-Thru da Fé”, onde um pastor presta seu serviço de orientador espiritual, arrematado por um canto gospel ao final do atendimento, cujo acesso é controlado por um terminal de cobrança.

Uma sinopse mais detalhada do longa sugere spoiler e priva o espectador de se surpreender com o seu conteúdo absurdamente inusitado. Mas classificar a produção como algo assustador funciona como um despertar de interesse pelo tema, com vistas à constatação do desenho de um quadro tão nefasto para um País onde, até mesmo a chegada de um Messias serve, apenas, como um embrulho com vistas à sedimentação do retrocesso humano.

Turma da Mônica – Laços


Parafraseando o formato verbal concedido ao Cebolinha pelo seu criador – ‘sulpleendentemente’, o live action nacional com elenco cem ‘pol’ cento humano – ‘galante’ momentos ‘celteilos’  de ‘divelsão’ ‘pala’ todas as ‘gelações


Uma trama, elementar e emotiva, que se resume no sumiço do Floquinho, mobilizando o grupo de inseparáveis amigos – Mônica, Cebolinha, Cascão e Magali, criação do cartunista Maurício de Sousa – partir em busca do encantador cãozinho de pelos verdes.

Baseado na obra homônima de autoria de Lu e Vitor Cafaggi, lançada em junho de 2013, primeiro volume da trilogia que se completa com ‘Turma da Mônica – Lições’ (julho, 2015) e ‘Turma da Mônica – Lembranças’ (dezembro, 2017), o longa ‘Turma da Mônica – Laços’, sob a talentosa direção de Daniel Rezende, faz parte de um ousado, ao mesmo tempo, promissor projeto, com capacidade de despertar a curiosidade e a atenção de crianças, adolescentes e adultos, adaptando o Graphic Novel ao Live Action.

Um projeto que evolui desde o início dos anos 1960, a partir de tirinhas de jornais, passando pela publicação da primeira revista em quadrinhos da Mônica, em 1970 que, ano após ano, prolifera uma série de novos gibis repletos de personagens, inéditos e antigos. A veia empresarial de Maurício de Sousa não lhe permite acomodar-se com as origens de suas criações e lhe impõe algo muito além do marketing e do lançamento de produtos - a evolução dos traços dos personagens e da vibe demandada pela linha do tempo de seus leitores - transportando seus “filhos” para os universos baby, toy e jovem. Por sua vez, a trilogia dos Cafaggis faz parte de um projeto que se desenvolve segundo um espectro mais amplo denominado Graphic MSP, pela Mauricio de Sousa Produções, contemplando histórias dos personagens consagrados, repaginados por artistas brasileiros, em aventuras que se diferenciam do padrão das revistas, conforme conhecidas até então. Os Graphic MSP têm sua origem nas Graphic Novels, que reúne 25 publicações desde 2012 até o fim de 2019.

Mas nem só de brilhantes direções dependem as produções que farejam o sucesso, mas também do potencial dos atores na incorporação de seus personagens e na capacidade de encantar, não somente os já consagrados fãs dos quadrinhos, como também, a futura legião de amantes da Turma da Mônica, em potencial. A naturalidade com que Giulia Benite se entrega, tanto ao detonar a valentia e o pavio curto da dona da rua quanto ao demonstrar seus não raros rompantes de afetividade, reveste a personagem com um manto de humanidade cativante. Gabriel Moreira, timidamente, desenha o menino tomado por um pavor patológico a água – seja na forma de chuva, de poça ou de banho – e, até o final do filme, vai conquistando o seu espaço e convencendo, cada vez mais, os fãs do Cascão. A compulsiva alimentar digerida por Laura Rauseo dá o tom de comédia rasgada ao longa, com a sua Magali – cativante e responsável por grande parte dos momentos hilários junto à plateia. Dono do Floquinho, cheio de planos infalíveis e que, por muitas vezes, faz jus ao seu pleito em intitular o grupo de ‘A Turma do Cebolinha’ – o engenhoso menino de cabelos espetados é um show à parte, estrelado pelo talentoso Kevin Vechiatto. A liberdade poética presente na Graphic Novel é identificada quando o Louco – assumido, insanamente, por Rodrigo Santoro – filosofa com o eterno antagonista e crush da Mônica, em busca de seu cachorro, sob a mesma habilidade que Rezende lança mão para lembrar aos fãs do quarteto que, nos quadrinhos, Cebolinha é o único a usar sapatos, enquanto os demais, estão sempre descalços.


Parafraseando o formato verbal concedido ao Cebolinha pelo seu criador – ‘sulpleendentemente’, o live action nacional com elenco cem ‘pol’ cento humano – ‘galante’ momentos ‘celteilos’  de ‘divelsão’ ‘pala’ todas as ‘gelações.

quinta-feira, 20 de junho de 2019

Toy Story 4 - a certeira continuidade da franquia que encanta e emociona


A certeira continuidade da franquia que encanta e emociona gerações, de todas as idades, há quase vinte anos


Quarto longa de animação em 3D da franquia Toy Story, produzido pelos estúdios Disney e Pixar, Toy Story 4, com direção assinada pelo cineasta, dublador e roteirista estadunidense Josh Cooley, dá sequência ao ról de sentimentos e valores que aditivam o lúdico presente nas histórias, desde o primeiro filme, lançado em 1995, tais como: insegurança, medo do abandono e da troca, ciúmes, inveja, traição, lealdade, arrependimento e resignação - envolvendo, em especial, os brinquedos protagonistas o Xerife Woody e o patrulheiro espacial Buzz Lightyear, que pertencem ao menino Andy, na ocasião, com seis anos de idade. Em Toy Story, o antagonismo fica por conta do menino Sid, cujo desvio de comportamento faz com que se diverta a partir do desmonte de brinquedos para transformá-los em composições bizarras.

Em Toy Story 2, o trauma frente ao abandono dos brinquedos por seus donos toma proporções ainda maiores, associado à vaidade, ao egocentrismo e à ganância, quando Woody se depara, fortuitamente, com uma coleção relacionada com o programa de TV dos anos 1950 – ‘O Rodeio de Woody’ – do qual o Xerife era a estrela. Essa descoberta está associada ao momento em que o brinquedo de Andy conhece a vaqueira Jessie, o cavalo Bala no Alvo e Mineiro – também conhecido como Pete Fedido, o vilão da história. Nessa sequência, o sentimento de abandono real é deflagrado, a partir da tristeza carregada por Jessie, cuja dona a entrega para doação, conduzindo a mensagem que a razão de ser de qualquer brinquedo é ser amado por uma criança.

