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domingo, 31 de março de 2019

Cole Porter - Ele Nunca Disse Que Me Amava



Fascínio, quase de imediato

Cinco mulheres resgatam a vida do autor de mais de oitocentas composições para musicais da Broadway e de Hollywood no espetáculo “Cole Porter - Ele Nunca Disse Que Me Amava”, celebrando o talento e a genialidade de um dos maiores compositores do século XX.

Se por um lado, Porter é descrito por aquelas mulheres como um homem franzino, frágil e mentiroso, por outro, ressaltam o carisma do bon vivant que sempre desfrutou em meio ao luxo, viajou por quase todo o mundo e não dispensava uma festa sequer.

Ao evidenciar o extravagante estilo de vida de Porter, com seu humor peculiar, a direção de Charles Möeller – que também assina a coreografia ácida e, equilibradamente, sensual – define o perfil de um homem esnobe – mas muito generoso com seus amigos, e de um marido homossexual – mas totalmente comprometido com sua esposa, sem comprometer a superficialidade de sua vida. 

O fato de Cole Porter não entrar em cena como personagem incorporado por um ator acaba despertando, no espectador, um fascínio, quase de imediato, pelo o elenco formado por Bel Lima (Kate Porter, a mãe), Alessandra Verney (Bessie Marbury, a agente), Analu Pimenta (Elsa Maxwell, a promoter), Gottsha (Ethel Merman, a atriz), Stella Maria Rodrigues (Linda Porter, a esposa) e Malu Rodrigues (Angélica, a morte) que, intensamente penetram na complexidade das letras das canções, ao mesmo tempo que distinguem os diversificados relacionamentos de Porter com o sexo oposto.

A precisa condução da direção musical de Claudio Botelho sugere o amor, como desejo, algo inexplicavelmente esmagador e misterioso que, dentro do contexto do teatro musical, não abre brechas para males entendidos. Os arranjos musicais são fortalecidos pela destreza da interpretação e redefinição de orquestração de Marcelo Castro, que acomoda a sofisticação mundana com tamanha naturalidade que o espectador consegue materializar Porter, até mesmo a partir de uma voz em off.

Marcelo Marques concebe um figurino com zelo aos seus tempos e à essência de cada uma das mulheres que fizeram parte da vida do protagonista In Memoriam. A capacidade de conjugação da simplicidade de materiais e da sofisticação atingida pela concepção fica por conta do projeto cenográfico de Rogério Falcão, estilizado em meio ao Art Deco mixado à era do Jazz, em perfeita sintonia com a equilibrada sensibilidade musical reportada pelo design de som Marcelo Claret que enriquece, intrinsecamente, a identidade do repertório sonoro. Cenografia, som e imagem, mais uma vez, são aquarelados – em meio à atmosfera deste musical que oscila entre leve e intensamente esfumaçada – pelo polido diálogo travado com o desenho de luz de Paulo Cesar Medeiros que, sem maiores esforços, cintila as interpretações das cantoras/atrizes, sem lançar mão de desnecessária pirotecnia lumínica.

O espetáculo, que conta com 39 canções, pontuam a trajetória de Porter sem qualquer definição cronológica, conseguindo entrelaçar o frescor dos clássicos e de, até mesmo, músicas pouco conhecidas, com exuberância inigualável, a partir do contexto que parece enaltecer somente as canções de Porter – porém, muito mais do que isso. 

quinta-feira, 28 de março de 2019

Vox Lux - O Preço da Fama




Lacunas aparentemente intransponíveis

A adolescente Celeste Montgomery (Raffey Cassidy) entra para o hall da fama após sobreviver a um massacre em sua escola.


O viés do longa “Vox Lux - O Preço da Fama” assume o protagonismo de uma jovem ambiciosa e calculista, com boas intenções implícitas em seus atos. O longa, subdividido em capítulos, projeta, vinte anos após, a atriz Natalie Portman, incorporando aquela que já fora a jovem Celeste, no início de sua carreira. Diva pop, malcriada, nervosa e dispomaníaca, Natalie torna-se uma adulta, sem jamais ter amadurecido.

A firme direção de Brady Corbet, propositalmente, se permite fugir do controle, transformando o longa uma experiência intrigante para o espectador, beirando a um terrível pesadelo, chocando em vários aspectos e deixando lacunas aparentemente intransponíveis – ao mesmo tempo, abrasivas. A provocante trilha sonora do filme contrasta com canções compostas pela australiana SIA e Scott Walker, soando como um tipo de advertência descontinuada, no decorrer de cada cena.

