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quinta-feira, 19 de setembro de 2019

O Substituto



A essência do espetáculo se manifesta no âmbito do intelecto


A estética expressionista de Alexandre Lino, intuitivamente, adaptada ao cenário educacional atual, forja o desapego de um professor substituto com a democracia diante de uma tempestade de absurdos contidos no texto, politicamente detrator, de Daniel Porto.

Extraindo o máximo da engenhosa e impiedosa direção de Maria Maya, o espetáculo “O Substituto” aborda a história de um docente, por vocação, de um estabelecimento de ensino que precisa, não somente, apresentar as novas diretrizes educacionais impostas pela, então, secretaria de educação, mas também contar com o apoio dos responsáveis pelos alunos. A superficialidade da narrativa proposta pelo professor se metamorfoseia num verdadeiro e compensador exercício de tolerância por parte do espectador – seja ele de qualquer posicionamento político – uma vez que, a essência do espetáculo se manifesta no âmbito do intelecto.

A lugubridade subjacente é simbolicamente acentuada pelo desenho de luz de Paulo Denizot que resgata a atmosfera de tortura – presente em alguma repartição administrativa responsável pelo estabelecimento de ordem política e social do passado – pungente e solitária. Karlla de Luca assina a concepção cenográfica, minimalista porém, emblemática, composta por uma lousa – riscada à giz, com dizeres anacrônicos, retrógrados e alusivos à contemporaneidade de fatos, lançada no mesmo plano do chão onde pisa o professor – sobre a qual repousa a carcaça de algo que, um dia, fora uma carteira escolar – uma sala de aula lotada de gente porém, vazia enquanto ideias, coerência e potencial progressista. Acrescenta-se à contribuição técnica de Luca, o figurino marcado pela neutralidade do desapego e pela adequação à realidade sombria do ofício, cuja relevância vem se perdendo há cerca de meio século.

A obsolência melancólica das instituições de ensino como alicerce da formação das crianças, adolescentes e jovens adultos é flagrante em “O Substituto” – uma tragédia humana obstinada pela aniquilação do senso crítico, cujo processo passa pela revisão dos livros sob a intervenção do fascismo.

Depois do Casamento



“Um grande negócio filantrópico”


Como se em dificuldade de expor, ao espectador, os detalhes de sua nova empreitada, o diretor Bart Freundlich recheia o longa “Depois do Casamento” com uma diversidade de emoções porém, incapazes de contagiar os personagens que se limitam ao papel de promissores intérpretes – fortemente engessados, dentro de uma história na qual Isabel (Michelle Williams) – uma norte-americana que trabalha em um orfanato em Calcutá – viaja para Nova York, a convite de uma magnata da mídia – Theresa (Julianne Moore) – que encontra-se prestes a vender sua empresa e deseja doar US$ 2 milhões à instituição indiana.

Durante a primeira reunião na sede da empresa, em Manhattan, Theresa convida Isabel para o casamento de sua filha, Grace (Abby Quinn), na casa da família, em Long Island, no dia seguinte. A chegada da humanitária à propriedade de sua futura doadora e de seu marido - o artista plástico Oscar (Billy Crudup) – desencadeia uma cascata de eventos que, num primeiro momento, deveriam apelar para a dramaticidade mas, de fato, se configuram em “um grande negócio filantrópico”.

As conexões entre os envolvidos transmitem fragilidade, enquanto deveriam ser avassaladoras. A moral da história não floresce, tampouco o roteiro é capaz de transmitir , com detalhes suficientes, o passado dos personagens. O drama não sustenta as razões da produção do longa, agravado pelo fato de ser um remake do filme homônimo dinamarquês de 2006, dirigido por Susanne Bier.

A debilidade presente no confronto entre a luta dos muito pobres pela sobrevivência e a angústia emocional dos muito ricos para se tornarem mais ricos, faz com que a versão sem idealismo de “Depois do Casamento” de Freundlich, seja uma forte candidata ao preenchimento de grade de programação vespertina de TV aberta.

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Midsommar - O Mal Não Espera a Noite



Uma experiência conceitual – descomedida, perturbadora e visceral


Cenas de terror psicológico transpõem um cenário urbano, lugubremente encerrado e que, posteriormente, se revelam em meio a uma paisagem rural sueca, resplandecente por um sol que não se põe. Tão brevemente quanto um prólogo, uma tragédia familiar abate a jovem Dani (Florence Pugh) de tal forma que a faz com que se entregue a uma aventura, às cegas, na companhia de seu namorado Christian (Jack Reynor) e de dois amigos deste – férias durante as quais, participariam da celebração do solstício de verão em um lugarejo na Suécia. Ao longo de toda a festividade do Midsommar, conluio ardiloso e perigo aterrorizante fecham o cerco dos companheiros estrangeiros.

A moderna técnica de direção de Ari Aster aplicada ao longa “Midsommar - O Mal Não Espera a Noite” contempla uma clareza de imagens que estimulam o intelecto do espectador atento e que lhe concede distintos e subjetivos pontos de vista, sob o efeito psicodélico que paira durante todo o desenrolar da trama. O horror desenhado para ‘Midsommar’ é insólito, velado e sombrio, definindo uma pluralidade de meios de se encarar a vida.

Ao corromper as expectativas do espectador a partir de incertezas puramente psicológicas, Aster reinventa a receita do terror, sob a luz do sol sueco que, por um par de meses, não se apaga. Embora certos aspectos da história não sejam revelados até o seu final enigmático, o espectador participa do passo a passo retrospectivo de um início aterrorizante até o seu derradeiro clímax.

O brilhantismo do longa se revela através da materialização do egoísmo, da crueldade e da irônica exposição da essência de cada personagem, dentre protagonistas e coadjuvantes, lhes conferindo uma experiência conceitual – descomedida, perturbadora e visceral. Cenas, tão generosas em sua extensão, capacitam o espectador se arriscar no campo das deduções, mesmo sentindo-se assustado, até mesmo, ameaçado, diante do descomunal fanatismo religioso e de seus efeitos maléficos contemplando a mente humana.

‘Midsommar’ não transmite uma mensagem positiva, tampouco soluções capazes de combater problemas, sejam eles existenciais  ou do cotidiano. A teoria antropológica contida no longa enfatiza a organização social e a natureza da cultura, desenvolvidas à frente de belas paisagens ensolaradas, sob céu azul e brilhante, em meio a flores viçosas, das mais variadas cores, que intensificam trevas que habitam os seres humanos e que, nenhuma religião ou seita, são fortes, o suficiente, para conduzi-los à luz da salvação.