A terceira animação da franquia enfoca o desapego de Andy - um adolescente ingressando na fase adulta - pelos seus brinquedos e no futuro desses com destino ao sótão ou à doação, ou ao lixo. Novamente, o acaso conduz os brinquedos de Andy para uma creche, à título de doação, onde a ilusão, a decepção e a conspiração se materializam em Lotso – um urso de pelúcia cor-de-rosa com cheirinho de morango, o vilão da vez. Insere-se, na sequência, Bonnie – uma das crianças da creche, eleita para ser a nova dona dos brinquedos de Andy, a partir de um mais que emocionante gesto de generosidade, desapego e confiança entre gerações, ao final do filme.

Toy Story 4 confere limites à máxima, adotada até Toy Story 3, de que todo brinquedo deve ser amado por uma criança e que, em contrapartida, deverá tomar conta daquela criança, incondicionalmente. A franquia resgata, do passado, o destino tomado por Betty - a pastorinha de porcelana e antiga namorada de Woody que compunha o abajur de mesa do quarto de Molly – a irmã caçula de Andy – juntamente com a ovelha de três cabeças – Mariel, Muriel e Abel. Emancipada e dona de si, Betty vive sem suas aventuras e sem amarras a qualquer criança.

Enquanto isso, Woody, ainda como brinquedo de Bonnie, ratifica sua lealdade e sua ideologia sobre os direitos e os deveres dos brinquedos, ao preservar a autoconfiança de sua dona, quando de seu ingresso em nova série da escola, auxiliando-a a montar um novo brinquedo, a partir de restos de recicláveis, catados na lata de lixo. Pronto! – o monstruoso, mas carismático e hilário Garfinho é criado, levado por Bonnie para casa e ganha vida sob o questionamento sobre o que faria daquela composição de lixo um brinquedo.

Novamente, a maldição do brinquedo perdido se faz presente, dessa vez, envolvendo Garfinho, cabendo a Woody a difícil missão de trazê-lo de volta para sua dona, coadjuvado pelos personagens dos filmes anteriores e por novos personagens, cujo antagonismo, dessa vez, fica por conta da boneca Gabby – um brinquedo que não acredita na sua capacidade de conquistar uma criança por conta de sua caixa de voz danificada.

Surpreendentemente, chega a vez de Woody reavaliar seus conceitos sobre sua vida enquanto brinquedo - com a essencial ajuda de Betty - promovendo um ponto de inflexão à linearidade dos roteiros, até então, desenvolvidos, mas garantindo o sucesso conquistado até Toy Story 4, a certeira continuidade da franquia que encanta e emociona gerações, de todas as idades, há quase vinte anos.



Iroko - Meu Universo - Sem qualquer compromisso de conferir ao público um conto que se fecha


Sem qualquer compromisso de conferir ao público um conto que se fecha, muito menos um final feliz


O tempo que segue, à galope, muitas vezes trôpego, mas sempre concedendo uma multiplicidade de tons à vida é materializado, aos olhos do espectador, na dramaturgia assinada por Jeff Fagundes, “Iroko - Meu Universo”. Um dos Orixás mais antigos, Iroko representa o tempo e rege a Ancestralidade. Considerado a primeira árvore plantada na terra, por onde desceram todos os Orixás, representa o líder de todos os espíritos das árvores sagradas.

Não se permitindo limitar-se ao processo conceptivo do espetáculo, Fagundes assume o elenco do monólogo e se torna solo fértil ao enraizamento da percepção do espectador, que sorve, sem pudor e com muito prazer, a história de um menino que desbrava o universo humano e descobre a sua real identidade. A qualidade rastreada pela direção corporal de Palu Felipe dá à luz um balé indolente e arrastado, moroso e pesado, em total sintonia com o fecundo adubo que, sedento por sol, evidencia as ervas daninhas que crescem ao seu redor. A direção musical fica por conta de Pedro Moragas que, apesar de oxidar o sentido da audição do espectador, involuntariamente o lança ao encontro do preciosismo do texto, envolvendo a plateia com a sua aura incensada com fragrância de folhas mortas. O simbolismo sacro é fortemente definido pelo projeto cenográfico e pelo figurino de Bidi Bujnowski que, de forma minimalista, natural e reciclável, recobrem o habitat de Iroko e o corpo do protagonista, em total sintonia com a dimensão de tempo e espaço definida pelo desenho de luz de Jorge Oliveira, que domina o espaço cênico e mantém o espectador atento à interpretação ontológica de Fagundes.


Sem qualquer compromisso de conferir ao público um conto que se fecha, muito menos um final feliz, a história se encerra com a corruptela de “era uma vez”, apresentando a vez de um jovem em busca do caminho que possa conduzi-lo à liberdade de viver, apesar do infindável confronto com os limites que o mantém no eterno combate à discriminação racial.

Santiago, Itália - um longa nitidamente clássico e sem desvios capazes de classificá-lo como um filme híbrido

Um longa nitidamente clássico e sem desvios capazes de classificá-lo como um filme ‘híbrido’



Chile 1973 – a embaixada italiana em Santiago apoia centenas de opositores ao golpe de estado, deflagrando a gênesis de décadas de ditadura militar naquele país.

A partir desse episódio, o generoso olhar de Nanni Moretti conduz a essência de seu trabalho como diretor cinematográfico e formata o documentário “Santiago, Itália” como um longa nitidamente clássico e sem desvios capazes de classificá-lo como um filme ‘híbrido’. A imparcialidade contida nas entrevistas destaca a falta de conflito intelectual num material que deveria ser abrangente e não, conscientemente inconsistente e, por isso mesmo, alguns momentos são capazes de entorpecer o espectador – principalmente quando se coloca Salvador Allende contra Pinochet e liberdade versus repressão.

