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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Minha Fama de Mau



Não se propõe ao esclarecimento e ao mergulho nos fatos marcantes da vida do artista, mas, a despeito da compilação dos seus principais sucessos, passa ao largo de um viés dramático.


Uma proposta cinebiográfica de um dos ícones da Jovem Guarda fracassa ao se limitar ao universo abordado pelo livro homônimo, a partir do qual foi baseado. “Minha Fama de Mau” lança o seu olhar seletivo, ora em passagens felizes, ora engraçadas, reprisando o sugerido processo de estagnação que teria sido submetido o autor do livro - o cantor Erasmo Carlos - no início dos anos 1990.

A benevolente direção de Lui Farias sugere um voluntário empenho pela sonegação de fatos reais, sobrepondo-se à efetiva narrativa da história da fama de mau de um garoto que se tornou o Tremendão. Farias priva o espectador dos meandros da indústria fonográfica no período compreendido entre o fim dos anos 1950 e o começo dos anos 1970 – época em que o trio formado por Wanderléa, Roberto Carlos e Erasmo Carlos, no programa de maior audiência nas tardes de domingo - Jovem Guarda. Também falta, ao espectador, saciar a sua demanda pelas diligências sobre os principais sucessos do astro, da mesma forma que sua história familiar não surpreende, sequer agrega muito ao roteiro. A repentina amizade com Roberto Carlos é tão pouco esclarecida quanto o destino de Wanderléa após a interrupção definitiva do programa televisivo. A intenção em homenagear o grande amor de Erasmo Carlos soa caricata, através de seu suposto envolvimento com mulheres distintas nomeadas Lara, Clara e Samara – todas interpretadas por uma única atriz, como uma metáfora a Narinha, mãe de seus três filhos.

“Minha Fama de Mau” não se propõe ao esclarecimento e ao mergulho nos fatos marcantes da vida do artista mas, a despeito da compilação dos seus principais sucessos, passa ao largo de um viés dramático e da psique de um Erasmo, ainda adolescente, que esteve a um passo de um portal para a marginalidade.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Se a Rua Beale Falasse

Impacta o espectador, emocionalmente, desde os primeiros minutos de projeção

A história romântica de Tish e Fonny (KiKi Layne e Stephan James) – amigos de infância que se transformam em almas gémeas adultas – torna-se uma tenebrosa história quando Fonny é acusado de estupro por uma mulher e Tish se descobre grávida.

Baseado no romance homônimo de James Baldwin – o filme “Se a Rua Beale Falasse” impacta o espectador, emocionalmente, desde os primeiros minutos de projeção. A partir de uma linha de tempo não linear idealizada pelo diretor Barry Jenkins – o mesmo de ‘Moonlight’ – o longa revela, ao espectador, o que é velado aos olhos dos personagens, por isso mesmo, reservando, somente para quem assiste, qualquer fragmento de esperança por um final minimamente digno – como ocorre quando se assiste a noticiários que reportam pessoas condenadas a pena de prisão, quiçá de morte, mesmo quando sua inocência não tenha, em tempo, sido comprovada. 

Embora o longa retrate o Harlem dos anos 70, a essência de “Se a Rua Beale Falasse” confere com a atualidade mundial, onde as injustiças e o fanatismo religioso contribuem para que atrocidades, de todas as ordens, não tenham fim. 

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Verão na Lagoa - Blitz & Biquini Cavadão


A Blitz faz a festa para os saudosistas dos anos 1980 e deixa o público aceso para a atração seguinte da noite – a banda Biquini Cavadão que, com todo o gás, abre o show com “Vital e Sua Moto”

O palco do Clube Monte Líbano, na Lagoa – Rio de Janeiro, dá início à série de shows do Verão na Lagoa 2019 com as bandas Blitz e Biquini Cavadão, na sexta-feira, 1º de fevereiro.

