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sexta-feira, 15 de março de 2019

Auto Eus – A Ditadura da Aprovação Social



Radicalmente distraído no sentido fundamental de, apenas, não ser

Segundo alguns estudos de questões gerais e fundamentais relacionadas com a natureza da existência humana, o ser é considerado como o conceito mais universal e mais vazio de todos, resistente a qualquer esforço intelectual por uma definição. Muito menos abstrato do que o olhar da nossa vã filosofia possa lançar sobre a matéria, o espetáculo “Auto Eus – A Ditadura da Aprovação Social” delineia o seu contexto sobre o ser e o expõe através de um pungente autoretrato da atriz e personagem Adriana Perim que, dentro da progressão temporal da história contada, evidencia o sentido do progresso e da evolução do ser transportado para o espaço cênico.

A fenomenologia contida na direção de Raíssa Venâncio traz à luz o processo de abstração compreendida pela obscuridade humana, da mesma forma que a estrutura proposta faz emergir o sentido filosófico do fim que justifica os meios, como uma espiral fragmentada, plural e multifacetada de um corpo que conduz toda a dramaturgia de Perin, Paula Vilela e Venâncio. A direção de movimento e a preparação corporal, sob a égide de Lavínia Bizzotto, introduz à dramatização o sintoma da realidade, poupando o espectador, estrategicamente, da explicitação da doença emocional latente em todos os seres. A aparente doutrina fundamentada em movimentos e palavras é intuída pelo desenho de luz de Renato Machado que, como uma consciência finita, tem a sua importância justificada e inexplicavelmente mergulhada no nada ilusório. O esquecimento da dimensão profunda da personagem retorna sob a direção musical de Daniel Lopes que, dentre outros, presenteia a plateia com Beirut e Radiohead, superando a angústia manifestada pelo mundo sobre o ser.

A autenticidade do espetáculo reconduz o espectador ao encontro consigo mesmo, sem ser subjugado pela ditadura do impessoal, sem alienação de afazeres decorrentes da obrigação social e radicalmente distraído no sentido fundamental de, apenas, não ser.

quinta-feira, 14 de março de 2019

Um Funeral em Família




Capaz de convencer somente os que se satisfazem com um padrão de humor mediano



Anthony (Derek Morgan) – o patriarca da história do filme “Um Funeral em Família” –  é encontrado morto em um quarto de hotel na Geórgia, após uma noite de sexo violento com a melhor amiga de sua esposa. O ocorrido é testemunhado por Madea (Tyler Perry), em companhia de sua tia Bam (Cassi Davis) e Hattie (Patrice Lovely), que se preservam ao não comentar o acontecido. Todos estão no hotel para comemorar o aniversário de casamento de Anthony e Vianne (Jen Harper). Como agravante, AJ (Courtney Burrell) – o filho casado de Anthony – ocupa o quarto ao lado, desfrutando de um encontro com Gia (Aeriél Miranda) – a noiva de seu irmão, Jesse (Rome Flynn).

Mabel "Madea" Simmons é um personagem criado e interpretado por Tyler Perry. O longa é o décimo primeiro e derradeiro episódio da franquia da personagem que é conhecida, nos Estados Unidos da América, por suas caracterizações. O escritor/diretor/intérprete Tyler Perry, ao invés de finalizar a franquia de maneira razoavelmente digna, prefere entregar algo maculado por desinteressante enredo, que  fica em torno das infidelidades conjugais dos personagens mais jovens e sem nenhum carisma - frutos de sua direção desfocada.

A desequilibrada e insossa história que abusa do estereótipo, da vulgaridade e dos diálogos pobres tende a incluir brigas barulhentas, na tentativa de ludibriar o espectador com um mínimo de bom gosto, diante da insensatez de seu controle de qualidade – uma artimanha capaz de convencer somente os que se satisfazem com um padrão de humor mediano, mesmo sem ter acompanhado ou ter ouvido falar de Madea.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Soledad – A terra é fogo sob nossos pés



Evidenciando que a realidade atual pode assumir vieses tão árduos quanto os percorridos nos anos de chumbo

Para contar a história de um dos mais brutais crimes políticos cometidos no Brasil, em 1973 – conhecido como o Massacre da Chácara São Bento – quando a poeta e intelectual paraguaia, Soledad Barrett Viedma, foi cruelmente torturada e morta pela Ditadura Militar em Pernambuco, o espetáculo “Soledad – A Terra É Fogo Sob Nossos Pés” se vale, como ponto de partida do processo de encenação, o livro do escritor pernambucano Urariano Mota - ‘Soledad no Recife’.


