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quinta-feira, 21 de março de 2019

A Cinco Passos de Você




‘Abandone toda a esperança…’

Em um hospital, em algum lugar dos EUA, garoto conhece garota – ambos vulneráveis a contraírem fatais infecções respiratórias. Se garoto tosse próximo à garota, ou vice-versa, correm o risco de se contaminarem e serem levados ao óbito.


Uma caricatura seca e desprovida de emoção, do argumento da proposta de obra cinematográfica dirigida por Justin Baldoni – um drama voltado para o público juvenil, baseado no livro homônimo “A Cinco Passos de Você” – como uma máquina de produção de cenas compulsivamente emotivas que recheiam  o filme com história de amor mixadas com superação.

O longa assume o potencial de uma metáfora do amor que pode matar, com velada meta de calejar seu público alvo que ainda galga os primeiros passos da vida, sob o ímpeto de previsível rebeldia jovial passional e sem aportes positivos, ao demonstrar a auto permissividade em infringir as regras de distância necessária entre pacientes, como condição contra contaminação mútua – dando lógica ao título do filme.

O roteiro, que contempla o desrespeito à regra da distância dos protagonistas Stella e Will é tão previsível quanto desnecessária se faz propagar a imagem do amor acima de tudo, tomando-se como ponto de partida as agruras daqueles que, de fato, sofrem do mal da fibrose cística – mesmo que a filosofia sobre a necessidade de se “viver a vida ao máximo” seja estampada como um argumento contra a possibilidade, nada remota, de se contrair uma infecção pulmonar fatal.

É pouco provável que a razão do espectador não o faça enxergar a temática do amor como apenas um pano de fundo para a simples expressão do desejo de tocar e de ser tocado e de conquistar o conforto físico e emocional idealizados – como a tão desejada e quase inatingível “alma-gêmea” ou “metade da laranja” – traduzidos nos seguintes dizeres de uma placa desenhada do próprio punho de Will, pendurada na porta do seu quarto de hospital: “Abandone toda a esperança, vós que entram aqui”.

O Retorno de Ben



Meritocraticamente, Julia Roberts toma o filme para si


Uma família lida com o regresso de um de seus membros – o jovem Ben – afastado do seio familiar em função de sua internação decorrente da dependência química.  Dessa forma, aparentemente, se apresenta o argumento do mais novo longa de Peter Hedges – “O Retorno de Ben”. Contudo, o que poderia respaldar, num primeiro momento, o dito popular “o bom filho a casa torna” – diante do cenário de um reencontro entre mãe (Julia Roberts no papel de Holly Burns) e filho (Lucas Hedges, desempenhando Ben), às vésperas das festas natalinas, sob o testemunho de uma casa onde reside a família de classe média e de um veículo repleto de presentes e ocupado por três crianças espectadoras  – sucumbe ao já não tão surpreendente, mas delicado roteiro, contemplando um viciado em drogas que se afasta de seu programa de tratamento para passar uma data festiva com sua família. Neste caso, as boas vindas ao retorno de Ben não são prestadas de forma unânime.

Para o espectador, resta um bom tempo visando à compreensão dos motivos que possam justificar o hiato entre demonstrações de intensa alegria pela chegada do filho, enteado e irmão con e não consanguíneo, e a inquietação quanto à temporária reintegração de Ben à família no Natal, sem qualquer afã quanto ao real propósito do drama proposto – a  história do filho que não consegue se curar da dependência química, ou da supermãe capaz de se superar na tentativa de resgatar a sua prole do mundo das drogas.