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Casacor Rio 2019




Cristina Cortês e Cláudia Sant'Anna – Loft do Casal Ciclista
Diego Raposo e Arquitetos – Estúdio do Viajante
Lívia Quintella e Ricardo Guttemberg – Casa Zoo
Toca Arquitetura Paula Pupo e Natália Lemos – Estúdio Elã
Paula Neder e Coletivo PN+ – Estúdio Hum para Leroy Merlin

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Quem Você Pensa Que Sou




Narrativa faz com que o espectador se perca em um labirinto de emoções, palavras e incertezas

O rompimento de um casamento de longa data seguido pelo abandono de uma mulher de meia idade pelo seu jovem namorado frustram os anseios pelo recomeço de sua vida amorosa – status emocional de uma professora de literatura que, no momento de sua vida abordado pelo longa “Quem Você Pensa Que Sou”, analisa o romance clássico de intriga sexual ‘Ligações Perigosas’ de Choderlos de Laclos junto aos seus alunos. Trata-se de uma história contada com recursos de flashback, fartamente, durante sessão de psicoterapia da docente, durante a qual discorre sobre as dificuldades em aceitar a visão de si mesma, através da qual acredita não mais ser desejada pelos homens.


O sexto longa do diretor francês Safy Nebbou, que também assina o roteiro, se baseia em um romance de Camille Laurens ‘Who You Think I Am’, cuja narrativa faz com que o espectador se perca em um labirinto de emoções, palavras e incertezas. A protagonista, dotada de surpreendentes nuances emocionais, é um prato cheio para o potencial interpretativo de Juliette Binoche, que se entrega à personagem com braçadas longas e precisas num mar de amoralidade, com requintes de elegância na articulação de vingança, com potencial ardiloso para o estímulo de tentações e com surpreendente candura enquanto dedicada à criminalidade virtual. Dessa forma, Binoche dá forma a Clara e a conduz de forma tal que a permite transitar, sobriamente, sob profundo êxtase existencial estimulado pelo desejo por homens mais novos.

A impiedosa forma de relato sobre a proliferação das mídias sociais no mundo moderno faz com que o longa pareça destinado a enraizar o desejo, aparentemente universal, do compartilhamento daquilo que se supõe ser e ter, envolvendo indivíduos incrédulos de seus valores quando não mascarados por uma conexão wi-fi. Portanto, a história se abstém da apresentação de um herói ou de uma vítima, mesmo sob a ameaça de um mecanismo rancoroso, mas se permite chafurdar em uma patologia virtual contemporânea em crescimento exponencial, maquiada por um falso visagismo apelidado de fuga, dotado de forte capacidade de ilusão contra a ameaça da realidade.

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Casacor Rio 2019



Lia Lamego – Espaço de Fragrâncias
Alexandre Lobo & Fábio Cardoso – Loft Premium
Mariana Magalhães Costa – Loja da Casa
Sergio Novaes – Livraria
Jacira Pinheiro – Casa DOA



domingo, 8 de setembro de 2019

Maurício Manieri - Classics



Genuína viagem no tempo, com versões de grandes sucessos nacionais e internacionais dos anos 1970 até a atualidade


Noite de sexta-feira, 6 de setembro de 2019, sobe ao palco do Teatro VillageMall, no Rio de Janeiro, Maurício Manieri –  cantor, compositor, pianista clássico, arranjador e produtor musical São Bernardense de ascendência italiana, cuja formação musical clássica o permitiu enveredar, com muita segurança, pelo POP, MPB e soul, ao longo de sua carreira. A partir dos anos 1990, o trabalho de Manieri passa a ser revelado a um público que, juntamente com gerações que o sucede, faz parte de um fã-clube que acolhe o artista sob manifestações dignas de um pop star.

Simpatia, carisma, reciprocidade frente às manifestações de carinho recebidas e generosidade para com a extensão e qualidade técnica do show do compositor de sucessos consagrados – tais como: ‘Bem Querer’, ‘Te Quero Tanto’ e ‘Se Quer Saber’, dentre outros – são qualidades que  imprime em seu ‘Classics’, cuja turnê promove genuína viagem no tempo, com versões de grandes sucessos nacionais e internacionais dos anos 1970 até a atualidade.

Descortinando o palco do Teatro Vilagemall, Manieri abre o espetáculo com ‘O Melhor Vai Começar’ (Guilherme Arantes), seguindo com a música que dá título à turnê -  ‘Classics’ (Adrian Gurvitz), provocando intensas manifestações de descontrole emocional por parte dos fãs, a cada número. Tais reações são potencializadas quando do convite do artista para que suas fãs compartilhem de uma dança, em pleno palco, ao som das consagradas ‘Mandy’ (Barry Manilow), All Out Of Love (Air Supply), ‘Cruisin’ (Smokey Robinson) e outras mais, que levam a plateia ao delírio, numa atmosfera de bailinho de garagem, típico dos anos 1980.

Manieri, que tem em seu currículo a interpretação de várias músicas de trilhas sonoras de novelas e de longas metragens, tais como: ‘Pop Star’ (Xuxa) e ‘Eldorado’ (Disney), de forma extremamente elegante, convida a sua backing vocal Patricia Fernandez para fazer, com ele, um dueto, dando uma trégua ao saudosismo – marca da turnê ‘Classics’ – dando um toque de contemporaneidade ao show, com a emocionante interpretação de ‘Shallow’ (Bradley Cooper e Lady Gaga).

Proximamente ao término do espetáculo, Manieri é surpreendido com um bolo de aniversário, levado pelo seu filho Marco, de nove anos de idade, em comemoração antecipada aos seus 49 anos, repleta de clima familiar, agraciado pela presença de amigos na plateia, tais como: Marcos Pasquim, Babi Xavier e Fábio Villa Verde que, juntamente com seus fãs, entoam um genuíno ‘Parabéns pra Você’, seguindo, em coro dançante ao som de ‘The Best’ (Tina Turner), conduzida pelo incansável artista pop.

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

IT - Capítulo 2



Os traumas geracionais e o inesquecível horror presentes na obra formata o longa com marcas perturbadoras, violentas ao extremo, hemorragicamente cruéis e desconfortável conteúdo psicológico


Vinte e sete anos após sinistros acontecimentos, ocorridos na cidade fictícia de Derry, que levam sete crianças a fundarem o “Clube dos Perdedores”, o misterioso local se torna, mais uma vez, o cenário dos membros da confraria, composta pelos, já adultos, Mike (Isaiah Mustafa), Bill (James McAvoy), Beverly (Jessica Chastain) e Ben (Jay Ryan), Richie (Bill Hader), Eddie (James Ransone) e Stanley (Andy Bean). No passado, ainda adolescentes, além de lidar com o preconceito e com a opressão que toma conta da pequena cidade, se viram face a face com um ser demoníaco comedor de crianças e que assumia, quase sempre, a forma de um Clown denominado Pennywise (Bill Skarsgård) – fatos que os marcaram com profundas cicatrizes físicas e psicológicas.

A partir dessa fórmula, o cineasta argentino Andy Muschietti assina a direção da adaptação homônima para o cinema do segundo capítulo do romance de Stephen King – “It”, lançando mão da carga exagerada dos exageros, relativamente aos protagonistas, da mesma forma que o fez com o primeiro capítulo “IT – A Coisa”, lançado em 2017 – longos em sua duração e intensos na sua dose de terror.