A dramatização universal de Hilda Torres – traduzida pela sua companheira de palco, intérprete de Libras, Juliana Gonçalves – que trilha todos os pontos nebulosos do regime instaurado que tomou o Brasil a partir de 1964, é regida pela emotiva direção de Malú Bazán, também responsável por aproximar o espectador dos bastidores emocionais dos torturados pela ditadura – impossibilitando que, à metáfora que adorna o subtítulo do espetáculo, seja imputada qualquer responsabilidade por uma eventual conotação fictícia, mas uma forte e densa implicação política, evidenciando que a realidade atual pode assumir vieses tão árduos quanto os percorridos nos anos de chumbo.


Exercendo a sua capacidade interdisciplinar dentro de sua própria direção, Bázan também é a responsável pela concepção cenográfica e do figurino, exaltando a sua clarividência e lucidez intelectual ao modelar a submissão dos excluídos entre as classes sociais. No palco, Bazán  estende um véu formado por um patchwork de páginas de arquivos da autocracia militar que se encaminha ao altar erigido sob a escusa do extermínio da diversidade em prol de uma utopia da construção de uma sociedade homogênea e massificada. A desesperançosa viagem de volta ao obscuro passado é iluminada pelo desenho de luz de Eron Villar que conduz os espectadores a um mergulho nas sombras, após serem superexpostos aos ofuscantes focos de luz e esquecidos ao sabor da penumbra que embala o silêncio pessoal, responsável pela exposição de suas fraquezas humanas. Lucas Notaro, com a sua direção musical conceitual, corrobora na narrativa sobre guerrilhas, mortes e torturas contidas na dramaturgia de Torres e Bazán, definindo uma paisagem sonora capaz de conduzir o espectador à reflexão sobre as incompreensíveis resistentes manifestações em favor da volta de uma ditadura acima de tudo, abençoada por um Deus que estaria acima de todos.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Minha Fama de Mau



Não se propõe ao esclarecimento e ao mergulho nos fatos marcantes da vida do artista, mas, a despeito da compilação dos seus principais sucessos, passa ao largo de um viés dramático.


Uma proposta cinebiográfica de um dos ícones da Jovem Guarda fracassa ao se limitar ao universo abordado pelo livro homônimo, a partir do qual foi baseado. “Minha Fama de Mau” lança o seu olhar seletivo, ora em passagens felizes, ora engraçadas, reprisando o sugerido processo de estagnação que teria sido submetido o autor do livro - o cantor Erasmo Carlos - no início dos anos 1990.

A benevolente direção de Lui Farias sugere um voluntário empenho pela sonegação de fatos reais, sobrepondo-se à efetiva narrativa da história da fama de mau de um garoto que se tornou o Tremendão. Farias priva o espectador dos meandros da indústria fonográfica no período compreendido entre o fim dos anos 1950 e o começo dos anos 1970 – época em que o trio formado por Wanderléa, Roberto Carlos e Erasmo Carlos, no programa de maior audiência nas tardes de domingo - Jovem Guarda. Também falta, ao espectador, saciar a sua demanda pelas diligências sobre os principais sucessos do astro, da mesma forma que sua história familiar não surpreende, sequer agrega muito ao roteiro. A repentina amizade com Roberto Carlos é tão pouco esclarecida quanto o destino de Wanderléa após a interrupção definitiva do programa televisivo. A intenção em homenagear o grande amor de Erasmo Carlos soa caricata, através de seu suposto envolvimento com mulheres distintas nomeadas Lara, Clara e Samara – todas interpretadas por uma única atriz, como uma metáfora a Narinha, mãe de seus três filhos.

“Minha Fama de Mau” não se propõe ao esclarecimento e ao mergulho nos fatos marcantes da vida do artista mas, a despeito da compilação dos seus principais sucessos, passa ao largo de um viés dramático e da psique de um Erasmo, ainda adolescente, que esteve a um passo de um portal para a marginalidade.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Se a Rua Beale Falasse

Impacta o espectador, emocionalmente, desde os primeiros minutos de projeção

A história romântica de Tish e Fonny (KiKi Layne e Stephan James) – amigos de infância que se transformam em almas gémeas adultas – torna-se uma tenebrosa história quando Fonny é acusado de estupro por uma mulher e Tish se descobre grávida.