A banda Blitz abre a temporada com os seus clássicos “Weekend” “Egotrip”, "Betty Frígida", "A verdadeira história de Adão e Eva", dentre outros, e a mais recente música em parceria com Roberto Frejat "Baile Quente" – com a banda configurada por Juba (bateria) e Billy Forghieri (teclados), Rogério Meanda (guitarra) e Cláudia Niemeyer (baixo) e as cantoras Andréa Coutinho e Nicole Cyrne. A Blitz faz a festa para os saudosistas dos anos 1980 e deixa o público aceso para a atração seguinte da noite – a banda Biquini Cavadão que, com todo o gás, abre o show com “Vital e Sua Moto”, “Se Eu Não Te Amasse Tanto Assim”, “Aonde Quer que Eu Vá” e músicas do seu mais novo álbum ‘Ilustre Guerreiro’ – uma homenagem ao cantor Herbert Vianna, da banda Os Paralamas do Sucesso. Dando continuidade ao show, o vocalista Bruno Gouveia arrebata o público com “Múmias”, “Tédio”, “Janaína”, “Impossível” e muitos outros sucessos de carreira da Banda, atualmente composta por Carlos Coelho (guitarra), Miguel Flores da Cunha (teclados) e Álvaro Birita (bateria).

A programação de Verão na Lagoa 2019 desta última sexta-feira  foi marcada por um público cantante e dançante, cem por cento do evento, que matou a saudade dos anos 80, uma vez que, a cada intervalo, o DJ tocou de Oingo Boingo a The Police, fazendo com que todos se divertissem como se não houvesse um amanhã.

domingo, 3 de fevereiro de 2019

Espelhos



Atravessa o portal fronteiriço entre Machado de Assis e Guimarães Rosa


Lançando o seu olhar seletivo nos dois contos homônimos de Machado de Assis e Guimarães Rosa – “O Espelho”, o espetáculo “Espelhos” discorre sobre a dubiedade e a infidelidade intrínseca na propriedade reflexiva de um espelho, defendendo o descrédito da imagem refletida, tendo em vista as deformações, os aperfeiçoamentos e as desigualdades reprodutivas do ser retratado em sua superfície.

Ao defender a teoria de que cada indivíduo possuir duas almas – uma exterior e outra interior, Jacobina – um homem machadiano, de origem humilde, que conquista uma posição melhor na vida por conta de uma nomeação a um posto militar – torna-se objeto de uma profunda análise cênica por parte do ator paranaense Ney Piacentini que, através de sua singular faculdade interpretativa, descarrega sobre o espectador, pérolas  que induzem à reflexão sobre “o ser” versus “o parecer”, sobre “o desejo” versus “o disfarce”, sobre “a vida pública” versus ”a vida pessoal”.

Em perfeita mixagem de textos e prosseguindo como simbióticos exímio narrador e pantomimo marceauliano, Piacentin atravessa o portal fronteiriço entre Machado de Assis e Guimarães Rosa e assume o personagem que não se reconhece ao se olhar no espelho, expondo o espectador ao seu próprio reflexo, induzido por Piacentin, a se entregar aos mesmos questionamentos do narrador.

O desenho de luz e o projeto cenográfico de Marisa Bentivegna fazem parte de uma instalação dependente da interatividade do elenco e da operação de luz e som com vistas ao aliciamento do espectador na participação do jogo de convencimento refletido em cena. O lirismo contido no figurino de Fábio Namatame traz marcas dos efeitos das paixões e das pressões psicológicas que dissimulam as máscaras que entravam a expectativa dos encontros. A enigmática paisagem sonora concebida por Miguel Caldas, de braços dados à luminotecnia cênica e ao cenário, sela o tom de magia e mistério do monólogo, desligando, por completo, o espectador do mundo exterior.

Segundo um referencial psicanalítico, o espetáculo, aborda o narcisismo como uma estruturação desenvolvida pelo eu interior e implanta, em sua derivação, o processo de identidade do ser medido pela consciência moral e ética decorrente do mito que acha feio o que não é espelho.