Os traumas geracionais e o inesquecível horror presentes na obra formata o longa com marcas perturbadoras, violentas ao extremo, hemorragicamente cruéis e desconfortável conteúdo psicológico. Ao abordar temas sobre as lembranças e traumas da infância IT explora a fragilidade da inocência humana representada pela imagem de um Clown. A familiarização com a obra original de Stephen King concede, vagamente, ao espectador, uma percepção onde o roteiro de Gary Dauberman pretende chegar mas, lamentavelmente, não permite que a produção deslumbre, o suficiente, em se tratando de um sequência final de um filme que, apesar de valer a pena assistir, mas que não induz a plateia flutuar em meio à complexidade de Pennywise.

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Ouro Branco




“...pela sugestão do início e do fim de um pesadelo aterrorizador, do qual não se acorda; pela indução da plateia ao questionamento sobre o quanto se trata de um projeto de vida no purgatório ou de uma vida que se queima no inferno; ...”

Sem adentrar nas questões legais e administrativas das repartições públicas, mas dissecando o dia após dia vivenciado pelos seus recursos humanos, da mesma forma que seus planos de vida e suas expectativas relativas ao reconhecimento de seus superiores frente à dedicação dos servidores ao ofício, o espetáculo “Ouro Branco”, sucintamente, revela a desimportância de alguns daqueles serviços para o público, seja ele municipal, estadual ou federal.


Os elementos contidos na dramaturgia de André Ladeia são inerentes a um código de ética peculiar aos protagonistas, que discursam as suas amarguras em um pequeno e claustrofóbico escritório de uma repartição pública. Seus semblantes cadavéricos estampam renúncias e frustrações – frutos da busca pela estabilidade de emprego, da ambição por planos de carreira, e da resignação frente às limitações impostas por uma opção de vida. Uma trilha cuja prosperidade, muitas vezes, é combalida pela injustiça e pela burocracia que se impõem por meio de regras, capazes de ofuscar caminhos que possam conduzir a metas profissionais, muitas vezes, iluminados em favor de uma minoria privilegiada por preferências ou por indicações políticas. 

O dissabor dos servidores ganha horizonte sob a direção de André Gonçalves, que satisfaz as indagações do espectador relativamente a ética e a deveres morais que deveriam, supostamente, ser parte integrante das engrenagens públicas. Num primeiro momento, o espetáculo desenvolve o poder hierárquico, no qual o homem é explorado por um sistema que parece ter origem desde os tempos da escravidão, cujo grau de realidade, levada ao palco, se deve ao elenco composto por Charles Paraventi, Eduardo Gentil, Hilton Castro, Ícaro Galvão e Juliana Azevedo. Cada um, assumindo a carga de responsabilidade que lhe cabe enquanto personagens, potencializando as percepções interpessoais junto à plateia vitimada, na vida real, pelo sistema dramatizado no palco.
Uma quádrupla aliança transforma o palco em um portal através do qual o espectador é transportado da vida real para uma realidade nua e crua – projeto cenográfico, desenho de luz, figurino e visagismo assinados, respectivamente, por Marcos Flaksman, Aurélio de Simoni, Bidi Bujnowski e Nathalia Cavalcanti. Uma coligação responsável pela materialização do interior do local reconhecido pelo nome de repartição; pela sugestão do início e do fim de um pesadelo aterrorizador, do qual não se acorda; pela indução da plateia ao questionamento sobre o quanto se trata de um projeto de vida no purgatório ou de uma vida que se queima no inferno; pelo desfile de indumentária de gosto e qualidade duvidosa, marcada pelo desalinho evidenciado pelo suor extraído dos funcionários; pelo desconforto térmico e pela luminosidade em desacordo com a acuidade visual laborativa necessária ao ser humano; pela metamorfose de seres vivos em seres em decomposição, ainda em vida.

A definição organizacional é envolvida pela trilha sonora de Paula Raia e Fellipe Mesquita, responsável por detonar os conflitos e divergências de opiniões e por potencializar a credibilidade, ao longo dos expedientes, aos quais são submetidos cada um dos personagens. A estrutura visível sustentada pelo elenco, durante o espetáculo, conta com o alicerce definido pela direção de movimento de Bel Machado, fortalecendo o espectador para administrar o despreparo, o desestímulo e a insatisfação, que dentro do contexto de Machado, não compreende o interesse por uma gestão democrática.

O Estado Democrático de Direito, presente nas entrelinhas de “Ouro Branco”, não atua em acordo com os preceitos constitucionais, quando a finalidade do serviço público é deturpada e passa a contar com atos fraudulentos e corruptos, prejudicando a sociedade e manchando a imagem do país no âmbito nacional e internacional.

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Casacor Rio 2019




Casacor Rio 2019

RG Arquitetura Rodrigo Barbosa – Pier 21
Isabelle Cassani – Lavabo Público
Leila Bittencourt – Loft Coral
Maurício Nóbrega – Varanda DECA
Duda Porto – Nau

terça-feira, 27 de agosto de 2019

Casacor Rio 2019



Casacor Rio 2019

Cristiana e Mariana Mascarenhas – Sala de Bilhar

Bianca da Hora – Sala Shanti
Paola Ribeiro – Salão do Cais
Miguel Capanema – Estar  em Pausa
Victor Niskier – Leituratech
Tripper Arquitetura – Marcelo Moura e Marina Dipré | Banheiro Elemento
Mário Costa Santos – Wineliving

Bacurau



Em coerência com atualidade brasileira


Uma produção cinematográfica que revela, como um de seus motes, uma visão profética com foco na rota assumida por uma nação, a partir de uma governança movida pela dissidência sócio econômica – “Bacurau’ pontua o ódio ideológico e político do atual quadro Brasileiro.

O título possui vários significados – podendo remeter a um pássaro noturno, como também uma pessoa habituada a sair somente à noite. Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles dirigem o longa, determinados a defender o seu ponto de vista político, em coerência com atualidade brasileira – impactando o espectador, muitas vezes, de forma alucinadamente perturbadora.

Num futuro próximo, uma pacata vila rural, chamada Bacurau, luta pela sobrevivência, logo após o corte do abastecimento de água pelas autoridades. Sem qualquer suporte do político corrupto local, que oferece alimentos e drogas contrabandeadas vencidas como suborno para os habitantes, a região tem a cobertura de telefone celular bloqueada e a vila é, misteriosamente, eliminada dos mapas da internet. Seguidamente, a população  vizinha a Bacurau passa a ser dizimada por um grupo de turistas americanos, assustadoramente racistas, como em um patológico safári, a partir do qual a ordem social é o massacre de seres humanos, com o risco de se tornar uma atividade transacional e recreativa para uma boa parte dos políticos em atividade.