Corbet não tem a intenção de resolver enigmas, mas levar o espectador ao questionamento sobre o motivo que conduz celebridades artísticas como Celeste à autodestruição – um filme que nos remete a Janis Joplin, Jimmy Hendrix, Michael Jackson, Amy Winehouse, dentre outros.

Happy Hour – Verdades e Consequências



Imerge em temas que não o permitem sequer, resgatar o filme à tona

“Happy Hour – Verdades e Consequências”, sob a classificação de comédia, é uma coprodução Brasil-Argentina que conta a história de Horácio (Pablo Daniel Echarri) – um professor universitário argentino casado com Vera (Letícia Sabatella) – uma vereadora carioca afastada do cargo, por conta de sua candidatura à prefeitura. Um casamento abalado após Pablo capturar, involuntariamente, um transgressor cujo padrão delituoso é definido pela escalada das fachadas de edifícios visando à invasão de apartamentos. A ascensão do professor ao status do heroísmo é, instantaneamente, promovida pela imprensa, seguida do ferrenho e avassalador assédio feminino, provocando, em Pablo, uma forte reflexão sobre o modelo de matrimônio seguido pelo casal. Com isso, Pablo comunica à sua esposa resoluções unilaterais machistas e descabidas, tendo em vista os tempos atuais e a própria idade do personagem.

A direção mediana de Eduardo Albergaria consegue a proeza de não esgotar o espectador em meio à diversidade de situações que se desvencilham do enredo principal. Contudo, Albergaria imerge em temas que não o permitem sequer, resgatar o filme à tona, nem mesmo como uma propaganda turística para o Rio de Janeiro.

Gloria Bell




Há mais drama em um único dia de vida de uma pessoa que a vã filosofia pode conceber

Uma agente de seguros residente em um pequeno apartamento em Los Angeles, divorciada, e que ainda não desistiu buscar por um amor, se dispõe a levar a vida embalada por canções dos anos 1980 as quais cantarola, acompanhando o som de seu carro e que, ao mesmo tempo, desenham a sua história. 


O deleite do longa “Gloria Bell” está na maturidade do egoísmo, presente em adultos sem superpoderes, que não se dispõem combater seus arquivilões – muito menos salvar o mundo além do universo ao seu redor imediato. Por isso mesmo, isentam-se qualquer recurso pirotécnico tecnológico, muito menos, efeitos especiais.

O nocaute desferido no espectador, pela direção perversa de Sebastián Lelio, age diretamente no engrandecimento da personagem, grandiosamente vivida por Julianne Moore – uma frequentadora habitué de um bar local, onde conversa e dança com estranhos, como se não houvesse o amanhã. Sem qualquer viés narrativo convencional, o cineasta chileno envolve o espectador apenas com os imprevistos emocionais que são estampados no rosto de Moore – mormente quando a voz da razão deixa de ser ouvida para escutar a voz do coração, ao conhecer e permitir um homem divorciado, com problemas emocionais insolúveis, entrar em sua vida.

Ao mostrar que há mais drama em um único dia de vida de uma pessoa que a vã filosofia pode conceber, o longa dá de ombros aos blockbusters que valorizam perseguições e explosões mais do que a essência da vida dos seres humanos e seu relacionamento com a sua existência.

quarta-feira, 27 de março de 2019

Dumbo



Produto da mais que perfeita química entre os olhares do diretor Tim Burton e do roteirista Ehren Kruger

Estreado em 23 de outubro de 1941, o quarto longa-metragem de animação – o mais curto dentre os clássicos produzidos pelos estúdios Disney, com sessenta e quatro minutos de duração – se baseia no livro infantil de autoria da escritora norte americana Helen Aberson, ilustrado por Harold Pearl – “Dumbo, o elefante voador”, publicado em 1939.

A história conta a saga de um elefante bebê que “nasce” em um circo e que sofre assédio moral e psicológico por conta de suas orelhas demasiadamente grandes. A partir da ajuda de amigos, Dumbo reverte a sua situação de achincalhado ao ser idolatrado por conta da descoberta do seu dom de voar, usando as suas orelhas como asas.

Desde a primeira releitura de Dumbo pelos estúdios Disney, a partir do livro de Aberson e Pearl, é possível identificar a liberdade de criação frente à substituição de personagens, tais como o pássaro chamado Red – do livro, pelo ratinho Timóteo – da primeira versão para o cinema – ambos parceiros de Dumbo, responsáveis por estimular a sua autoestima e direcioná-lo no caminho do estrelato, e que, ao final de ambas as versões, são contratados pela indústria cinematográfica de Hollywood.

