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domingo, 31 de março de 2019

Cole Porter - Ele Nunca Disse Que Me Amava



Fascínio, quase de imediato

Cinco mulheres resgatam a vida do autor de mais de oitocentas composições para musicais da Broadway e de Hollywood no espetáculo “Cole Porter - Ele Nunca Disse Que Me Amava”, celebrando o talento e a genialidade de um dos maiores compositores do século XX.

Se por um lado, Porter é descrito por aquelas mulheres como um homem franzino, frágil e mentiroso, por outro, ressaltam o carisma do bon vivant que sempre desfrutou em meio ao luxo, viajou por quase todo o mundo e não dispensava uma festa sequer.

Ao evidenciar o extravagante estilo de vida de Porter, com seu humor peculiar, a direção de Charles Möeller – que também assina a coreografia ácida e, equilibradamente, sensual – define o perfil de um homem esnobe – mas muito generoso com seus amigos, e de um marido homossexual – mas totalmente comprometido com sua esposa, sem comprometer a superficialidade de sua vida. 

O fato de Cole Porter não entrar em cena como personagem incorporado por um ator acaba despertando, no espectador, um fascínio, quase de imediato, pelo o elenco formado por Bel Lima (Kate Porter, a mãe), Alessandra Verney (Bessie Marbury, a agente), Analu Pimenta (Elsa Maxwell, a promoter), Gottsha (Ethel Merman, a atriz), Stella Maria Rodrigues (Linda Porter, a esposa) e Malu Rodrigues (Angélica, a morte) que, intensamente penetram na complexidade das letras das canções, ao mesmo tempo que distinguem os diversificados relacionamentos de Porter com o sexo oposto.

A precisa condução da direção musical de Claudio Botelho sugere o amor, como desejo, algo inexplicavelmente esmagador e misterioso que, dentro do contexto do teatro musical, não abre brechas para males entendidos. Os arranjos musicais são fortalecidos pela destreza da interpretação e redefinição de orquestração de Marcelo Castro, que acomoda a sofisticação mundana com tamanha naturalidade que o espectador consegue materializar Porter, até mesmo a partir de uma voz em off.

Marcelo Marques concebe um figurino com zelo aos seus tempos e à essência de cada uma das mulheres que fizeram parte da vida do protagonista In Memoriam. A capacidade de conjugação da simplicidade de materiais e da sofisticação atingida pela concepção fica por conta do projeto cenográfico de Rogério Falcão, estilizado em meio ao Art Deco mixado à era do Jazz, em perfeita sintonia com a equilibrada sensibilidade musical reportada pelo design de som Marcelo Claret que enriquece, intrinsecamente, a identidade do repertório sonoro. Cenografia, som e imagem, mais uma vez, são aquarelados – em meio à atmosfera deste musical que oscila entre leve e intensamente esfumaçada – pelo polido diálogo travado com o desenho de luz de Paulo Cesar Medeiros que, sem maiores esforços, cintila as interpretações das cantoras/atrizes, sem lançar mão de desnecessária pirotecnia lumínica.

O espetáculo, que conta com 39 canções, pontuam a trajetória de Porter sem qualquer definição cronológica, conseguindo entrelaçar o frescor dos clássicos e de, até mesmo, músicas pouco conhecidas, com exuberância inigualável, a partir do contexto que parece enaltecer somente as canções de Porter – porém, muito mais do que isso. 

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