O longa adota um tom excêntrico, exatamente para denunciar, de maneira inequívoca, a extrema-direita brasileira e a obviedade de suas intenções frente às minorias. “Bacurau” avança como um discurso anti-imperialista e com o espírito insurgente de resistência, a com base nos quais seus habitantes empunham a bandeira da luta e respondem à altura, até varrer a ideia de ódio e de morte contida nos discursos separatista em Bacurau.

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Brinquedo Assassino




A atual e politizada versão de “Brinquedo Assassino” conduz o olhar do espectador para muito além do humor violento

Uma sátira de terror com requintes de perversão e ranço de frugalidade, do final dos anos 1980, é rebootada com o mesmo título, em plena era digital, marcada pelo desenvolvimento da robótica e do consumismo desenfreado.

Na porta de uma loja de brinquedos, consumidores enfileirados se mostram ávidos para comprar bonecos Buddi, fabricados pela fictícia vietnamita Kaslan,  programáveis via conexão internet, permitindo crianças encontrarem companhia com uma animatrônica desenvolvida para unir a tecnologia ao homem, de forma mais humanizada. Contudo, durante o processo de produção em série dos bonecos, um operário descontente com o tratamento recebido de um seus superiores, nos moldes da exploração do trabalho escravo, desprograma as censuras de fábrica de um dos bonecos.

Desse ponto em diante, a atual e politizada versão de “Brinquedo Assassino” conduz o olhar do espectador para muito além do humor violento e do trashismo, presentes nas seis sequências produzidas de 1988 a 2017. A direção de Lars Klevberg insere a violência com ares  de ironia e mostra como a evolução da ferocidade em cada ser humano, desde a sua tenra infância até a maturidade, dispensando a evocação de espíritos e seres mágicos sobrenaturais.

O alcance emocional e reflexivo sobre a inteligência artificial contemplado pela atual versão transita entre o assustador e o obsessivo e pula para a doçura e a inocência, mantendo a essência humana, seja ela doentia ou sã. Um regalo para os fãs de Chucky – o boneco assassino, as mortes mantém-se crudelíssimas e atualizadas pela criatividade.

O derramamento de sangue em conjunto com o caos divertido presentes nas aventuras do serial killer de 1988 continuam na releitura de 2019, com um diferencial – estimulando o pensamento sobre o que pode haver de tão divertido na pérfida crueldade incrustada na natureza humana.

Casacor Rio 2019 - 1ª Semana




1ª Semana - Casacor Rio 2019

Jorge Delmas – Casa do Bem
Maritza de Orleans e Bragança – Jardim das Esculturas
Lao Design+Planta Ideias – #portodosnós
Sandro Ward – jardim do cais

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Era uma vez em...Hollywood



Uma força incendiária e estranhamente fraternal



O mais recente longa escrito e dirigido por Quentin Tarantino, “Era uma vez em... Hollywood”, é estruturado em torno do homicídio de cinco indivíduos em Cielo Drive, Los Angeles, no ano de 1969, cometidos pelo grupo cognominado Família Manson.

A história é protagonizada pelo veterano cowboy da TV – Rick Dalton (Leonardo DiCaprio) e seu fiel dublê e motorista pessoal – Cliff Booth (Brad Pitt), que passam seus dias ociosos, muitas vezes, bêbados - ambos vizinhos do casal  Roman Polanski (Rafal Zawierucha) e Sharon Tate (Margot Robbie), que se encontra em fase final de gestação. Na noite de 8 de agosto de 1969, estando Polanski em viagem, Tate reúne amigos em casa - a mesma noite em que membros da Família Manson executa planos que a banha em sangue, pela direção de Tarantino.

Contrastando com a fatídica noite, “Era uma vez em...Hollywood” é estranhamente precedida por alegria, por energia e por humor palatável, claramente idiossincrático – marca registrada do diretor. A melancolia que se aporta a cada minuto se deve, nada mais, nada menos, pelo fato de que, aparentemente, a história é baseada em fatos reais. O longa conta com uma estrutura temporal na qual as camadas densas colaboram para com a liberdade ‘poética’ de Tarantino em transformar uma história macabra em um conto de fadas justiceiro, onde o verão de 1969, em Cielo Drive, torna-se fato histórico para os americanos que tiveram que repensar a fama, a violência e a contracultura que, de certa forma, contribuiu para ceifar vidas inocentes.

A obra de Tarantino é paradoxal quando tende a ser um derivado de outros filmes dele mesmo – mas se sobressai, exatamente, por influenciar a distância entre suas obras através de uma força incendiária e estranhamente fraternal.

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Mãe Fora da Caixa



Esclarece, junto à plateia, o significado do amor subjetivo


A referência egocêntrica do ser humano, em face à maternidade, desconsidera as diversas modalidades do ato de ser mãe, ao concentrarem as atenções nos modelos romantizados e sacramentados por celebridades,  exercendo o seu papel de formador de opinião,  a partir da fabulação de um discurso que traveste o estado materno em bênção divina, em experiência maravilhosa, em diretriz que dá sentido à vida e da enunciação de frases, ora enaltecedoras do instinto feminino, ora fomentadoras de sentimento de frustração.

Caindo na real e de pés no chão, o simples fato de uma mulher se tornar mãe, seja biologicamente, seja por adoção, não é, de fato, uma obra de um Ser Divino ou de um Espírito tido como Santo, segundo os preceitos do cristianismo – muito embora a reprodução dos seres vivos seja um dos fantásticos processos da evolução do universo e da vida, da mesma forma que os processos de adoção estão fadados aos trâmites criados e costurados pelo próprio homem. Portanto, o milagre da criação ou a vontade de Deus, sob a ótica da verdade nua e crua, fica por conta da liberdade poética e do respeito às crenças religiosas de cada indivíduo.

A simbologia que expressa a força de quem gera, de quem cria e de quem educa é minuciosamente estampada no espetáculo “Mãe Fora da Caixa”, cujo texto de Cláudia Gomes esclarece, junto à plateia, o significado do amor subjetivo, em contrapartida com a objetividade da vida de uma mulher que se prepara para descobrir se está grávida de um segundo filho. Miá Mello se entrega de corpo e alma ao seu personagem e canaliza a sua energia e experiência maternal ao espectador, em meio uma atmosfera saturada de comédia que induz ao riso genuíno, do início ao fim do espetáculo.

A delicadeza harmonizada com desespero faz da direção de Joana Lebreiro eclodir a capacidade do amor materno, apartado da obviedade e da facilidade presente na indução social, que define a incondicionalidade do amor por um filho. O desempenho do exercício da maternidade da protagonista e a sua postura que sobrepuja o bom senso em nome de um instinto ou obrigação frente à sociedade são caricaturados pela concepção do projeto de cenografia assinado por Mina Quental, cujo pano de fundo, formado por assentos de bacias sanitárias - por onde se esvaem os traumas, as psicoses, o egoísmo e o apego responsáveis pela deformação do caráter do ato de procriar - resulta na perda total de domínio e de controle de um planejamento familiar. Atuando como um dosador do viés tragicômico do espetáculo, o desenho de luz de Paulo César Medeiros contribui para a limitação do desenvolvimento filosófico da atual e futura mamãe, interagindo, precisamente, com os momentos que ultrapassariam os limites da tragédia, se o espetáculo também não fosse contemplado pela comédia. Guardada as devidas proporções, a intencional e necessária interatividade com a plateia requer a identificação de si mesmo com a protagonista, por parte do público feminino e da protagonista com a mãe de seus filhos, por parte do público masculino. Em atendimento a essa demanda, o natural e instintivo figurino de Bruno Perlatto e Mariana Safadi transporta a protagonista às suas origens quase que primitivas, expondo a sua intimidade, sem glorificar a maternidade com um vestuário que pudesse remeter à santificação do processo.