Muito embora o protagonismo que intitula a obra fique a cargo da interpretação do filho de Peter Hedges e de um retorno cuja interpretação dá margem à dubiedade temporal – se a volta voluntária de Ben ao seio da família ou se o resgate de Ben do submundo do narcotráfico por sua mãe. Meritocraticamente, Julia Roberts toma o filme para si e faz de Burns a imagem da mãe politicamente correta – respeita os problemas associados ao vício, não minimiza a dificuldade de recuperação e sabe a necessidade de não trafegar pelo vitimismo.

sexta-feira, 15 de março de 2019

Auto Eus – A Ditadura da Aprovação Social



Radicalmente distraído no sentido fundamental de, apenas, não ser

Segundo alguns estudos de questões gerais e fundamentais relacionadas com a natureza da existência humana, o ser é considerado como o conceito mais universal e mais vazio de todos, resistente a qualquer esforço intelectual por uma definição. Muito menos abstrato do que o olhar da nossa vã filosofia possa lançar sobre a matéria, o espetáculo “Auto Eus – A Ditadura da Aprovação Social” delineia o seu contexto sobre o ser e o expõe através de um pungente autoretrato da atriz e personagem Adriana Perim que, dentro da progressão temporal da história contada, evidencia o sentido do progresso e da evolução do ser transportado para o espaço cênico.

A fenomenologia contida na direção de Raíssa Venâncio traz à luz o processo de abstração compreendida pela obscuridade humana, da mesma forma que a estrutura proposta faz emergir o sentido filosófico do fim que justifica os meios, como uma espiral fragmentada, plural e multifacetada de um corpo que conduz toda a dramaturgia de Perin, Paula Vilela e Venâncio. A direção de movimento e a preparação corporal, sob a égide de Lavínia Bizzotto, introduz à dramatização o sintoma da realidade, poupando o espectador, estrategicamente, da explicitação da doença emocional latente em todos os seres. A aparente doutrina fundamentada em movimentos e palavras é intuída pelo desenho de luz de Renato Machado que, como uma consciência finita, tem a sua importância justificada e inexplicavelmente mergulhada no nada ilusório. O esquecimento da dimensão profunda da personagem retorna sob a direção musical de Daniel Lopes que, dentre outros, presenteia a plateia com Beirut e Radiohead, superando a angústia manifestada pelo mundo sobre o ser.

A autenticidade do espetáculo reconduz o espectador ao encontro consigo mesmo, sem ser subjugado pela ditadura do impessoal, sem alienação de afazeres decorrentes da obrigação social e radicalmente distraído no sentido fundamental de, apenas, não ser.

quinta-feira, 14 de março de 2019

Um Funeral em Família




Capaz de convencer somente os que se satisfazem com um padrão de humor mediano



Anthony (Derek Morgan) – o patriarca da história do filme “Um Funeral em Família” –  é encontrado morto em um quarto de hotel na Geórgia, após uma noite de sexo violento com a melhor amiga de sua esposa. O ocorrido é testemunhado por Madea (Tyler Perry), em companhia de sua tia Bam (Cassi Davis) e Hattie (Patrice Lovely), que se preservam ao não comentar o acontecido. Todos estão no hotel para comemorar o aniversário de casamento de Anthony e Vianne (Jen Harper). Como agravante, AJ (Courtney Burrell) – o filho casado de Anthony – ocupa o quarto ao lado, desfrutando de um encontro com Gia (Aeriél Miranda) – a noiva de seu irmão, Jesse (Rome Flynn).

Mabel "Madea" Simmons é um personagem criado e interpretado por Tyler Perry. O longa é o décimo primeiro e derradeiro episódio da franquia da personagem que é conhecida, nos Estados Unidos da América, por suas caracterizações. O escritor/diretor/intérprete Tyler Perry, ao invés de finalizar a franquia de maneira razoavelmente digna, prefere entregar algo maculado por desinteressante enredo, que  fica em torno das infidelidades conjugais dos personagens mais jovens e sem nenhum carisma - frutos de sua direção desfocada.

A desequilibrada e insossa história que abusa do estereótipo, da vulgaridade e dos diálogos pobres tende a incluir brigas barulhentas, na tentativa de ludibriar o espectador com um mínimo de bom gosto, diante da insensatez de seu controle de qualidade – uma artimanha capaz de convencer somente os que se satisfazem com um padrão de humor mediano, mesmo sem ter acompanhado ou ter ouvido falar de Madea.