Somente a partir dos últimos minutos do documentário, o título faz jus à película ao deslocar a atenção do espectador para a embaixada italiana em Santiago – local fundamental para o refúgio de cerca de duzentos e cinquenta pessoas, após a transição brutal da democracia para a ditadura no país sulamericano.

quinta-feira, 13 de junho de 2019

“Disney On Ice - Em Busca dos Sonhos” - coletiva de imprensa nas dependências da Jeunesse Arena Rio de Janeiro




Coletiva de imprensa nas dependências da Jeunesse Arena, com inusitada e exclusiva mostra interativa de algumas das alegorias e adereços cênicos e figurinos originais do espetáculo

A produção de “Disney On Ice - Em Busca dos Sonhos” realiza na manhã de quarta-feira, dia 12 de junho de 2019, uma coletiva de imprensa nas dependências da Jeunesse Arena, com inusitada e exclusiva mostra interativa de algumas das alegorias e adereços cênicos e figurinos originais do espetáculo, além de croquis conceptivos de cenas e de vestimentas do espetáculo.


A abertura do evento fica por conta do Diretor Executivo da Opus Promoções (Versione Souza) em companhia do representante da Feld Entertainment – ambas empresas responsáveis pela realização do espetáculo, que conta com o patrocínio Gold do programa de fidelidade dos postos Ipiranga – Km de Vantagens.

Ainda durante a abertura do evento, patinadores animam jornalistas e youtubers para os acompanharem numa coreografia básica, como um pré-aquecimento visando ao máximo impacto de suas matérias.

Com estreia prevista para o mesmo dia da coletiva, a temporada 2019 de Disney On Ice, que acontece na arena multiuso localizada no Parque Olímpico do Rio de Janeiro, leva aos espectadores, de todas as gerações, a coreografia sobre o gelo com base em animações dos estúdios Disney contemplando as histórias de “A Bela Adormecida”, “A Bela e a Fera”, “A Pequena Sereia”, “Aladdin”, “Cinderela”, “Enrolados”, “Frozen”, “Moana” e “Viva”. O espetáculo, com 110 minutos de duração, é conduzido por um elenco de 21 patinadores – dentre os quais, o brasileiro Mário Castro, que já faz parte do cast desde 1994 – e 25 patinadoras de 15 nacionalidades, sobre uma pista de gelo de 756 m2. Um total de 750 peças de figurino caracteriza os personagens em meio a 200 adereços que, conjugados à boca de cena de 12m x 12m, estão na mira de um desenho de luminotecnia cênica que conta com 898 equipamentos de luz, embalados por 42 caixas de som, totalizando 50.000W de potência sonora instalada, acrescidos de 65 números de efeitos sonoros, ao vivo, durante o espetáculo.

No final do evento, a produção surpreende a todos com a entrada em cena de Mickey e Minnie Mouse para uma sessão de fotos com todos os representantes da imprensa, como um mimo aos inegáveis fãs do eterno casal de camundongos e um tributo a esse 12 de outubro – dia dos namorados.

A superprodução finaliza a sua temporada, na cidade do Rio de Janeiro, em 16 de junho de 2019

quinta-feira, 30 de maio de 2019

Rocketman - o espectador cinematográfico pode testemunhar uma das mais genuínas cinebiografias de um astro pop



Transporta o espectador em meio a uma viagem lisérgica – não óbvia

Durante gratificantes cento e vinte minutos, o espectador cinematográfico pode testemunhar uma das mais genuínas cinebiografias de um astro pop – “Rocketman” reconstitui a vida de Elton John, no período compreendido desde a sua infância até a sua reabilitação contra as drogas e o alcoolismo.

Na linha do tempo, Reg Dwight (nome de batismo do protagonista) é interpretado por Matthew Illesley enquanto criança, por Kit Connor na adolescência e por Taron Egerton, já na fase adulta. Ao longo desse segmento temporal, a ausência de amor na vida de Dwight se faz presente, de forma implacável, a começar pelo tratamento que lhe é dispensado por seu pai (Steven Mackintosh) como se filho dele, o jovem Dwight, não o fosse. Sua mãe, incorporada por (Bryce Dallas Howard), nada faz além de dispensar fragmentos de seu tempo à prática de momentos de afeição, sem qualquer aprofundamento, e a por em prática o desprezo que tem para com o filho, sem dó nem piedade, imputando ao seu nascimento, toda a culpa pela falência do seu casamento. Apoio mesmo, somente por parte de sua avó (Gemma Jones) que, além de olhá-lo com toda a ternura que uma criança merece, percebe seu talento nato para a música e lhe consegue uma bolsa de estudos para que pudesse aprimorar as suas habilidades com o piano, na Royal Academy of Music.

O escopo da direção de Dexter Fletcher retrata-se substancialmente equilibrado, ao tratar a melancólica história de sucesso do artista desde os anos 1970, até a sua reabilitação contra as drogas nos idos 1990.  Sincronizadas pelos maiores sucessos do artista que se auto batiza com o nome artístico Elton John, as músicas desenham, de maneira digna e pungente, temas como: promessa de uma carreira sucesso, parceira profissional, homossexualidade, drogas e álcool, hedonismo, compulsão pelas compras, desequilíbrio emocional e reabilitação – sem deixar qualquer um de seus percalços à sombra e sem lançar mão de clichês biográficos. A história de amor tecida por Fletcher, através do brilho dos olhares de Elton John e Bernie Taupin (Jamie Bell) – letrista dos maiores sucessos do protagonista – consagrada, a intimidade fraterna entre os parceiros e a construção humana do ídolo pop, quando a letra e música se fundem, dando origem ao sucesso de “Your Song”.

"Rocketman" transporta o espectador em meio a uma viagem lisérgica – não óbvia na grande tela, mas através dos meandros obscuros da mente do protagonista, sob o comando de Taran Egerton, possuído pela essência do protagonista, trajando uniforme alusivo a uma ave demoníaca que choca a tudo e a todos – tendo como ponto de partida uma sessão de reabilitação para dependentes químicos. O destino fica por conta de quem ingressou na viagem, podendo terminá-la onde bem entender ou, simplesmente, seguir em frente, mas levando consigo um apelo por um modo distinto de amar – como declamado em ‘I Want Love’ por Sir Elton John.

quarta-feira, 29 de maio de 2019

Godzilla: O Rei dos Monstros - Dando continuidade à sequência da franquia



Destruição sem fim


Dando continuidade à sequência da franquia que lançou o primeiro longa, em 2014 – “Godzilla: O Rei dos Monstros” conserva a monstruosidade da criatura protagonista e de outras, ainda mais bizarras – o pterossauro Rodan, a mariposa Mothra e o dragão de três cabeças Rei Ghidorah – hibernantes na escuridão de seus abrigos.   