A criatura desenhada por Miá torna-se cada vez mais palpável diante de uma plateia – diversificada por pais, por aspirantes a pais, por filhos, por simpatizantes à maternidade e por indivíduos que optaram não passar pela experiência tema do espetáculo – que enxerga, a cada movimento da personagem, uma história crível e muito próxima de si. É justo que o crédito a ser dado ao domínio exercido sobre o espectador pela atriz, seja compartilhado com a direção de movimento de Andrea Jabor, que concede a Miá um poderio incontrolável – contudo, ciente da meta a ser atingida. As involuntárias manifestações evidenciadas entre os espectadores que se remetem aos fatos apresentados por conta de identificações diversas, são controladas pelo planejamento e pela seleção da trilha sonora de Ricco Vianna, capaz de silenciar a plateia em momentos em que a atenção deve ser voltada para as questões intensamente psíquicas que aproximam e distanciam a mulher-mãe do público.

O espetáculo, livremente baseado no livro homônimo de Thaís Vilarinho, não vem para apresentar definições sobre a aceitação ou a negação de um estado de gravidez em potencial, pela mulher que somente se realiza após a experiência da maternidade, mas promover uma deliciosa reflexão sob o ponto de vista mercadológico da mulher que acaba sendo blindada, quase que, religiosamente, como qualquer negócio em que deve ser construída a relação sócio-econômica. Nesse contexto, “Mãe Fora da Caixa” ilustra o amor maternal baseado em discursos ‘médicos-filosóficos-políticos-sociais’ que dão o tom ao amor a ser dispensado a cada ser que nasce sob o signo da vida que segue.

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Histórias Assustadoras para Contar no Escuro



Sem provocar o menor lampejo de medo


Aos bons e velhos tempos dos anos 1980, quando alguns sustos bem colocados garantem a determinados filmes a classificação de terror – o longa “Histórias Assustadoras para Contar no Escuro” presta uma nostálgica homenagem frente a espectadores saudosistas que, àquela época, juntam sua turma para assistirem às matinês de filmes manchados com muito sangue, poluídos gritos de pavor e impregnados de personagens disformes – tudo regado à pipoca com guaraná.

A direção de André Øvredal constrói um clima claustrofóbico e sem muita luz, exatamente para que os oitentistas revivam a experiência de estarem ouvindo, e não assistindo uma história de terror. A violência, tão manifesta no gênero dos anos 1980, não se faz presente na adaptação do livro para o cinema. Mesmo contemplando um roteiro escrito a seis mãos, incluindo o cineasta, roteirista e produtor mexicano Guillermo Del Toro, o longa não entusiasma com a sua história ambientada em 1968, em uma cidade chamada Mill Valley, onde um grupo de adolescentes entra em contato com as histórias do autor dos livro homônimo do filme – Alvin Schwartz.

A série de histórias assustadoras forma um quebra-cabeça de contos contidos nos livros como: ‘The Haunted House’, ‘The Dream’, ‘The Red Spot’, ‘Harold’,  “The Big Toe, dentre outras que, juntas, contam uma única história – a de uma falecida jovem que guarda segredos bizarros, que se desdobraram em uma série de macabros acontecimentos, descritos em um livro que transcende o tempo e logo é descoberto por outros jovens que, sem saber, passam a fazer parte dos contos compilados no livro.

O Horror das imagens contidas na produção de Øvredal são dignas da geração millenium que, como a coleção de Schwartz, se faz direcionada às  crianças – sendo esta, a partir de histórias críveis e realmente assustadoras. Já, o filme, satisfaz a capacidade de assimilação infantilóide, sem muito atrativo e, pior que tudo, sem provocar o menor lampejo de medo.

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Não Mexa com Ela



A insídia do machismo


Orna (Liron Ben Shulsh) é um exemplo de esposa e de mãe que batalha para ajudar a manter o bem estar da família, enquanto seu marido (Oshri Cohen) luta para manter seu novo restaurante, apesar de sua baixa frequência. Ao conquistar um emprego bem remunerado, Orna adentra o universo masculino do corretor imobiliário Benny (Menashe Noy). Com o tempo, Benny passa a acreditar que, não somente, se beneficia com habilidades imobiliárias de Orna, como também possa tê-la como um objeto sexual.

Sob a direção com olhar feminista de Michal Aviad o filme israelense “Não Mexa com Ela” é situado na atual Tel Aviv. Conduzido por um enredo oportuno, beirando ao satisfatório, o longa apresenta – de forma incômoda, muitas vezes, revoltante – a exposição das mulheres em um mundo predominantemente masculino que se sente no direito de assediar o gênero feminino, sob o tacanho subterfúgio de levar ao conhecimento de terceiros, de que homens pertencentes àquele universo têm prazer em se relacionar sexualmente com mulheres.

Aviad consegue captar, habilmente e ferozmente, a insídia do machismo, mas não foge do maniqueísmo dos atos acusatórios da mulher diante do abusador pois, com o seu desfecho rápido e sem a severidade no qual o assunto deve ser imbuído, não garante, ao longa, a autenticidade tão esperada, por uma história tão dolorosa, beirando ao patamar de terror psicológico.

terça-feira, 6 de agosto de 2019

Meu Amigo Enzo



Subestima a totalidade dos personagens humanos e compromete a essência humana dada ao labrador pensador que exacerba na emotividade


Para o espectador que tem interesse na perspectiva de entendimento de um cachorro sobre a morte, o longa “Meu Amigo Enzo” cumpre o seu papel, sem qualquer embasamento científico, mas repleto de clichês capazes de levar, aos prantos, qualquer indivíduo que seja tutor de um animal ou por eles cultivam estima. 

Tudo por conta da história de um piloto de corrida que, um dia, decide adotar um filhote de cachorro e chamá-lo por Enzo, em homenagem ao fundador da Scuderia da Ferrari e da fábrica de automóveis do mesmo nome. Com o passar dos anos, a amizade entre homem e animal sofre profundas mudanças quando o humano, se apaixona por uma jovem e com ela se casa e, juntos, concebem uma linda menina.

A direção de Simon Curtis retrata o amor que os animais domésticos despertam nos humanos, ao mesmo que tempo revela a vulnerabilidade desses mesmos seres frente a mudanças, a perdas e a alegrias que, nem sempre, encontram respostas ou alentos em um outro ser humano.