Seguindo a linha da liberdade de manipulação dos personagens e do roteiro do longa de animação de 1941 – assinado por Joe Grant e Dick Huemer, e dirigido por Bem Sharpsteen – a releitura do clássico em live-action, com lançamento previsto para 29 de março de 2019, no Brasil – produto da mais que perfeita química entre os olhares do diretor Tim Burton e do roteirista Ehren Kruger – não poupa a mente do espectador fiel consumidor dos clássicos Disney, de uma imersão em meio à compulsiva tentativa de estabelecimento de links entre as duas produções.

A ingênua fantasia e o tecnicolor anunciado no pôster do longa de animação ganham ares góticos e sombrios no live-action. Cenas e personagens icônicos presentes no longa de 1941, tais como a chegada dos bebês nas jaulas do circo e o camundongo Timóteo, ganham breves referências pontuais, somente perceptíveis aos olhos do espectador mais antenado. Por outro lado, cenas com roupagem extremamente infantil da primeira versão, como nas quais tomam parte a “maria fumaça” chamada Casey Junior – uma referência direta ao famoso maquinista norte-americano Casey Jones – redesenhada para a versão live-action porém, mantendo as características concebidas originalmente.

O drama provocado pelo bullying sofrido pelo bebê elefante, em função de suas enormes orelhas, ganha imediato amparo de uma família composta por um casal de crianças – Milly Farrier (Nico Parker) e Joe Farrier (Finley Hobbins) órfãos de mãe, e por um pai – Holt Farrier  (Collin Farwell) que já fora estrela de circo e que, ao retornar da guerra, recebe a difícil tarefa de cuidar do elefantinho chamado Jumbo, posteriormente apelidado, pejorativamente, Dumbo. O espirro do filhote, responsável pela exposição de suas enormes orelhas diante das demais elefantas, causado pela aspiração de um pena pela sua tromba – pena que, no longa de 1941, fora arrancada do rabo de um dos corvos componente de uma trupe de malandros, pelo seu líder Jim Crow, e que se torna o grande amuleto de Dumbo, responsável por alimentar a sua autoconfiança para voar – tornam-se causa e efeito indissociáveis a cada decolagem do protagonista neste remake. E por falar em corvos, os cinco irmãos de penas pretas são extirpados do live-action, sem dó nem piedade, transferindo para as crianças a tarefa de serem os portadores da “pena mágica” responsável por detonar o dom de voar do elefante bebê. Vale a observação que nessa sua obra, Tim Burton não concede falas a qualquer um dos animais participantes do elenco.

Os créditos pela composição da nova trilha sonora de Dumbo fica por conta de Danny Elfman – composta por uma nova linguagem instrumental contemporâneo que inclui a trilha Casey Junior – muito fiel à original – e a melancólica releitura de "Baby Mine" pela cantora Aurora – a canção de ninar original de autoria de Frank Churchill e letra de Ned Washington gravada, originalmente, por Betty Noyes, dentre outras.

Levando-se em conta a curta duração do longa de animação, a considerável redução das cenas musicalizadas e seus timings na versão live-action, Kruger insere uma continuidade ao roteiro de Grant e Huemer, a partir do que seria o fim do longa original, preservando preciosidades não contempladas na – o que poderia ser chamada de – primeira parte do filme. A alucinação de Dumbo e Timóteo embalada pela trilha “A Parada dos Elefantes Cor de Rosa” – quando do pileque tomado, acidentalmente, pela dupla – é transportada para o picadeiro em DreamLand, quando da performance de coristas moldando bolhas de sabão a partir de enormes aros circulares. Outro resgate da versão de 1941 demanda um breve retorno à cena dos corvos, quando Dumbo lhes foi apresentado pelo camundongo Timóteo como “a nova maravilha do universo – o único elefante voador”, precedendo a canção "Eu Vi um Elefante Voar”, com o pronunciamento de alguns de seus versos pelo apresentador circense ao anunciar a entrada da estrela do espetáculo no picadeiro da versão de Tim Burton. Com extremo respeito aos desenhos icônicos do longa de animação – em especial, os que mostram Timóteo voando com Dumbo na aba de seu chapéu – Tim Burton promove tomadas nas quais a artista aérea Colette, sua parceira de cena, sobrevoa o picadeiro montada nas costas de Dumbo, trajando figurino que remete ao usado por Timóteo, em ambas as versões.