O longa se apropria do gancho deixado como espólio pelo primeiro filme da franquia e insufla o drama de Emma e Mark (Vera Farmiga e Kyle Chandler) – casal divorciado que ainda lamenta a perda de seu filho durante o ataque de Godzilla. A disfuncional direção de Michael Dougherty apresenta uma misteriosa empresa que se dedica à pesquisa de monstros colossais, contemplando, em seu quadro de funcionários, na China, a cientista Emma Russell que consegue êxito em seu experimento ao codificar os padrões de linguagem de um monstro e os transforma em sinal alfa dominante. Juntamente com a sua filha Madison (Millie Bobby Brown), a cientista testa o experimento junto à uma larva da mariposa Mothra. Contudo, soldados liderados por Jonah Alan (Charles Dance) sequestram mãe, filha e a máquina.

Desse ponto em diante, o longa se perde em meio a um enfadonho festival de lutas entre monstros em busca da dominação do mundo em que vivemos, contemplando uma sequência de destruição sem fim, sem injetar a menor parcela de tensão dramática, mas somente uma sequência interminável de cenas ofuscadas por muita chuva e neblina, lentes contemplando uma fotografia fechada, privando os espectadores de uma visão panorâmica para o entendimento das cenas contemplando os denominados titãs.

Para aqueles que não se enquadram no gueto dos fanáticos pela criatura de 1954, o longa pesa as pálpebras com sua pegada fronteiriça com a mitologia e com cenas que remetem a diversas versões de Kong, prometendo uma continuidade com o MonsterVerse da Warner Bros. Pictures e da Legendary Pictures.

terça-feira, 28 de maio de 2019

Em Nome do Filho



O universo sensual e desesperançoso regado a burlescas performances musicais

Longe de ser, simplesmente, um drama identificável somente no âmbito da comunidade gay, o espetáculo “Em Nome do Filho” explora as motivações decorrentes da testosterona e sua conexão erodida da consciência heteronormativa cega e com lampejos de desejos GLBTS.

A profundeza perspicaz do texto de Dolores DelRio destaca, de forma genuína, o excesso de decadência em meio a que ainda alguns homossexuais se propõem a viver. A generosa direção de Marco Miranda respeita a homogeneidade dos atores Bruno Islam, Pietro Benvenutti, Anderson Lopes, Gabriel Morgato e Douglas Dgym, sem fazê-los sucumbir frente às divertidas atuações de Gustavo Azaranys e Luis Xaxu, que não se permitem perder diante do protagonismo de DelRio.

A personagem principal classifica a sauna gay ‘Brasil Dourado’ – sob sua direção e onde toda a história se desenrola – como ‘puteiro’, cuja concepção cenográfica – fidedigna à realidade decadente de muitos dos estabelecimentos existentes em grandes centros – reproduz o universo sensual e desesperançoso regado a burlescas performances musicais de travestis, drag queens e go-go boys. Até mesmo os deslizes do desenho de luz e da sonoplastia – explorados pelos atores como deixas para a introdução de cacos no espetáculo – conferem a “Em Nome do Filho” a chance de alcançar o status de drama, mesmo contemplando um humor de gueto. A ideologia de troca e de mais-valia, referente ao câmbio oficial dentro da sauna em questão, é o sexo, que se apresenta como a moeda mais valorizada para os personagens, muito embora todos aparentem preferir afeto, como troco – afinal de contas, o ser humano não se define, exclusivamente, a partir da forma de expressão de sua sexualidade.

domingo, 26 de maio de 2019

Teatro Prudential – Sala Adolpho Bloch



A produtora Aventura Entretenimento lança, em 2019, mais um ousado projeto, patrocinado pela maior seguradora independente no ramo de vida, desde 1998, a Prudential do Brasil

Consagrada a administração do Teatro Riachuelo como marco de excelência em seu portfólio, a produtora Aventura Entretenimento lança, em 2019, mais um ousado projeto, patrocinado pela maior seguradora independente no ramo de vida, desde 1998, a Prudential do Brasil.

À frente da Aventura Entretenimento, os sócios Aniela Jordan e Luiz Calainho, ao perceberem o potencial do empreendimento concebido, partem em busca de um investidor para o “naming rights” e resgatam o funcionamento de um edifício datado da década de 1960, tombado pelo patrimônio histórico, localizado na Rua do Russel, no bairro da Glória, de frente para a praia do Flamengo, no Rio de Janeiro. O até então conhecido como Edifício Manchete – arquitetura assinada por Oscar Niemeyer, paisagismo por Roberto Burle Max e berço das sedes das extintas TV Manchete e Editora Bloch - em 2010, já havia passado por um processo de retrofit, incluindo a restauração do teatro Adolpho Bloch, módulo integrante do edifício.

Aportes financeiros por parte da Aventura e da Prudencial somados ao incentivo da lei Rouanet permitem, a partir de 23 de maio de 2019, a reabertura da sala de espetáculos batizada como Teatro Prudential – Sala Adolpho Bloch, com a estreia de 'Pi : Panorâmica Insana', concebido e dirigido por Bia Lessa. O projeto, além de oferecer à população do Rio de Janeiro e seus visitantes um polo cultural, tendo como âncora um teatro para mais de 300 espectadores, com um palco de 140m2 – equipado para receber uma variedade de apresentações, entre shows, espetáculos teatrais e musicais e apresentações de dança voltados para o público adulto e infantil, além de realização de palestras, com total segurança e conforto – contempla um amplo camarim, cinco salas de ensaio, um foyeur de convivência e um espaço bistrô explorado pelo Café Botta, como mais um ponto gastronômico carioca para almoço e jantar.