Curtis aposta na adoção do papel de narrador da história pelo próprio Enzo, pondo em risco a credibilidade do roteiro pelo espectador não tão aficionado pelo universo dos pets, já comprometido pela previsibilidade do enredo. “Meu Amigo Enzo” subestima a totalidade dos personagens humanos e compromete a essência humana dada ao labrador pensador que exacerba na emotividade, sem naturalidade.

Lamentavelmente, o longa baseado no romance literário ‘The Art of Racing in the Rain’ de Garth Stein – por sua vez, contemplado pela feliz simbiose entre mágica e intuição – não ostenta as mesmas qualidades do livro, a ponto de fazer guardar na memória as imagens e os relatos do labrador que sonha em ser humano, vistas e ouvidas dentro da sala de projeção.

quarta-feira, 31 de julho de 2019

No Coração do Mundo



Uma singular, despretensiosa, porém, zelosa produção cinematográfica, digna de se tornar uma promissora sequência


Uma canção de Lara Fabian – ‘Love By Grace’ – marca o início do longa “No Coração do Mundo” porém, interrompida por estampidos de tiros, numa comunidade do município mineiro de Contagem – região metropolitana de Belo Horizonte - MG. Um roteiro estruturado pela vida que passa na periferia mineira, amplamente abalizado por Gabriel e Maurilio Martins, que também assinam a direção entrelaçada que definem um quadro, no qual a humanidade, mesmo em ambientes hostis, criam laços e formam sociedades paralelas do morro e do asfalto.
 
A ilustrada história de cada personagem faz com que o longa flua de modo multifário, permitindo o espectador entranhar-se nos anseios dos protagonistas e nivelar a balança com dosagem equilibrada entre o bem e o mal – muito embora, isento de qualquer parâmetro capaz de estabelecer e distinguir diferenciais entre um e outro.
 
Um jovem que não se esforça em se meandrar entre doçura, violência e desespero – vive aplicando golpes e cometendo pequenos delitos, até o dia em que uma velha conhecida lhe propõe fazer parte de um plano que irá mudar a vida de ambos. Mas para viabilizar a trama, o delinquente deve convencer sua namorada – uma cobradora de ônibus que sonha vencer na vida, de forma lícita – a participar da ação, cujo retorno equivale a tirar a sorte grande.
 
As agruras dos protagonistas são embaladas por uma seleta trilha sonora, envoltas por um minucioso desenho de som, impossível de passar por despercebido, assinado por Tiago Bello e Marcos Lopes, e imortalizadas pela fotografia de Leonardo Feliciano – uma singular, despretensiosa, porém, zelosa produção cinematográfica, digna de se tornar uma promissora sequência.


terça-feira, 30 de julho de 2019

Renato e seus Blue Caps | uma noite de ouro na cidade do Rio de Janeiro


Um misto de lágrimas e euforia por parte de todos os presentes



Formada no início dos anos 60, a banda de rock Renato e seus Blue Caps – uma das mais longevas, ainda em atividade – se apresenta de forma explosiva no Teatro Clara Nunes, no Rio de Janeiro, na sexta-feira, dia 26 de julho de 2019. A atual composição da banda conta com os veteranos Renato Barros (guitarra, violão e vocal) e Cid Chaves (vocal), complementada por Darcy Velasco (teclado), Bruno Sanson (contra-baixo) e Gelson Moraes (bateria).
No palco, o quinteto resgata canções que fizeram parte da vida de gerações de fãs que ainda guardam, em sua memória, momentos que foram embalados ao som de sucessos da Jovem Guarda como “Garota Malvada”, “Menina Linda”(I Should Have Known Better) - do álbum Viva A Juventude!, de 1964; e “Feche os olhos”(All my loving), de 1965 – as duas últimas, versões de músicas dos Beatles. O “Momento Cara de Pau” – conforme intitulado pelo próprio Renato Barros, apresenta canções com letras de sua autoria como: “Devolva-me” e “Eu Não Sabia Que Você Existia”. A banda também presta sua homenagem a Tom Jobim com “Corcovado” e a Vinicius de Moraes, com “Eu Sei Que Vou Te Amar”.
Na platéia, espectadores – com idade média não inferior aos sessenta anos emparelhados com a jornada percorrida pela banda, até os dias de hoje – ignoram a configuração romana retangular do Teatro Clara Nunes e fazem da sala de espetáculos uma pista de dança, atendendo ao comando de Renato Barros para que participassem do baile, a começar por “Festa de Arromba”, seguida por “Pode Vir Quente Que Eu Estou Fervendo”, “O Bom” e “O Pica-Pau”. O cover de Roy Orbison com “Pretty Woman” exerce o mesmo efeito que “Era Um Garoto Que Como Eu Amava Os Beatles e Os Rolling Stones” – o suficiente para provocar um misto de lágrimas e euforia por parte de todos os presentes.
O próximo show marcado para o dia 23 de novembro de 2019, no Teatro Village Mall – Barra da Tijuca, promove uma nova oportunidade para que os fãs de Renato e seus Blue Caps possam reviver mais uma noite de ouro na cidade do Rio de Janeiro.

quarta-feira, 24 de julho de 2019

Ted Bundy: A Irresistível Face do Mal | a ponta de um iceberg cuja porção submersa não é possível dimensionar em apenas duas horas de duração do longa



O espectador não conhecedor da história de Bundy, se depara com um drama cauteloso que não se explica e que não apresenta os motivos, mas somente a pseudo natureza do protagonista pelo olhar de uma mulher que o conheceu intimamente



Sob o pseudônimo de Elizabeth Kendall, Elizabeth Kloepfer – a mulher que foi, por algum tempo, a principal figura no estranho universo do primeiro  dentre os mais temíveis assassinos da história dos Estados Unidos da América durante os anos 1970, responsável pela qualificação dos assassinatos em série – é autora do livro "O Príncipe Fantasma: Minha Vida com Ted Bundy", adaptado para as telas do cinema sob o título “Ted Bundy: A Irresistível Face do Mal”. O longa exercita um olhar reflexivo sobre a sociedade que transforma casos policiais em entretenimento convencionais, muitas vezes televisionados em programas sensacionalistas em diversos horários e para toda a faixa etária, sem qualquer filtragem.

Liz Kendall é vivida pela atriz, modelo e escritora britânica, radicada nos Estados Unidos, Lily Collins – a namorada de Theodore Robert Bundy, por sua vez, incorporado pelo ator, cantor, dublador e produtor executivo norte-americano, Zac Efron – uma genial seleção do diretor Joe Belinger para o papel do charmoso, sedutor, perverso e sádico psicopata acusado pela morte e pelo estupro de trinta e seis mulheres, e de suspeita de outros tantos crimes de homicídios e de assédio sexual. A capacidade de comunicação do protagonista e a sua trajetória acadêmica como brilhante aluno de direito com forte indícios de conquista de uma extraordinária carreira profissional podem ser consideradas motivos facilitadores para a atração de mulheres por parte de Ted Bundy, pondo em cheque a credibilidade incondicional de um indivíduo desconhecido, a partir de um rosto bonito.

