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domingo, 3 de fevereiro de 2019

Espelhos



Atravessa o portal fronteiriço entre Machado de Assis e Guimarães Rosa


Lançando o seu olhar seletivo nos dois contos homônimos de Machado de Assis e Guimarães Rosa – “O Espelho”, o espetáculo “Espelhos” discorre sobre a dubiedade e a infidelidade intrínseca na propriedade reflexiva de um espelho, defendendo o descrédito da imagem refletida, tendo em vista as deformações, os aperfeiçoamentos e as desigualdades reprodutivas do ser retratado em sua superfície.

Ao defender a teoria de que cada indivíduo possuir duas almas – uma exterior e outra interior, Jacobina – um homem machadiano, de origem humilde, que conquista uma posição melhor na vida por conta de uma nomeação a um posto militar – torna-se objeto de uma profunda análise cênica por parte do ator paranaense Ney Piacentini que, através de sua singular faculdade interpretativa, descarrega sobre o espectador, pérolas  que induzem à reflexão sobre “o ser” versus “o parecer”, sobre “o desejo” versus “o disfarce”, sobre “a vida pública” versus ”a vida pessoal”.

Em perfeita mixagem de textos e prosseguindo como simbióticos exímio narrador e pantomimo marceauliano, Piacentin atravessa o portal fronteiriço entre Machado de Assis e Guimarães Rosa e assume o personagem que não se reconhece ao se olhar no espelho, expondo o espectador ao seu próprio reflexo, induzido por Piacentin, a se entregar aos mesmos questionamentos do narrador.

O desenho de luz e o projeto cenográfico de Marisa Bentivegna fazem parte de uma instalação dependente da interatividade do elenco e da operação de luz e som com vistas ao aliciamento do espectador na participação do jogo de convencimento refletido em cena. O lirismo contido no figurino de Fábio Namatame traz marcas dos efeitos das paixões e das pressões psicológicas que dissimulam as máscaras que entravam a expectativa dos encontros. A enigmática paisagem sonora concebida por Miguel Caldas, de braços dados à luminotecnia cênica e ao cenário, sela o tom de magia e mistério do monólogo, desligando, por completo, o espectador do mundo exterior.

Segundo um referencial psicanalítico, o espetáculo, aborda o narcisismo como uma estruturação desenvolvida pelo eu interior e implanta, em sua derivação, o processo de identidade do ser medido pela consciência moral e ética decorrente do mito que acha feio o que não é espelho.

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