Em 21 de maio de 2019, Jordan e Calainho apresentam o projeto à imprensa, no palco da sala Adolpho Bloch, acompanhados pela vice-presidente de marketing & digital da Prudential do Brasil e atual gestora do Teatro – Aura Rabelo, que declara que os interesses da seguradora fazem parte do plano estratégico de construção de awareness no Brasil. Em seguida, o elenco de 'Pi : Panorâmica Insana' – estrelado por Cláudia Abreu, Leandra Leal, Luiz Henrique Nogueira e Rodrigo Pandolfo – debate com a imprensa sobre a atualidade da dramaturgia assinada por Júlia Spadaccini, Jô Bilac e André Sant'anna, com citações de Franz Kafka e Paul Auster, a despeito dos quatro anos do processo de sua concepção. No palco, a realidade nua e crua expõe a dualidade entre o ruim e o belo, ao mesmo tempo que leva ao público a visão poética construída por Lessa e pelos protagonistas.  A noite é encerrada com a apresentação de uma seleção de quadros de renomados musicais nacionais e internacionais, assistido por celebridades do mundo artístico televisivo e teatral, consolidando a necessária ação em compasso com a reflexão, como a materialização de planos e metas, tal e qual concebidos a partir da parceria entre a Aventura Entretenimento e a Prudential do Brasil.


quinta-feira, 23 de maio de 2019

Aladdin - eleva a atual produção Disney



Transportando o clássico mundo da fantasia para uma atualidade que eleva a atual produção Disney a um patamar de excelência

A produção live-action do 31° longa de clássicos da Disney – "Aladdin" – promete divertir, encantar, resgatar e atrair um público de um espectro etário que, certamente, se entregará às maravilhas das mil e uma noites, repletas de aventura, fantasia e números musicais coreografados, com fidelidade surpreendente à versão animada de 1992.

O enredo se desenrola no sultanato de Agrabah, no Oriente Médio, e conta a história de amor entre um ladrão que vive de pequenos furtos, mas dotado de um bom coração – Aladdin (Mena Massoud) e da Princesa Jasmine (Naomi Scott) que, apesar do luxo que a vida lhe proporciona como filha do sultão, vive em busca de realizações que vão muito além das muralhas do palácio.

Ambicioso e desleal ao seu sultão, o perverso feiticeiro e grão-vizir Jafar (Marwan Kenzari) alista Aladdin para que acesse a Caverna das Maravilhas, visando ao resgate de uma lâmpada mágica – moradia milenar de um gênio (Will Smith) capaz de conceder três desejos a quem o evoca, esfregando o artefato com a mão. Frustrando os planos de Jafar, Aladdin acaba libertando o gênio da lâmpada e usa o primeiro de seus três desejos para se tornar um príncipe, a fim de cortejar a princesa Jasmine (Naomi Scott) – a quem conhece, fortuitamente, no mercado público de Agrabah, acreditando ser, simplesmente, a serva da filha do sultão – que, para seu desgosto e por força de lei, só poderia desposar com a realeza. Em meio a encontros, desencontros, atos de boa fé e conspirações, o roteiro se desenvolve repleto de fatos capazes de serem identificados com a realidade atual e prestar lições sobre questões sociais, políticas e econômicas e no que tange a tradições, poder, emancipação feminina e ética.

A escolha mais que certeira de Guy Ritchie para a direção da versão “Aladdin” 2019, infunde considerável energia e efervescência em todos os números musicais da história – tal e qual o fizeram Ron Clements e John Musker ao dirigirem a versão clássica animada – desta vez, remetendo o espectador a um espetáculo bollywoodiano, concebido a partir de conceitos de superprodução.

A versão “Aladdin” de Ritchie supera as expectativas, desde o lançamento dos trailers e teasers que velam, ao espectador, qualquer possibilidade de spoiler, garantindo-lhe o fator surpresa e fazendo valer cada centavo investido na compra do ingresso. A atualização dos personagens, tornando-os humanos, informados e politicamente ativos é potencializada pela surpreendente incorporação de Will Smith, contemplando arrogância, charme e emotividade – princípios ativos que definem a marca registrada do diretor – que não mede esforços para prover a produção de recursos técnicos de primeira linha, tais como a excepcional computação gráfica aplicadas aos seres animados não humanos, à concepção cenográfica aliada à dinâmica das cenas nas ruas de Agrabah, ao vizagismo e ao figurino policromático – contemplando riqueza em diversidade têxtil, passamanaria e pedraria.

A contagiante trilha sonora deve ser observada como uma questão à parte – uma vez que se torna impossível eliminar seu efeito obsessor, horas à fio após a saída da sala de projeção – incrementada pela adição de músicas inéditas, dentre as quais, "Speechless" – composta por Benj Pasek e Justin Paul, soa como um hino de capacitação feminina, transportando o clássico mundo da fantasia para uma atualidade que eleva a atual produção Disney a um patamar de excelência, poeticamente alcançado em promissor sobrevoo pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, à bordo de um tapete mágico.

quarta-feira, 22 de maio de 2019

Tolkien - um filme elaborado



Um filme elaborado com esmero mas, até certo ponto, estereotipado

Ao fornecer detalhes sobre a vida do autor dos livros de fantasias que inclui ‘O Hobbit’ e O Senhor dos Anéis’, o longa “Tolkien” não explora as motivações e nem as influências do processo de criação de J.R.R. Tolkien, enquanto processo conceptivo de seus personagens.

A partir de uma cronologia tatibitate, o espectador assiste à ofensiva do Somme – travada em 1916, considerada uma das maiores batalhas da Primeira Guerra Mundial – durante a qual, o soldado John Ronald Reuel Tolkien (Nicholas Hoult), acometido pela doença das trincheiras, se entrega à busca por um amigo de colégio que se encontra desaparecido, diante de um cenário tomado por imagens infernais. Aproveitando-se da riqueza estética que o tema lhe proporciona, em meio a silhuetas formadas por rastros de fumaça e explosões, a direção de Dome Karukoski sugere a fonte de inspiração para a criação do dragão Smaug, enquanto as alucinações de Tolkien assumem o ponto de partida, permitindo que a filmografia transcorra de maneira suave, sem muitas surpresas e, aparentemente, desfocado dos outros três livros que servem de alicerce para impulsionar a cinebiografia formada por: “A Sociedade do Anel”, “As Duas Torres” e “O Retorno do Rei” – limitando-se a uma breve menção ao primeiro volume intitulado “O Hobbit”.