Ao assistir “Ted Bundy: A Irresistível Face do Mal”, o espectador não conhecedor da história de Bundy, se depara com um drama cauteloso que não se explica e que não apresenta os motivos, mas somente a pseudo natureza do protagonista pelo olhar de uma mulher que o conheceu intimamente – apenas a ponta de um iceberg cuja porção submersa não é possível dimensionar em apenas duas horas de duração do longa.


A diversidade comportamental do personagem título sugere um desesperado grito de alerta, que não atinge a sua parceira amorosa, durante um longo período – fato esse que não se conecta ao seu livro, pois disfarça a perspectiva do conceito sobre patologia, dando-lhe um tom bizarro de culto e de fascinação pela personalidade pública de Bundy, sem qualquer impedimento para que se torne o galã de sua própria história.

segunda-feira, 22 de julho de 2019

O Vendedor de Sonhos | de autoria do doutor em psicanálise, professor, escritor brasileiro e médico psiquiatra, Augusto Jorge Cury



Despreza a teoria Orwelliana de que alguns são mais iguais que outros


Abordando a psicologia emocional dos personagens contemporâneos que parecem viver num insano emaranhado de sentimentos, a versão teatral do best-seller homônimo “O Vendedor de Sonhos” – de autoria do doutor em psicanálise, professor, escritor brasileiro e médico psiquiatra, Augusto Jorge Cury – desenha a sua primeira cena a partir da ameaça de um homem se jogar do alto de um edifício, ao mesmo tempo que seu livre arbítrio em pôr um fim à sua vida, naquele momento e daquela forma, é questionado por um morador de rua. Traição, dívidas financeiras e drogas compõem as engrenagens dessa adaptação, também assinada por Cury, em parceria com Erikah Barbim & Cristiane Natale – sob um olhar não tão veemente quanto aquele projetado na versão original, mas com ênfase no maltrapilho que, pela direção beirando à programação neurolinguística de Cristiane Natale, insere a obra num misterioso território tomado por uma atmosfera alienista.

A identidade de cada um dos personagens é potencializada pela dramaticidade do desenho de luz de Nara Zocher que desvencilha a encenação do viés da autoajuda contida, subliminarmente, no texto, muito em função da construção do protagonista. Não é de se desprezar a dose de crítica social presente na narrativa, ricamente ilustrada pela concepção do conjunto figurino e adereços assinado por Valentina Oliveira, em total sintonia com o cenário minimalista, com toques surrealistas, a ponto de convencer os mais influenciáveis a pensar sobre seus próprios problemas ou aprimorar as suas habilidades, mesmo que de forma inconsciente. Enquanto isso, a liberdade poética toma conta da trilha sonora de Maurício Colatoni, assumindo o papel de um indicativo, junto à plateia, de que é chegada a hora de expressarem seus sentimentos, a despeito do genuíno potencial de emotividade das cenas. A essência dos personagens incorporados por Luiz Amorim, Mateus Carrieri, Marcos Veríssimo, Lino Colatoni, Anisha Zevallos, Adriano Merlini, Guilherme Carrasco e Fernanda Mariano é transmitida, fidedignamente, ao espectador, permitindo-lhe o auto exame dos interstícios de sua consciência, segundo a legitimidade de um ser humano e não como um indivíduo dotado de poderes sobrenaturais.

Ao induzir a plateia a crer no conceito de que somos todos iguais perante a um Ser Supremo, o texto de Cury despreza a teoria Orwelliana de que alguns são mais iguais que outros, fazendo com que “O Vendedor de Sonhos” coloque o espectador dentro de sua zona de conforto, ainda na poltrona da sala de espetáculos, sem qualquer aviso prévio sobre a continuidade da vida, sem manual de instrução.

quinta-feira, 18 de julho de 2019

A Bela Adormecida | Aposta no potencial cognitivo do público infantil

Aposta no potencial cognitivo do público infantil


Longe de se enquadrar no rol das histórias de princesas loiras de olhos azuis, coadjuvadas por animais falantes, cantantes, dançantes e fofos, o espetáculo “A Bela Adormecida” – flexionado no primoroso e onírico texto assinado por Janine Rodrigues e ludicamente dirigido pela pulsante veia artística multidisciplinar de Alexandre Lino – é repleto de mensagens ocultas, valores morais, simbolismos e crenças capazes de anestesiar o espectador, diante de uma realidade que aposta no potencial cognitivo do público infantil, com vistas ao aprimoramento de sua capacidade interpretativa e de seu senso crítico.

Dedicando-se, de corpo e alma, ao seu desempenho solo, a atriz/bailarina Silvia Patricia transmite, de forma didática e imaginativa, a importância do despertar da consciência do ser, sem as amarras das clicherias produtoras das batalhas entre o bem e o mal – sendo o primeiro definido pela beleza e pela nobreza e, o segundo, pela feiura e pela picardia.
O figurino de Karlla de Luca desmistifica as vestes principescas engessadas nas mentes dos pequerruchos pelas versões animadas e publicações gráficas estereotipadas e eleva a protagonista ao patamar da mulher batalhadora, alimentada pela perseverança em busca do despertar para a vida. A escuridão que comanda os egos e que se dispersa durante a caminhada da heroína conta com a direção de movimento de Giselda Fernandes que lhe injeta a força da cadência das origens em busca dos desígnios, conduzindo o espectador ao âmago da história contada com muita consciência e respeito ao próximo. Uma força impulsionada pela trilha sonora MAD que, sob a ousadia do sangue pernambucano pulsante da direção de Lino, confronta a essência do ritmo afro brasileiro nordestino de Jaraguá Mulungú e a disciplina clássica do pós romantismo russo da partitura deTchaikovsky. O arquétipo feminino sob o olhar masculino do diretor é evidenciado quando o desenho de luz de Paulo Denizot envolve a personagem como o sol em sua incessante doação a quem possa aquecer.
Encantadora por sua beleza e que se entrega ao sono profundo a ponto de fazer acordar a sua alma, Bela traça a sua existência, transformando-a em  alimento intelectual direcionado ao público infantil. Não obstante, o legado para os adultos acompanhantes, fruto do vazio existencial da protagonista, provoca o desejo pelo despertar das ideias, das verdades e dos conceitos sobre como viver melhor a vida.






sábado, 13 de julho de 2019

Palace II - Três Quartos com Vista para o Mar | sensação de impotência e a constatação da impunidade



Um dramático documentário de horror com viés catastrófico

Um registro cujo marco se dá em pleno carnaval de 1998. Um registro que tem início com projetos de vida. Um registro cujas raízes remontam à chegada dos portugueses na Terra Brasilis. Um registro que revela causas e consequências, visíveis e invisíveis, diretas e indiretas, que se alastram pelo passado, explicam o momento presente e desenham um futuro obscuro de uma nação que ainda clama por uma justiça travestida de sopro de esperança na pele da impunidade. Um documentário intitulado “Palace II - Três Quartos com Vista para o Mar” com lançamento nacional previsto para 18 de julho de 2019 – mais que oportuna lembrança de um dos maiores desastres dos anais da engenharia civil brasileira, levada para a tela dos cinemas, pela direção de Gabriel Correia e Castro e Rafael Machado que, ao lançarem mão da linguagem jornalística na condução da obra, denunciam a perturbadora sensação de inoperância da justiça no trato dos direitos dos cidadãos comuns.