Em Dumbo 2019, juntam-se à família Farrier: Dani de Vito (no papel de Max Medici, o dono do circo), Eva Green (no papel de Colette Marchant, a artista aérea), Michael Keaton (V.A. Vandemere, o produtor que enxerga Dumbo como a galinha dos ovos de ouro) e Alan Arkin (que incorpora J. Griffin Remington – o banqueiro escolhido por Vandemere para patrocinar o investimento em Dumbo e torná-lo uma estrela), dentre outros.

Longe de atribuir total ineditismo a essa continuidade ao roteiro original, Kruger metamorfoseia a ingenuidade do conto de Aberson para uma realidade atual. Consequentemente, seu roteiro foi recheado com ganância pelo enriquecimento a qualquer custo, com o avanço da globalização e da modernização dos parques temáticos como forma de fomento ao turismo e com uma boa dose de conscientização sobre a defesa e os direitos da fauna e do combate à utilização de animais em circos.

Sem sombra de dúvida, a despeito de qualquer adaptação sofrida por ambas as versões da história do filhote de elefante que voa, a emotiva relação entre mãe e filho é a principal engrenagem de “Dumbo” – para espectadores de todas as idades.

A Rebelião



A fatal e indiscutível aceitação do presente encaminhado pelos céus: o fascismo


O local é Chicago; o ano, 2027. Uma grotesca espécie alienígena encontra-se no comando do planeta Terra e, ao contrário de uma reação combatente à invasão, a maioria dos humanos, incluindo os governantes das nações mais expoentes em todo o mundo, se prostram diante dos invasores, durante nove longos anos. Mas a submissão diante do golpe alienígena não é compartilhada pela resistência que, durante a ocupação extraterrena, cresce progressivamente nas grandes cidades.

O cativeiro implantado na Terra é uma obra do imaginário de Rupert Wyatt, também diretor do longa, sem qualquer propósito de promover  entretenimento,  uma vez que a pressão impingida na mente do espectador é tão intensa que acaba transformando “A Rebelião” em algo medonho e insatisfatório. Faz parte da meta de Wyatt, explicitar o irremediável e cruel desejo que a humanidade seja condenada através de requintado sinistro tecnológico, com intenção única – a confirmação de quem é o dono de quem.

Nove anos após o primeiro contato, o comando do Planeta é transmitido para os possessores alienígenas, cujo líder, de aspecto espinhoso, é conhecido como o Legislador. Criaturas tão bondosas quanto um ditador – um anseio que faz parte do credo de muitos humanos, mesmo em conturbados tempos atuais, em todo o mundo – operam a partir da instabilidade monetária e da opressão dos direitos.

O longa, mesmo após uma hora de árida labuta interpretativa dos acontecimentos, mantém o seu conteúdo tedioso, sem qualquer compromisso com o que possa ser considerado essencial e prover a clareza do que ocorre no mundo de Wyatt – sem dilema existencial ou motivo sócio-político aparente, mas somente o descompromisso para com a solução de uma catástrofe em nível mundial – a fatal e indiscutível aceitação do presente encaminhado pelos céus: o fascismo.

segunda-feira, 25 de março de 2019

Uma Viagem Inesperada


Imperceptíveis sinais de um road movie


Sentindo-se inapta para controlar o seu filho adolescente Andrew (Thomas Wicz) e, ao tomar conhecimento de que o rapaz teria sido advertido pela direção da escola pelo porte de um facão dentro do estabelecimento de ensino, Ana (Cecilia Dopazo) desespera-se e entra em contato com o pai, seu ex-parceiro Pablo (Pablo Rago), residente desde muito tempo no Brasil, mantendo um relacionamento com Lucy (Débora Nascimento). Inquieto com a ocorrência, Pablo vai ao encontro do filho, em Buenos Aires e lhe propõe uma viagem a Bolivar – sua cidade natal – em busca de desfrutarem de um pouco mais de tempo para, melhor, se conhecerem.

Ao tentar explorar o complexo universo dos adolescentes e a falta de comunicação entre pais e filhos como temática de “Uma Viagem Inesperada”, a direção de Juan José Jusid confere ao longa imperceptíveis sinais de um road movie, a despeito da mixórdia composta por Bullying, suicídio, álcool, drogas, armas de fogo e traição, sem que as temáticas tomassem um rumo meritório de um mínimo de credibilidade.