Para o deleite do espectador casual e daqueles que se entregaram à trilogia cinematográfica dirigida por Peter Jackson, Karukosk exalta a juventude trágica do protagonista – seu lar adotivo, sua escola preparatória, seus barulhentos e arrogantes amigos de classe e seus momentos na universidade. Apesar do fato de que o resultado de tudo isso seja mais que satisfatório para quem apenas encara cinema como diversão e, até mesmo, uma obsessão, as fagulhas imaginativas do homenageado protagonista, tão importantes para a compreensão de suas obras e também sobre a sua vida, parecem seleta e cautelosamente colocadas à parte, fazendo de “Tolkien” um filme elaborado com esmero mas, até certo ponto, estereotipado, por não explorar e não satisfazer o espectador com uma visão mais aprofundada do intelecto daquele responsável pela criação de um universo idiomático que intriga uma legião de fãs, por todo o planeta.

quinta-feira, 16 de maio de 2019

O Sol Também é Uma Estrela



Finaliza de forma madura, mas deságua de maneira genérica em um lugar comum

Os pensamentos do astrônomo Carl Sagan servem de cupido para o mais novo longa direcionado a adolescentes, sob direção da americana Ry Russo-Young – “O Sol Também é Uma Estrela”, baseado no livro homônimo de Nicola Yoon.  

Num extremo, Natasha (Yara Shahidi) - uma jovem jamaicana que comunga com as teorias de Sagan, cética com relação a tudo que não possa ser demonstrável e confirmado cientificamente, legitimando o amor como pura invenção da mente de quem insiste ou precise acreditar no seu propósito na vida prática - está prestes a ser deportada de Nova Iorque para sua terra natal. Noutro, Daniel Bae (Charles Melton) – um aspirante a poeta, imigrante da Coreia do Sul que, por insistência dos pais, se prepara para uma entrevista para concorrer a uma vaga na universidade de medicina. As histórias dos dois adolescentes se cruzam quando Daniel se depara com a frase estampada na jaqueta de Natasha – ‘Deus Ex Machina’ e, por acreditar no seu significado – uma pessoa que surge, inesperadamente, para resolver um problema, aparentemente insolúvel – ele a persegue até conquistar a sua atenção.

A jovial direção de Ry Russo-Young se faz, provocantemente, intrusiva, de mãos dadas com a fotografia de Autumn Durald Arkapaw, que emana uma esperança implacável no contexto da história, mesmo com as suas reversões descompromissadas com a realidade. A tendência filosófica do roteiro de Tracy Oliver brinca, ao unir a sensatez de Carl Sagan com os poemas de Emily Dickinson e flerta com a intolerância da atual política migratória dos Estados Unidos.  “O Sol Também é Uma Estrela” finaliza de forma madura, mas desagua de maneira genérica em um lugar comum, não deixando claro se, de fato, o conhecimento determina o destino.

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Kardec



Uma obra de arte sombria e misteriosa que eleva a cinebiografia ao patamar qualitativo das obras internacionais

Ao se insubordinar contra a fiscalização das instituições de ensino pela igreja católica, a imposição sacerdotal para que os professores recitassem o catecismo e zelassem pela moral cristã nas salas de aula – em total desrespeito à laicidade do sistema de ensino e do Estado – o professor Hippolyte Léon Denizard Rivail – influente educador, autor e tradutor francês – lança mão do seu direito à aposentadoria de seu ofício acadêmico e, sob o pseudônimo de Allan Kardec, se notabiliza como codificador e divulgador do Espiritismo, também denominado de Doutrina Espírita.

Longe de qualquer subestimação intencional quanto ao talento de Leonardo Medeiros, frente ao desafio de se transformar a cada papel, ou de qualquer conotação mediúnica, o ator incorpora Rivail, humana e confortavelmente, fazendo com que o longa “Kardec” cumpra a sua meta de propagar a história baseada no livro de autoria do jornalista, escritor, roteirista e diretor brasileiro Marcel Souto Maior. Cabe a ressalva que o reconhecimento do predicado quanto à excelência interpretativa dos personagens deve ser estendida à totalidade do elenco que, juntamente com a direção de arte, fotografia, efeitos visuais, trilha sonora, figurino, penteado e maquiagem, recriam uma Paris da segunda metade do século XIX – uma obra de arte sombria e misteriosa que eleva a cinebiografia ao patamar qualitativo das obras internacionais, fruto da mais que perfeita direção do roteirista e diretor brasileiro, Wagner de Assis.

Ao facultar ao espectador o entendimento do gênesis da doutrina que explica a vida após a morte, segundo o Kardecismo, Assis expõe as engrenagens do espiritismo, numa época em que adultos e crianças ainda não são qualificados como moradores de rua, mas reconhecidos como adultos e crianças que mendigam por um prato de sopa rala e pão seco, tanto e quando, piedosamente ofertados pela burguesia francesa. O catolicismo, como conforto e consolo social para os menos abastados e modelo difundido como moralmente correto – apregoador do “... tudo o que o homem semear, isso também ceifará” – entra em colisão com a possibilidade de término da hegemonia daquela religião na Europa, com a chegada do espiritismo – defensor da aceitação das condições às quais os indivíduos estão sujeitos, como penalidade decorrente a atos cometidos em vidas anteriores.

Mesmo visivelmente racional, o longa não consegue consagrar a evolução espírita fora de uma obra de ficção, onde mesas flutuam e giram no ar, a despeito do credo do espectador, passível de ser contestado por qualquer pessoa com um mínimo de senso crítico – da mesma forma que acontece com a própria parapsicologia, com a ufologia e, até mesmo, com a teologia



terça-feira, 14 de maio de 2019

Hellboy



Anticlímax e história desinteressante

A partir da missão que visa acabar com as ambições genocidas da maléfica feiticeira Nimue, dá-se início à reinicialização do filme “Hellboy” – um ser de aspecto satânico, filho de um demônio com uma feiticeira. A ação se desenvolve estabelecendo uma linha tênue entre a repulsa e a falta de inventividade, presente na essência do caçador de monstros que, ao confrontar suas próprias origens e a sua existência como “meio homem-meio diabo”, luta para salvar o mundo das garras da Rainha de Sangue – Vivian Nimue, esquartejada pelo Rei Arthur. Os pedaços de seu corpo foram trancados em caixões, separadamente, visando impedi-la de passar pela terra com sua gangue apocalíptica.