Edifício residencial contemplando cento e setenta apartamentos – cuja construção se deu ao longo da década de 1990, sob a responsabilidade da Construtora Sersan do deputado federal Sérgio Naya – o Palace II, que para muitos representou a realização do sonho de morar na Barra da Tijuca, na cidade do Rio de Janeiro,  foi marcado pelo seu desabamento, em 22 de fevereiro de 1998, decorrente de vícios de cálculo estrutural conjugados ao uso de materiais de baixa qualidade, causando a morte de oito pessoas e deixando cento e cinquenta famílias desabrigadas.

O longa de Castro e Machado reacende chamas do passado alimentadas por falsidade ideológica, por falsificação de documento público, por sonegação e fraude de execução fiscal, por ganância, por desprezo à ética e por quebra de decoro no sentido mais abrangente do desrespeito ao ser humano – conferindo à produção, qualidades de um dramático documentário de horror com viés catastrófico. Ao retratar a luta jurídica das vítimas do Palace II pelos seus direitos, contra o dono da construtora Sersan, o documentário navega pelos meandros do litígio, em meio à morosidade dos trâmites da justiça, cuja inércia se mantém, vinte e um anos após o desastre, contra os que não têm foro privilegiado ou recursos financeiros para comprar uma sentença que favoreça seus interesses.

A sensação de impotência e a constatação da impunidade, fartamente concedidas nos quase noventa minutos de filme, é algo desolador, para o espectador incapaz de não se ver em cada um dos padecedores do Palace II que brigam por algo que deveria ser uma garantia para todos os cidadãos de bem ou do mal – a justiça, cuja cegueira não se explica, se decorrente de total imparcialidade ou de mero equívoco.

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Ta Azor! a Lucidez de Artaud - Sonhos travestidos de lucidez

Sonhos travestidos de lucidez e em terrível estado de solidão



Ao conduzir toda a sua obra pelo incessante desejo de se encontrar, o poeta, pintor, escritor, ator e dramaturgo Antonin Artaud renega a consciência estética, fundamentada em simulacros – a realidade empírica da sobrevivência – embora, manipule a vida como se fosse, supostamente, regida por forças mágicas, a partir de uma consciência cósmica, firmada entre o universo e o divino.

As metáforas associadas às obras do artista são desenhadas no espetáculo “Ta Azor! - A Lucidez de Artaud”, sob o roteiro de Calé Miranda, que gera uma aura dolorosa em torno de um espírito inquieto. A concepção de Calé preenche o espaço cênico com os movimentos, quase coreografados, e pelo texto, austeramente, articulado por Mônica Izidoro, Fátima Colin, Júlio César Pires e Arthur Vinciprova. Como se acometidos por um devaneio onírico, os personagens elegem a cura da dor e da impotência intelectual como o ponto forte da peça, ao discursarem sobre a síntese entre a matéria e o espírito.

Em meio a um espetáculo eminentemente sensorial, o espectador pode se dar ao luxo de cerrar os olhos e compreender o que se passa, simplesmente, através do sentido do olfato – inebriado pela fragrância do mix de ervas composto por hortelã, alecrim, arruda, dentre outros – e pela percepção dos movimentos e da insana coreografia em meio a uma paisagem sonora fantasmagórica, ao mesmo tempo, alucinante, por Marco Netto – consolidando a brutalidade, a promiscuidade, o sofrimento e as privações sofridas por Artaud. Porém, longe da intenção de promover ao espectador a experiência de estar na plateia de um teatro cego, Calé promove uma riqueza cromática a partir da inconsciente leveza orgânica do desenho de luz assinado por  Eliza Moreira, associado ao policromatismo de seu figurino, em busca pelo sentido obscuro da essência de Artaud.

Dessa forma, o espectador é induzido a experimentar uma terapêutica possibilidade de renascimento e de regeneração através de sonhos travestidos de lucidez e em terrível estado de solidão. A arena ambientada, acolhe o público em meio à história, segundo um teatro, sob um novo formato, que dramatiza a escrita e que se dirige ao leitor-espectador. “Ta Azor - A lucidez de Artaud” dá lugar ao corpo humano proferindo palavras em busca de uma cura que se afasta da crueldade, que se apresenta poética e volátil – como a vida de um indivíduo qualquer, inconscientemente lúcido.

segunda-feira, 1 de julho de 2019

Homem-Aranha: Longe de Casa - uma continuação, mais do que satisfatória

Uma continuação, mais do que satisfatória

Veneza, Berlim, Londres e Praga são as cidades icônicas que servem de cenário para a sequência das aventuras do jovem Peter Parker, no filme “Homem-Aranha: Longe de Casa”.

Condicionalmente, a plena compreensão do filme demanda que o espectador esteja bem atualizado junto ao universo Marvel – em especial, ter assistido ‘Vingadores - Ultimato’, com vistas à assimilação do real significado do evento apocalíptico apelidado ‘The Blip’ e, não ser impactado com o spoiler apresentado, de cara, na abertura do filme, ao som de Whitney Houston – ‘I will always love you’.

Com o mundo livre de Thanos, os professores do Midtown planejam um passeio escolar para Europa. Consequentemente, Parker vislumbra a oportunidade de desfrutar a tão almejadas férias e abrir o coração para a sua amada MJ em solo europeu. Ao chegarem ao seu destino, eis que surge um monstro, causando destruição geral. Entra em cena um homem que, se intitulando Mysterio, luta contra a monstruosa criatura. Com isso, acaba conquistando a simpatia de Parker, com quem cria laços de amizade, com o aval de Nick Fury.
  
A direção de Jon Watts tem uma veia imaginativa pirotécnica impactante, além de não poupar o espectador de uma avalanche de cenas de humor teen e de uma boa e adequada dose de realidade aguda, ao se tratar de vida e morte – um somatório que faz do longa uma continuação, mais do que satisfatória, de uma franquia ansiada por uma legião de fãs do Aranha. Seja no início, no meio ou no fim, tudo tem o seu porquê. As cenas pós créditos aprofundam, ainda mais, o que o Universo Marvel promete para a próxima sequência. 

‘Longe de Casa’ contempla um roteiro inteligente e maduro, assinado por Chris McKenna e Erik Sommers – dupla que consegue a proeza de manter a refrescância juvenil inserida em um capítulo da saga dos Vingadores.