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quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Vice



“Vice” – a cinebiografia sobre Dick Cheney, estilizada e sombriamente engraçada, inicia-se com Cheney (Christian Bale) como um bêbado de 22 anos em seu estado natal de Wyoming, na companhia de sua namorada, Lynne (Amy Adams), que lhe dá um ultimato tendo em vista o estado deplorável do jovem – ou ele conclui sua formação universitária ou ela sai de sua vida. Por amor e devoção a Lynne, Cheney se eleva em atenção à demanda de sua amada de que se torne um grande homem. Em 1969, Cheney torna-se estagiário do Congresso, trabalhando na Casa Branca sob a tutela de Donald Rumsfeld (Steve Carell). Em pouco tempo, Cheney sucede Rumsfeld como chefe de gabinete da Casa Branca, no governo do presidente Gerald Ford (Bill Camp).

A direção de Adam McKay prioriza os anos posteriores e anteriores ao 11 de setembro de 2001 e esmiuça os períodos intermediários que inclui o mandato de Cheney como secretário de defesa do presidente George H.W. Bush e suas atividades como CEO da empresa de serviços petrolíferos Halliburton.

O longa se aloca em um limbo, entre provocações e mensagens dicotômicas que despertam o interesse do espectador, ao questionar governantes e, até mesmo, ao analisar sua culpabilidade diante de um mundo inescrupuloso, onde as convicções ideológicas não são importantes para os eleitos, uma vez movidos pelo desejo de poder.


A Sereia: Lago dos Mortos




O novo longa de terror russo conta a história de uma noiva em apuros diante de uma força sobrenatural maligna.

Não se trata do filme ‘A Noiva’ (2017), mas “A Sereia: Lago dos Mortos” que, coincidentemente, também é dirigido por Svyatoslav Podgaevskiy, que se digna a substituir a nefasta figura da noiva por um personagem da mitologia Eslava - uma ninfa, considerada pelos russos como sereias –  bem distintas das que reconhecemos – metade mulher, metade peixe – desprovidas de calda.

A protagonista, interpretada por Viktoriya Agalakova, por obra e graça de uma nova coincidência, também protagonizou o longa ‘A Noiva’. O roteiro também não é muito diferente do filme de 2017. A história se desenrola a partir de uma família desajustada e cheia de segredos, de uma casa fantasmagórica no meio do nada, de uma mocinha bobinha e da figura feminina do mal como antagonista. O resultado de tudo isso não passa de um pouco mais do mesmo, para quem já está familiarizado com os filmes de terror e, calejado, ciente de cada um dos momentos eleitos para assustar os espectadores, tamanha a carga de obviedade projetada na telona. Em vez de medo, “A Sereia: Lago dos Mortos” é capaz de promover profundo tédio que, por uma nova coincidência, ‘A Noiva’ também se esmerou em fazê-lo.




terça-feira, 22 de janeiro de 2019

O Cego e o Louco




A temática cegueira, há muito é retratada, na arte cênica, sob um olhar, de certa forma, transgressor – através do cego adivinho, do que tem a percepção mais aguçada do que aqueles que enxergam, daquele capaz de ver e incapaz de alcançar, dos olhos que vislumbram o que nada tem para avistar – fazendo da privação da visão, uma ameaça a quem é dotado daquele sentido porém, incapaz de lançar seu olhar crítico às suas mini certezas.