Se por um lado, o diretor britânico Neil Marshall se aprofunda na amplitude de Hellboy, para a felicidade dos fãs dos quadrinhos, acaba por contrariar os não familiarizados com o universo dos gigantes, composto por: bruxas, lutadores de luta livre, lobisomens leopardos, rituais ocultistas nazistas, Rasputin, Leni Riefenstahl, Sasha Lane – como uma psíquica que vomita Aparições, um homem-javali, a escrivaninha de Winston Churchill, Merlim, místicas sociedades secretas e óbvio, Baba Yaga – azáfama repleta de agressões visuais gratuitas sob riffs de guitarras, trilha sonora anticlímax e história desinteressante.

Ironicamente, o alívio é alcançado pelos acordes de “Kickstart My Heart” – da banda Mötley Crüe, prenunciando o fim que, para os menos aficionados por Anung Un Rama, chega tarde demais.


O Censor



Progressiva sobreposição de realidade

Um conto que exala sensualidade se enquadra, significativamente, em meio a uma atualidade política, bizarramente, marcada pelo retrocesso.

Na atual temporada, o drama, fracionado a partir de duas coordenadas, se manifesta, precipuamente, num lugar incomum – numa das sala de projeção do Grupo Estação, em Botafogo, Rio de Janeiro – onde as provocações concebidas pelo dramaturgo e diretor escocês – Anthony Neilson, evidenciam a sua capacidade valer-se do sexo e da violência, como instrumentos através dos quais, mesmo que um tanto quanto vulgar, consegue chocar e confrontar o espectador, de modo inquietante.

Visceralmente enigmático, os fragmentos do quebra-cabeça proposto pela criação geral – compartilhada por Alexandre Varella, Cavi Borges e Patrícia Niedermeier – são montados no escritório localizado em um porão, no qual um censor conduz o seu ofício passando a tesoura em filmes pornôs.

Ao receber a visita de uma desconcertante diretora de cinema que se sente vitimada por ter um de seus filmes barrados pela caneta do profissional, a cineasta tenta convencê-lo de que o seu longa – que contempla nada além de atos sexuais explícitos – de fato, trata-se de uma história sutil de aprofundamento de um relacionamento humano. O lascivo desempenhado pelos personagens, convincentemente incorporados por Varella, Niedermeier e Emilze Junqueira, surpreendem ao sensualizarem as cenas sem qualquer atitude ou exposição corporal explícita, estimulando, consequentemente, a imaginação do espectador.

Se por um lado, a despretensão da sala de espetáculos possa sugerir, para os olhares externos, um árduo desafio para definir qualidade da produção, por outro, para Borges, trata-se de uma questão de oportunidade de pôr à prova, o seu jogo de cintura associado a uma direção criativa. Dentre os recursos tecnológicos cênicos, se destaca a iluminação de Luiz Paulo Nenen, como auxiliar no processo de sedução desempenhado, sobrepondo-se aos medos e fobias expostos pelos protagonistas, tornando forte e crível os seus enfrentamentos diante das questões sexuais abordadas. Os enlouquecedores vídeos de Cavi, Christian Caselli, Terêncio Porto e Hsu Chien estimulam opiniões sobre o papel do sexo e da intimidade física, beirando o primitivo a ponto de levar à quebra de tabus.


A progressiva sobreposição de realidade e de fantasia no espetáculo “O Censor” comunica-se, furtivamente, com o contraditório, ao se auto-intitular uma peça-filme, apenas por contemplar um telão onde são projetadas cenas desconexas e a apresentação acontecer em uma sala de cinema. A limitação do foco sob tal perspectiva, conduz a compreensão a uma estranha Mary Poppins, capaz de eliminar o problema sem permitir que seus agraciados avancem além dos limites permitidos à aproximação de terceiros. Portanto, a tática aparentemente usada por cineastas, com vistas ao ar de intelectualidade para as suas superfícies profanas, somente vela o olhar para algo que possa existir além da imagem – tal e qual clama a cineasta ao seu censor. 

terça-feira, 7 de maio de 2019

Cemitério Maldito



Causa uma profunda tristeza no espectador que anseia por algo, realmente, assustador.

O doutor Louis (Jason Clarke), a dona de casa Rachel (Amy Seimetz) e seus dois filhos – Ellie (Jeté Laurence), de 8 anos e Gage, o bebê – logo depois de se mudarem para uma nova casa, a família descobre que seus extensos terrenos abrigam um cemitério de animais.  Quando o doce gatinho de Ellie é atropelado por um caminhão, o vizinho Jud (John Lithgow) sugere um local, além do cemitério, para enterrá-lo e, como em um passe de mágica, o felino volta a viver. Porém, a partir de então, o felino passa a não mais ser bonzinho, fato esse que provoca a sua rejeição por parte de Ellie.

Essa nova versão de um romance de Stephen King, de 1983, está longe de ser tornar um clássico – muito menos, um filme cult – muito devido à direção de Kevin Kölsch e Dennis Widmye que, com um tom beirando ao deja-vú, causa uma profunda tristeza no espectador que anseia por algo, realmente, assustador. O volátil roteiro expõe a história a uma desinteressante reflexão sobre a morte, o luto, a solidão e a maldade que espreita o âmago de todos os seres vivos.

“Cemitério Maldito” se acovarda no vazio do sofrimento, que interage diretamente com credos. Portanto, perde a essência do romance de King e, por não ousar alçar voos mais longínquos, torna-se apenas mais um filme, dentre outros tantos repletos de sustos previamente programados.

segunda-feira, 6 de maio de 2019

A Não Ser Que Seja



Derruba a moralidade do individualismo e se firma, ao se desgarrar do sistema que pinta o mundo do jeito que lhe é conveniente.