As cenas nas quais Pablo se esmera em se expressar na língua portuguesa assumem caráter prescindível frente às repetitivas chamadas telefônicas da empresa, para a qual trabalha como engenheiro, com sede no Rio de Janeiro. Da mesma forma, as insossas cenas presenciais e dialogadas por telefone com Débora Nascimento, além do caráter efêmero a eles concedidas, configuram somente uma relembrança aos espectadores de que se trata de uma co-produção Brasil-Argentina.

O prêmio de consolação oferecido ao espectador é a promessa de um final no qual as cicatrizes emocionais entre pai e filho sejam realmente eficazes ao tratar assuntos repletos de seriedade e de dor. Lamentavelmente, o  desinteresse pela humanização do drama torna-se evidente, deixando assim, apenas a lembrança deformada, em formato de máxima, de que promessa não é dívida, mas dúvida.

quinta-feira, 21 de março de 2019

A Cinco Passos de Você




‘Abandone toda a esperança…’

Em um hospital, em algum lugar dos EUA, garoto conhece garota – ambos vulneráveis a contraírem fatais infecções respiratórias. Se garoto tosse próximo à garota, ou vice-versa, correm o risco de se contaminarem e serem levados ao óbito.


Uma caricatura seca e desprovida de emoção, do argumento da proposta de obra cinematográfica dirigida por Justin Baldoni – um drama voltado para o público juvenil, baseado no livro homônimo “A Cinco Passos de Você” – como uma máquina de produção de cenas compulsivamente emotivas que recheiam  o filme com história de amor mixadas com superação.

O longa assume o potencial de uma metáfora do amor que pode matar, com velada meta de calejar seu público alvo que ainda galga os primeiros passos da vida, sob o ímpeto de previsível rebeldia jovial passional e sem aportes positivos, ao demonstrar a auto permissividade em infringir as regras de distância necessária entre pacientes, como condição contra contaminação mútua – dando lógica ao título do filme.

O roteiro, que contempla o desrespeito à regra da distância dos protagonistas Stella e Will é tão previsível quanto desnecessária se faz propagar a imagem do amor acima de tudo, tomando-se como ponto de partida as agruras daqueles que, de fato, sofrem do mal da fibrose cística – mesmo que a filosofia sobre a necessidade de se “viver a vida ao máximo” seja estampada como um argumento contra a possibilidade, nada remota, de se contrair uma infecção pulmonar fatal.

É pouco provável que a razão do espectador não o faça enxergar a temática do amor como apenas um pano de fundo para a simples expressão do desejo de tocar e de ser tocado e de conquistar o conforto físico e emocional idealizados – como a tão desejada e quase inatingível “alma-gêmea” ou “metade da laranja” – traduzidos nos seguintes dizeres de uma placa desenhada do próprio punho de Will, pendurada na porta do seu quarto de hospital: “Abandone toda a esperança, vós que entram aqui”.

O Retorno de Ben



Meritocraticamente, Julia Roberts toma o filme para si


Uma família lida com o regresso de um de seus membros – o jovem Ben – afastado do seio familiar em função de sua internação decorrente da dependência química.  Dessa forma, aparentemente, se apresenta o argumento do mais novo longa de Peter Hedges – “O Retorno de Ben”. Contudo, o que poderia respaldar, num primeiro momento, o dito popular “o bom filho a casa torna” – diante do cenário de um reencontro entre mãe (Julia Roberts no papel de Holly Burns) e filho (Lucas Hedges, desempenhando Ben), às vésperas das festas natalinas, sob o testemunho de uma casa onde reside a família de classe média e de um veículo repleto de presentes e ocupado por três crianças espectadoras  – sucumbe ao já não tão surpreendente, mas delicado roteiro, contemplando um viciado em drogas que se afasta de seu programa de tratamento para passar uma data festiva com sua família. Neste caso, as boas vindas ao retorno de Ben não são prestadas de forma unânime.

Para o espectador, resta um bom tempo visando à compreensão dos motivos que possam justificar o hiato entre demonstrações de intensa alegria pela chegada do filho, enteado e irmão con e não consanguíneo, e a inquietação quanto à temporária reintegração de Ben à família no Natal, sem qualquer afã quanto ao real propósito do drama proposto – a  história do filho que não consegue se curar da dependência química, ou da supermãe capaz de se superar na tentativa de resgatar a sua prole do mundo das drogas.