Baseado no romance homônimo de James Baldwin – o filme “Se a Rua Beale Falasse” impacta o espectador, emocionalmente, desde os primeiros minutos de projeção. A partir de uma linha de tempo não linear idealizada pelo diretor Barry Jenkins – o mesmo de ‘Moonlight’ – o longa revela, ao espectador, o que é velado aos olhos dos personagens, por isso mesmo, reservando, somente para quem assiste, qualquer fragmento de esperança por um final minimamente digno – como ocorre quando se assiste a noticiários que reportam pessoas condenadas a pena de prisão, quiçá de morte, mesmo quando sua inocência não tenha, em tempo, sido comprovada. 

Embora o longa retrate o Harlem dos anos 70, a essência de “Se a Rua Beale Falasse” confere com a atualidade mundial, onde as injustiças e o fanatismo religioso contribuem para que atrocidades, de todas as ordens, não tenham fim. 

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Verão na Lagoa - Blitz & Biquini Cavadão


A Blitz faz a festa para os saudosistas dos anos 1980 e deixa o público aceso para a atração seguinte da noite – a banda Biquini Cavadão que, com todo o gás, abre o show com “Vital e Sua Moto”

O palco do Clube Monte Líbano, na Lagoa – Rio de Janeiro, dá início à série de shows do Verão na Lagoa 2019 com as bandas Blitz e Biquini Cavadão, na sexta-feira, 1º de fevereiro.

A banda Blitz abre a temporada com os seus clássicos “Weekend” “Egotrip”, "Betty Frígida", "A verdadeira história de Adão e Eva", dentre outros, e a mais recente música em parceria com Roberto Frejat "Baile Quente" – com a banda configurada por Juba (bateria) e Billy Forghieri (teclados), Rogério Meanda (guitarra) e Cláudia Niemeyer (baixo) e as cantoras Andréa Coutinho e Nicole Cyrne. A Blitz faz a festa para os saudosistas dos anos 1980 e deixa o público aceso para a atração seguinte da noite – a banda Biquini Cavadão que, com todo o gás, abre o show com “Vital e Sua Moto”, “Se Eu Não Te Amasse Tanto Assim”, “Aonde Quer que Eu Vá” e músicas do seu mais novo álbum ‘Ilustre Guerreiro’ – uma homenagem ao cantor Herbert Vianna, da banda Os Paralamas do Sucesso. Dando continuidade ao show, o vocalista Bruno Gouveia arrebata o público com “Múmias”, “Tédio”, “Janaína”, “Impossível” e muitos outros sucessos de carreira da Banda, atualmente composta por Carlos Coelho (guitarra), Miguel Flores da Cunha (teclados) e Álvaro Birita (bateria).

A programação de Verão na Lagoa 2019 desta última sexta-feira  foi marcada por um público cantante e dançante, cem por cento do evento, que matou a saudade dos anos 80, uma vez que, a cada intervalo, o DJ tocou de Oingo Boingo a The Police, fazendo com que todos se divertissem como se não houvesse um amanhã.

domingo, 3 de fevereiro de 2019

Espelhos



Atravessa o portal fronteiriço entre Machado de Assis e Guimarães Rosa


Lançando o seu olhar seletivo nos dois contos homônimos de Machado de Assis e Guimarães Rosa – “O Espelho”, o espetáculo “Espelhos” discorre sobre a dubiedade e a infidelidade intrínseca na propriedade reflexiva de um espelho, defendendo o descrédito da imagem refletida, tendo em vista as deformações, os aperfeiçoamentos e as desigualdades reprodutivas do ser retratado em sua superfície.

Ao defender a teoria de que cada indivíduo possuir duas almas – uma exterior e outra interior, Jacobina – um homem machadiano, de origem humilde, que conquista uma posição melhor na vida por conta de uma nomeação a um posto militar – torna-se objeto de uma profunda análise cênica por parte do ator paranaense Ney Piacentini que, através de sua singular faculdade interpretativa, descarrega sobre o espectador, pérolas  que induzem à reflexão sobre “o ser” versus “o parecer”, sobre “o desejo” versus “o disfarce”, sobre “a vida pública” versus ”a vida pessoal”.