Instigando a deficiência física, subliminarmente, Claudia Barral faz de seu texto – “O Cego e o Louco” – uma investigação comportamental de um personagem privado do sentido da visão. Tal busca ganha potencial a partir do espetáculo homônimo dirigido por Gustavo Wabner, que assume a evolução da narrativa coroada por um blackout, a partir de quando se faz possível enxergar mais adiante, com surpreendente acuidade, por aquele que se permite despir os olhos de tudo aquilo que poderia ser interpretado como óbvio. Ao questionar, por meio de alegorias dramáticas, os obscuros caminhos que o ser humano é capaz de percorrer em rumo ao vazio existencial, Wabner desenha Nestor – um pintor cego, repleto de vigor e de domínio sobre si mesmo, criteriosa e zelosamente interpretado por Alexandre Lino – que, com naturalidade fraterna, assume um comportamento perverso responsável por diluir o seu rancor e que lhe serve de combustível na busca de percepções canalizadas por outros sentidos, não combalidos pelo seu estado invisual. A dependência por um alter ego antagonista define o cotidiano de um lúgubre Lázaro – moldado por Wabner a partir da essência artística de Daniel Dias da Silva – que expõe o seu olhar preciso ao povoar o universo predefinido por aquele que vive sob o olhar da alma ininteligível, que vai de encontro do que deveria ser racional.

O conjunto de ideias que tomam o espetáculo “O Cego e o Louco” se faz perceptível e se transforma em ícone a partir do pictórico figurino de Victor Guedes cujo cromatismo, que traduz sensíveis verdades, não é ignorado por aqueles que o trajam. A cenografia de Sergio Marimba assume ares, ora de uma obra de arte inacabada, ora de uma tela em branco à espera da ação do artista, com autonomia para se destacar como um personagem à mais dentro da história. Embora o sentido da visão somente seja estimulado pela incidência de luz sobre os elementos passíveis de serem visualizados, o desenho luminotécnico cênico de Matovaniluz caminha de mãos dadas às intenções do texto de Barral e atua como o mal branco lumínico de Saramago, capaz de iludir e distrair a atenção da plateia quanto à  percepção da realidade. Com aparente conhecimento de uma busca pela cegueira sentimental, a direção de movimento de Sueli Guerra anula a exterioridade dos personagens e faz com que o espectador ‘desveja’ o que poderia ser um dejá-vu. A intuitiva direção musical de Tibor Fittel provoca, propositalmente, a má compreensão da ambiguidade contida nas palavras proferidas pelos protagonistas, promovendo um delicioso ar de suspense psicológico.

A imensa carga teórica do espetáculo se assemelha a uma corrente de estudo da mente humana onde a emoção, de braços dados com a percepção, influencia a conduta do ser diante do seu meio social e o afeto que compõe a subjetividade responsável pela felicidade e pela tristeza, diante daquilo que não vemos sem os olhos emprestados de quem se ama.

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Vidro



‘E se os super-heróis fossem reais?’

Ao levantar a questão - ‘E se os super-heróis fossem reais?’, o longa “Vidro” fecha a trilogia deflagrada em 2000 com “Corpo Fechado”, seguido de ‘Fragmentado’, em 2016.


O temeroso e apreensivo confronto entre forças em “Vidro”, muito além da compreensão humana, não oferece um fechamento forte, o suficiente, para uma trilogia que levou dezoito anos para ser realizada por M. Night Shyamalan.

Juntando as narrativas dos filmes anteriores, Shyamalan temporiza “Vidro” três semanas após os eventos de ‘Fragmentado’ – que, conforme explicitado em sua cena pós-créditos – habita o mesmo universo de ‘Corpo Fechado’: Bruce Willis retorna como o herói David Dunn – um homem que possui força sobre-humana, o que o torna quase invencível – juntamente como o vilão líder de Samuel L. Jackson –  Elijah Price, também conhecido como Mr.Glass. Associam-se a eles: James McAvoy como Kevin Wendell Crumb – portador de Transtorno Dissociativo de Identidade – e Anya Taylor-Joy como Casey Cooke que, dentre três adolescentes, é a única sobrevivente de um encontro com a poderosa e obscura em meio às múltiplas identidades de Crumb, conhecida como ‘A Fera’.

O longa empolga os fãs obcecados pela saga de quase duas décadas de idade que, habilmente, aproxima o espectador mais atento ao psiquê dos personagens, a partir de fundamentos psicológicos reveladores e coroado por uma finalização épica, mas nada recompensadora, ao delegar ao público o benefício do livre arbítrio diante da responsabilidade de se tomar um partido.