Muito embora o protagonismo que intitula a obra fique a cargo da interpretação do filho de Peter Hedges e de um retorno cuja interpretação dá margem à dubiedade temporal – se a volta voluntária de Ben ao seio da família ou se o resgate de Ben do submundo do narcotráfico por sua mãe. Meritocraticamente, Julia Roberts toma o filme para si e faz de Burns a imagem da mãe politicamente correta – respeita os problemas associados ao vício, não minimiza a dificuldade de recuperação e sabe a necessidade de não trafegar pelo vitimismo.

sexta-feira, 15 de março de 2019

Auto Eus – A Ditadura da Aprovação Social



Radicalmente distraído no sentido fundamental de, apenas, não ser

Segundo alguns estudos de questões gerais e fundamentais relacionadas com a natureza da existência humana, o ser é considerado como o conceito mais universal e mais vazio de todos, resistente a qualquer esforço intelectual por uma definição. Muito menos abstrato do que o olhar da nossa vã filosofia possa lançar sobre a matéria, o espetáculo “Auto Eus – A Ditadura da Aprovação Social” delineia o seu contexto sobre o ser e o expõe através de um pungente autoretrato da atriz e personagem Adriana Perim que, dentro da progressão temporal da história contada, evidencia o sentido do progresso e da evolução do ser transportado para o espaço cênico.

A fenomenologia contida na direção de Raíssa Venâncio traz à luz o processo de abstração compreendida pela obscuridade humana, da mesma forma que a estrutura proposta faz emergir o sentido filosófico do fim que justifica os meios, como uma espiral fragmentada, plural e multifacetada de um corpo que conduz toda a dramaturgia de Perin, Paula Vilela e Venâncio. A direção de movimento e a preparação corporal, sob a égide de Lavínia Bizzotto, introduz à dramatização o sintoma da realidade, poupando o espectador, estrategicamente, da explicitação da doença emocional latente em todos os seres. A aparente doutrina fundamentada em movimentos e palavras é intuída pelo desenho de luz de Renato Machado que, como uma consciência finita, tem a sua importância justificada e inexplicavelmente mergulhada no nada ilusório. O esquecimento da dimensão profunda da personagem retorna sob a direção musical de Daniel Lopes que, dentre outros, presenteia a plateia com Beirut e Radiohead, superando a angústia manifestada pelo mundo sobre o ser.

A autenticidade do espetáculo reconduz o espectador ao encontro consigo mesmo, sem ser subjugado pela ditadura do impessoal, sem alienação de afazeres decorrentes da obrigação social e radicalmente distraído no sentido fundamental de, apenas, não ser.

quinta-feira, 14 de março de 2019

Um Funeral em Família




Capaz de convencer somente os que se satisfazem com um padrão de humor mediano



Anthony (Derek Morgan) – o patriarca da história do filme “Um Funeral em Família” –  é encontrado morto em um quarto de hotel na Geórgia, após uma noite de sexo violento com a melhor amiga de sua esposa. O ocorrido é testemunhado por Madea (Tyler Perry), em companhia de sua tia Bam (Cassi Davis) e Hattie (Patrice Lovely), que se preservam ao não comentar o acontecido. Todos estão no hotel para comemorar o aniversário de casamento de Anthony e Vianne (Jen Harper). Como agravante, AJ (Courtney Burrell) – o filho casado de Anthony – ocupa o quarto ao lado, desfrutando de um encontro com Gia (Aeriél Miranda) – a noiva de seu irmão, Jesse (Rome Flynn).

Mabel "Madea" Simmons é um personagem criado e interpretado por Tyler Perry. O longa é o décimo primeiro e derradeiro episódio da franquia da personagem que é conhecida, nos Estados Unidos da América, por suas caracterizações. O escritor/diretor/intérprete Tyler Perry, ao invés de finalizar a franquia de maneira razoavelmente digna, prefere entregar algo maculado por desinteressante enredo, que  fica em torno das infidelidades conjugais dos personagens mais jovens e sem nenhum carisma - frutos de sua direção desfocada.

A desequilibrada e insossa história que abusa do estereótipo, da vulgaridade e dos diálogos pobres tende a incluir brigas barulhentas, na tentativa de ludibriar o espectador com um mínimo de bom gosto, diante da insensatez de seu controle de qualidade – uma artimanha capaz de convencer somente os que se satisfazem com um padrão de humor mediano, mesmo sem ter acompanhado ou ter ouvido falar de Madea.