Em perfeita mixagem de textos e prosseguindo como simbióticos exímio narrador e pantomimo marceauliano, Piacentin atravessa o portal fronteiriço entre Machado de Assis e Guimarães Rosa e assume o personagem que não se reconhece ao se olhar no espelho, expondo o espectador ao seu próprio reflexo, induzido por Piacentin, a se entregar aos mesmos questionamentos do narrador.

O desenho de luz e o projeto cenográfico de Marisa Bentivegna fazem parte de uma instalação dependente da interatividade do elenco e da operação de luz e som com vistas ao aliciamento do espectador na participação do jogo de convencimento refletido em cena. O lirismo contido no figurino de Fábio Namatame traz marcas dos efeitos das paixões e das pressões psicológicas que dissimulam as máscaras que entravam a expectativa dos encontros. A enigmática paisagem sonora concebida por Miguel Caldas, de braços dados à luminotecnia cênica e ao cenário, sela o tom de magia e mistério do monólogo, desligando, por completo, o espectador do mundo exterior.

Segundo um referencial psicanalítico, o espetáculo, aborda o narcisismo como uma estruturação desenvolvida pelo eu interior e implanta, em sua derivação, o processo de identidade do ser medido pela consciência moral e ética decorrente do mito que acha feio o que não é espelho.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Vice



“Vice” – a cinebiografia sobre Dick Cheney, estilizada e sombriamente engraçada, inicia-se com Cheney (Christian Bale) como um bêbado de 22 anos em seu estado natal de Wyoming, na companhia de sua namorada, Lynne (Amy Adams), que lhe dá um ultimato tendo em vista o estado deplorável do jovem – ou ele conclui sua formação universitária ou ela sai de sua vida. Por amor e devoção a Lynne, Cheney se eleva em atenção à demanda de sua amada de que se torne um grande homem. Em 1969, Cheney torna-se estagiário do Congresso, trabalhando na Casa Branca sob a tutela de Donald Rumsfeld (Steve Carell). Em pouco tempo, Cheney sucede Rumsfeld como chefe de gabinete da Casa Branca, no governo do presidente Gerald Ford (Bill Camp).

A direção de Adam McKay prioriza os anos posteriores e anteriores ao 11 de setembro de 2001 e esmiuça os períodos intermediários que inclui o mandato de Cheney como secretário de defesa do presidente George H.W. Bush e suas atividades como CEO da empresa de serviços petrolíferos Halliburton.

O longa se aloca em um limbo, entre provocações e mensagens dicotômicas que despertam o interesse do espectador, ao questionar governantes e, até mesmo, ao analisar sua culpabilidade diante de um mundo inescrupuloso, onde as convicções ideológicas não são importantes para os eleitos, uma vez movidos pelo desejo de poder.


A Sereia: Lago dos Mortos




O novo longa de terror russo conta a história de uma noiva em apuros diante de uma força sobrenatural maligna.

Não se trata do filme ‘A Noiva’ (2017), mas “A Sereia: Lago dos Mortos” que, coincidentemente, também é dirigido por Svyatoslav Podgaevskiy, que se digna a substituir a nefasta figura da noiva por um personagem da mitologia Eslava - uma ninfa, considerada pelos russos como sereias –  bem distintas das que reconhecemos – metade mulher, metade peixe – desprovidas de calda.

A protagonista, interpretada por Viktoriya Agalakova, por obra e graça de uma nova coincidência, também protagonizou o longa ‘A Noiva’. O roteiro também não é muito diferente do filme de 2017. A história se desenrola a partir de uma família desajustada e cheia de segredos, de uma casa fantasmagórica no meio do nada, de uma mocinha bobinha e da figura feminina do mal como antagonista. O resultado de tudo isso não passa de um pouco mais do mesmo, para quem já está familiarizado com os filmes de terror e, calejado, ciente de cada um dos momentos eleitos para assustar os espectadores, tamanha a carga de obviedade projetada na telona. Em vez de medo, “A Sereia: Lago dos Mortos” é capaz de promover profundo tédio que, por uma nova coincidência, ‘A Noiva’ também se esmerou em fazê-lo.




terça-feira, 22 de janeiro de 2019

O Cego e o Louco




A temática cegueira, há muito é retratada, na arte cênica, sob um olhar, de certa forma, transgressor – através do cego adivinho, do que tem a percepção mais aguçada do que aqueles que enxergam, daquele capaz de ver e incapaz de alcançar, dos olhos que vislumbram o que nada tem para avistar – fazendo da privação da visão, uma ameaça a quem é dotado daquele sentido porém, incapaz de lançar seu olhar crítico às suas mini certezas.