Sem qualquer explicação lógica do encontro ou indicativo sobre a origem dos três personagens contemplados pelo texto de Moisés Salazar, o espetáculo “A Não Ser Que Seja” desconstrói doutrinas sociais e políticas, poupando a plateia de ser insuflada por pensamentos ou ideologias polarizadoras.

Ao intercambiar informação e conhecimento como mecanismo catalisador da atenção do público, adotado pela sua direção, Oscar Saraiva elege Ludmila Brandão, Thor Vaz e Moisés Salazar como fiéis depositários de um conteúdo intelectual, contemplando humor inteligente, de um espetáculo repleto de visíveis significados em meio às suas conexões fortuitas.

Como um turbilhão de ideias, atitudes e pensamentos, a concepção cenográfica assinada por Laura Fragoso - fundamentada em projeções e jogos de espelhos - promove intencional ilusionismo espacial, ao mesmo tempo que define um horizonte pontuado por reflexões que, em algum momento, são responsáveis por seduzir o espectador a assistir ao espetáculo, ou linearizado pelo “nada” - que servirá de esteio para experiências de vida vindouras após o término da apresentação.

A atmosfera sombria, que vela as atrocidades dos massacres decorrentes das batalhas travadas no cotidiano, envolve a plateia, promovendo um diálogo marcado pelo dinamismo capaz de propiciar, ao espectador, uma experiência digerível, a despeito da acidez presente na temática discorrida pelos protagonistas. Adicionalmente, a trilha sonora de Anderson Primo atua como facilitador do processo de assimilação do espetáculo por parte do público e empurra, goela abaixo, todas as incógnitas inseridas na equação - composta por infinitas variáveis sócio econômicas - que não fecha.

A casualidade expressa pela aparente falta de discernimento dos personagens é justificada pela presença da sátira infinita e da crônica, onipresente no figurino de Renato Gremião, capaz de provocar inquietação, nervosismo e confusão ideológica pela predominância da cor escarlate. A cara da realidade fica por conta do visagismo de Carol Catalão, captador de conceitos puros, mas desprovido de conteúdo concreto.

Aparentemente, o espetáculo não gera uma definição consensual entre o espectador e os personagens, mas o desenho de luz de Elton Pinheiro faz toda a diferença em associação com a composição cenográfica – tradicional e politicamente disponibilizada, dando a entender a sua consciência de manutenção da ordem de uma história falsamente desordenada.


O mix de pequenos contos de “A Não Ser Que Seja” derruba a moralidade do individualismo e se firma, ao se desgarrar do sistema que pinta o mundo do jeito que lhe é conveniente, sem exame crítico, sem qualquer rigor sobre os pensamentos, mas ponderando, desde sempre, os olhares mais apurados de quem pensa diferente.

quinta-feira, 2 de maio de 2019

Tudo o que Tivemos



Pessoas imóveis em seus sofrimentos, diante de uma guerra travada entre o existencial e a inevitável tomada de decisões, à sorte da imprevisibilidade.

Uma história que se meandra, suavemente, pela demência de Ruth (Blythe Danner) – a amada esposa de Bert (Robert Forster). Durante um de seus momentos de perambulação, sob neve intensa, Ruth é resgatada e se torna objeto de tomada de decisões de seu próprio destino pelo casal de filhos adultos e pela neta adolescente que, relutantes, se reúnem na casa dos idosos, em Chicago, às vésperas das festas natalinas.

A pureza contida no filme “Tudo o que Tivemos” se dá graças à direção de Elizabeth Chomko, que sensibiliza o espectador, não somente, durante todo o longa, mas mesmo após o seu  inesperado termo; diverte com seu humor, como um dispositivo de enfrentamento consciente sobre o universo do mal de Alzheimer.

O discreto porém, luxuoso elenco – coestrelado por Hilary Swank, Michael Shannon e Taissa Farmiga – confere o elevado tom intergeracional ao drama família, com performances naturais, fortes, intrépidas e intratáveis, que desenham o estranho retrato de pessoas imóveis em seus sofrimentos, diante de uma guerra travada entre o existencial e a inevitável tomada de decisões, à sorte da imprevisibilidade.

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Mademoiselle Paradis



Situações instigantes junto ao indescritível método de associação entre magia e ciência, conferindo, ao longa, uma aparência exótica, mas longe de qualquer objetividade.

Na segunda metade do século XVIII, a história real de uma pianista e compositora austríaca – Maria Theresia Paradis (Maria Dragus), nascida em uma família abastada que tenta, a qualquer custo, encontrar um tratamento que devolva a visão de sua filha – cega desde a infância – independentemente dos métodos adotados, dolorosos sou não. Após inúmeras tentativas infrutíferas, Paradis passa a ser tratada pelo renomado médico e magnetizador – Dr. Franz Anton Mesmer (Devid Striesow), entre os anos 1776 e 1777. Surpreendentemente, as técnicas de impostação de mãos e massagem de Mesmer habilitam Paradis ao início do resgate do sentido da visão, ao mesmo tempo que, a sua habilidade, como pianista, tem audíveis sinais de declínio – até que a cegueira reassume seu lugar, junto à protagonista, em caráter permanentemente, cedendo lugar para a retomada do seu dom como instrumentista.

O intencional olhar da direção de Barbara Albert incorpora situações instigantes junto ao indescritível método de associação entre magia e ciência, conferindo, ao longa, uma aparência exótica, mas longe de qualquer objetividade – correndo o risco de desviar a atenção do espectador, da tela, para si mesmos. Em função de um subjetivo fortalecimento pelo seu visual e sensibilidade estética, durante noventa e sete minutos de projeção, o espectador é convidado a percorrer sequências de salas rococós, adornadas por exuberantes pinturas murais, por entre as quais, a humanização dos personagens é evidenciada pelos delicados retoques faciais do visagismo e pela ostentação de um figurino de época impecável. 

Enquanto isso, a protagonista segue a sua jornada traçada pelos seus pais, ameaçando “Mademoiselle Paradis” com a perda da força do drama, fomentada pela evocação das arbitrariedades de uma classe social, de um sistema de saúde e de uma política por detrás dos avanços médicos – uma intrincada teia de confrontos entre o poder e o bem estar.