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terça-feira, 22 de janeiro de 2019

O Cego e o Louco




A temática cegueira, há muito é retratada, na arte cênica, sob um olhar, de certa forma, transgressor – através do cego adivinho, do que tem a percepção mais aguçada do que aqueles que enxergam, daquele capaz de ver e incapaz de alcançar, dos olhos que vislumbram o que nada tem para avistar – fazendo da privação da visão, uma ameaça a quem é dotado daquele sentido porém, incapaz de lançar seu olhar crítico às suas mini certezas.

Instigando a deficiência física, subliminarmente, Claudia Barral faz de seu texto – “O Cego e o Louco” – uma investigação comportamental de um personagem privado do sentido da visão. Tal busca ganha potencial a partir do espetáculo homônimo dirigido por Gustavo Wabner, que assume a evolução da narrativa coroada por um blackout, a partir de quando se faz possível enxergar mais adiante, com surpreendente acuidade, por aquele que se permite despir os olhos de tudo aquilo que poderia ser interpretado como óbvio. Ao questionar, por meio de alegorias dramáticas, os obscuros caminhos que o ser humano é capaz de percorrer em rumo ao vazio existencial, Wabner desenha Nestor – um pintor cego, repleto de vigor e de domínio sobre si mesmo, criteriosa e zelosamente interpretado por Alexandre Lino – que, com naturalidade fraterna, assume um comportamento perverso responsável por diluir o seu rancor e que lhe serve de combustível na busca de percepções canalizadas por outros sentidos, não combalidos pelo seu estado invisual. A dependência por um alter ego antagonista define o cotidiano de um lúgubre Lázaro – moldado por Wabner a partir da essência artística de Daniel Dias da Silva – que expõe o seu olhar preciso ao povoar o universo predefinido por aquele que vive sob o olhar da alma ininteligível, que vai de encontro do que deveria ser racional.

O conjunto de ideias que tomam o espetáculo “O Cego e o Louco” se faz perceptível e se transforma em ícone a partir do pictórico figurino de Victor Guedes cujo cromatismo, que traduz sensíveis verdades, não é ignorado por aqueles que o trajam. A cenografia de Sergio Marimba assume ares, ora de uma obra de arte inacabada, ora de uma tela em branco à espera da ação do artista, com autonomia para se destacar como um personagem à mais dentro da história. Embora o sentido da visão somente seja estimulado pela incidência de luz sobre os elementos passíveis de serem visualizados, o desenho luminotécnico cênico de Matovaniluz caminha de mãos dadas às intenções do texto de Barral e atua como o mal branco lumínico de Saramago, capaz de iludir e distrair a atenção da plateia quanto à  percepção da realidade. Com aparente conhecimento de uma busca pela cegueira sentimental, a direção de movimento de Sueli Guerra anula a exterioridade dos personagens e faz com que o espectador ‘desveja’ o que poderia ser um dejá-vu. A intuitiva direção musical de Tibor Fittel provoca, propositalmente, a má compreensão da ambiguidade contida nas palavras proferidas pelos protagonistas, promovendo um delicioso ar de suspense psicológico.

A imensa carga teórica do espetáculo se assemelha a uma corrente de estudo da mente humana onde a emoção, de braços dados com a percepção, influencia a conduta do ser diante do seu meio social e o afeto que compõe a subjetividade responsável pela felicidade e pela tristeza, diante daquilo que não vemos sem os olhos emprestados de quem se ama.

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