Instigando a deficiência física, subliminarmente, Claudia Barral faz de seu texto – “O Cego e o Louco” – uma investigação comportamental de um personagem privado do sentido da visão. Tal busca ganha potencial a partir do espetáculo homônimo dirigido por Gustavo Wabner, que assume a evolução da narrativa coroada por um blackout, a partir de quando se faz possível enxergar mais adiante, com surpreendente acuidade, por aquele que se permite despir os olhos de tudo aquilo que poderia ser interpretado como óbvio. Ao questionar, por meio de alegorias dramáticas, os obscuros caminhos que o ser humano é capaz de percorrer em rumo ao vazio existencial, Wabner desenha Nestor – um pintor cego, repleto de vigor e de domínio sobre si mesmo, criteriosa e zelosamente interpretado por Alexandre Lino – que, com naturalidade fraterna, assume um comportamento perverso responsável por diluir o seu rancor e que lhe serve de combustível na busca de percepções canalizadas por outros sentidos, não combalidos pelo seu estado invisual. A dependência por um alter ego antagonista define o cotidiano de um lúgubre Lázaro – moldado por Wabner a partir da essência artística de Daniel Dias da Silva – que expõe o seu olhar preciso ao povoar o universo predefinido por aquele que vive sob o olhar da alma ininteligível, que vai de encontro do que deveria ser racional.

O conjunto de ideias que tomam o espetáculo “O Cego e o Louco” se faz perceptível e se transforma em ícone a partir do pictórico figurino de Victor Guedes cujo cromatismo, que traduz sensíveis verdades, não é ignorado por aqueles que o trajam. A cenografia de Sergio Marimba assume ares, ora de uma obra de arte inacabada, ora de uma tela em branco à espera da ação do artista, com autonomia para se destacar como um personagem à mais dentro da história. Embora o sentido da visão somente seja estimulado pela incidência de luz sobre os elementos passíveis de serem visualizados, o desenho luminotécnico cênico de Matovaniluz caminha de mãos dadas às intenções do texto de Barral e atua como o mal branco lumínico de Saramago, capaz de iludir e distrair a atenção da plateia quanto à  percepção da realidade. Com aparente conhecimento de uma busca pela cegueira sentimental, a direção de movimento de Sueli Guerra anula a exterioridade dos personagens e faz com que o espectador ‘desveja’ o que poderia ser um dejá-vu. A intuitiva direção musical de Tibor Fittel provoca, propositalmente, a má compreensão da ambiguidade contida nas palavras proferidas pelos protagonistas, promovendo um delicioso ar de suspense psicológico.

A imensa carga teórica do espetáculo se assemelha a uma corrente de estudo da mente humana onde a emoção, de braços dados com a percepção, influencia a conduta do ser diante do seu meio social e o afeto que compõe a subjetividade responsável pela felicidade e pela tristeza, diante daquilo que não vemos sem os olhos emprestados de quem se ama.

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Vidro



‘E se os super-heróis fossem reais?’

Ao levantar a questão - ‘E se os super-heróis fossem reais?’, o longa “Vidro” fecha a trilogia deflagrada em 2000 com “Corpo Fechado”, seguido de ‘Fragmentado’, em 2016.


O temeroso e apreensivo confronto entre forças em “Vidro”, muito além da compreensão humana, não oferece um fechamento forte, o suficiente, para uma trilogia que levou dezoito anos para ser realizada por M. Night Shyamalan.

Juntando as narrativas dos filmes anteriores, Shyamalan temporiza “Vidro” três semanas após os eventos de ‘Fragmentado’ – que, conforme explicitado em sua cena pós-créditos – habita o mesmo universo de ‘Corpo Fechado’: Bruce Willis retorna como o herói David Dunn – um homem que possui força sobre-humana, o que o torna quase invencível – juntamente como o vilão líder de Samuel L. Jackson –  Elijah Price, também conhecido como Mr.Glass. Associam-se a eles: James McAvoy como Kevin Wendell Crumb – portador de Transtorno Dissociativo de Identidade – e Anya Taylor-Joy como Casey Cooke que, dentre três adolescentes, é a única sobrevivente de um encontro com a poderosa e obscura em meio às múltiplas identidades de Crumb, conhecida como ‘A Fera’.