O Peso do Passado


Um sombrio conto sobre a dor persistente, com origem a partir de uma decisão mal concebida

Remorso e a gana de vingança é o mote do longa “O Peso do Passado” que, entregue à surpreendente e espetacular performance de Nicole Kidman, apenas acentua o auge de suas habilidades artísticas.

A obra dirigida por Karyn Kusama tem início com uma irreconhecível Kidman no papel da policial Bell, que comparece a uma cena de crime onde é repudiada por outros colegas da corporação. O corpo da vítima e uma pista subsequente – uma cédula de cem dólares manchada – levam a policial de volta a um trágico episódio de seu passado.

O estilo do diretor Kusama, não é, e nem será, de fácil assimilação, até mesmo para o espectador mais atento pois, o passado e o presente entram em rota de colisão e conduzem a conclusões aparentemente satisfatórias – muito embora não se vislumbre conforto ou qualquer ato de redenção por parte dos envolvidos, o que transforma “O Peso do Passado” em um sombrio conto sobre a dor persistente, com origem a partir de uma decisão mal concebida.



quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

A Esposa


O retrato, melancolicamente elegante, de um casamento em crise

Escrito pela dramaturga e roteirista Jane Anderson, baseado no romance de Meg Wolitzer, o filme “A Esposa” – sob a direção ‘Bergmaniana’ do sueco Bjorn Runge e que, como o seu conterrâneo, centraliza um estudo psicológico dos seus personagens e de suas famílias disfuncionais – conta a história de Joe Castleman (Jonathan Pryce) – um renomado romancista americano que, em uma manhã de 1992, recebe um comunicado de que ganhara o Prêmio Nobel de Literatura. Sua esposa, Joan (Glenn Close) – eterna apoiadora das suas ambições, a ponto de se auto intitular como uma fazedora de reis – desenha astutamente o retrato, melancolicamente elegante, de um casamento em crise.

Ao revelar a intimidade do sexismo, com força descomunal, nas premiações do mundo literário – onde as negligências diante do universo feminino acadêmico não valoriza os seus pensamentos – “A Esposa” reflete momentos em que muitas mulheres se silenciam pelos mais variados motivos diante de seus maridos egoístas e narcisistas, pelo simples fato de se conformar em dedicar o seu amor ao ofício de esposa.

“A Esposa” revela não haver nada mais perigoso do que um escritor cujos seus sentimentos foram feridos através de uma advertência proferida por Joan – já há muito cansada e prestes a pedir demissão de seu cargo.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

O Manicômio



Protagonizado por personagens unidimensionais e improváveis fora das lentes das câmeras, o roteiro desmotiva o espectador a se importar com os seus destinos

Quatro youtubers, que se desafiam pela conquista de um maior número de visualizações, resolvem passar uma noite no sanatório abandonado, Beelitz-Heilstätten que, durante a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, serviu como hospital para soldados doentes e feridos – dentre eles, Adolf Hitler, internado na instituição de 9 de outubro a 4 de dezembro de 1916.


Abarrotado de assustadoras cenas clichês focadas nos apresentadores de vídeos no Youtube, o longa alemão “O Manicômio”, dirigido por Michael David Pate, transmite ranço de crítica desconstrutiva desnecessária pelo próprio diretor, ao proferir, por meio de um de seus personagens, que o conteúdo daquela tipologia de mídia é responsável pela proliferação de uma geração de ignorantes – referindo-se aos seguidores dos vlogueiros.

Protagonizado por personagens unidimensionais e improváveis fora das lentes das câmeras, o roteiro desmotiva o espectador a se importar com os seus destinos, tampouco esboçar qualquer interesse em saber se sobreviverão a essa única noite, no sanatório abandonado, mas somente, quando tudo terminará, para lhe garantir a volta às suas próprias redes sociais.