O longa empolga os fãs obcecados pela saga de quase duas décadas de idade que, habilmente, aproxima o espectador mais atento ao psiquê dos personagens, a partir de fundamentos psicológicos reveladores e coroado por uma finalização épica, mas nada recompensadora, ao delegar ao público o benefício do livre arbítrio diante da responsabilidade de se tomar um partido.





O Peso do Passado


Um sombrio conto sobre a dor persistente, com origem a partir de uma decisão mal concebida

Remorso e a gana de vingança é o mote do longa “O Peso do Passado” que, entregue à surpreendente e espetacular performance de Nicole Kidman, apenas acentua o auge de suas habilidades artísticas.

A obra dirigida por Karyn Kusama tem início com uma irreconhecível Kidman no papel da policial Bell, que comparece a uma cena de crime onde é repudiada por outros colegas da corporação. O corpo da vítima e uma pista subsequente – uma cédula de cem dólares manchada – levam a policial de volta a um trágico episódio de seu passado.

O estilo do diretor Kusama, não é, e nem será, de fácil assimilação, até mesmo para o espectador mais atento pois, o passado e o presente entram em rota de colisão e conduzem a conclusões aparentemente satisfatórias – muito embora não se vislumbre conforto ou qualquer ato de redenção por parte dos envolvidos, o que transforma “O Peso do Passado” em um sombrio conto sobre a dor persistente, com origem a partir de uma decisão mal concebida.



quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

A Esposa


O retrato, melancolicamente elegante, de um casamento em crise

Escrito pela dramaturga e roteirista Jane Anderson, baseado no romance de Meg Wolitzer, o filme “A Esposa” – sob a direção ‘Bergmaniana’ do sueco Bjorn Runge e que, como o seu conterrâneo, centraliza um estudo psicológico dos seus personagens e de suas famílias disfuncionais – conta a história de Joe Castleman (Jonathan Pryce) – um renomado romancista americano que, em uma manhã de 1992, recebe um comunicado de que ganhara o Prêmio Nobel de Literatura. Sua esposa, Joan (Glenn Close) – eterna apoiadora das suas ambições, a ponto de se auto intitular como uma fazedora de reis – desenha astutamente o retrato, melancolicamente elegante, de um casamento em crise.

Ao revelar a intimidade do sexismo, com força descomunal, nas premiações do mundo literário – onde as negligências diante do universo feminino acadêmico não valoriza os seus pensamentos – “A Esposa” reflete momentos em que muitas mulheres se silenciam pelos mais variados motivos diante de seus maridos egoístas e narcisistas, pelo simples fato de se conformar em dedicar o seu amor ao ofício de esposa.

“A Esposa” revela não haver nada mais perigoso do que um escritor cujos seus sentimentos foram feridos através de uma advertência proferida por Joan – já há muito cansada e prestes a pedir demissão de seu cargo.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

O Manicômio



Protagonizado por personagens unidimensionais e improváveis fora das lentes das câmeras, o roteiro desmotiva o espectador a se importar com os seus destinos

Quatro youtubers, que se desafiam pela conquista de um maior número de visualizações, resolvem passar uma noite no sanatório abandonado, Beelitz-Heilstätten que, durante a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, serviu como hospital para soldados doentes e feridos – dentre eles, Adolf Hitler, internado na instituição de 9 de outubro a 4 de dezembro de 1916.


Abarrotado de assustadoras cenas clichês focadas nos apresentadores de vídeos no Youtube, o longa alemão “O Manicômio”, dirigido por Michael David Pate, transmite ranço de crítica desconstrutiva desnecessária pelo próprio diretor, ao proferir, por meio de um de seus personagens, que o conteúdo daquela tipologia de mídia é responsável pela proliferação de uma geração de ignorantes – referindo-se aos seguidores dos vlogueiros.

Protagonizado por personagens unidimensionais e improváveis fora das lentes das câmeras, o roteiro desmotiva o espectador a se importar com os seus destinos, tampouco esboçar qualquer interesse em saber se sobreviverão a essa única noite, no sanatório abandonado, mas somente, quando tudo terminará, para lhe garantir a volta às suas próprias redes sociais.