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quarta-feira, 27 de março de 2019

Dumbo



Produto da mais que perfeita química entre os olhares do diretor Tim Burton e do roteirista Ehren Kruger

Estreado em 23 de outubro de 1941, o quarto longa-metragem de animação – o mais curto dentre os clássicos produzidos pelos estúdios Disney, com sessenta e quatro minutos de duração – se baseia no livro infantil de autoria da escritora norte americana Helen Aberson, ilustrado por Harold Pearl – “Dumbo, o elefante voador”, publicado em 1939.

A história conta a saga de um elefante bebê que “nasce” em um circo e que sofre assédio moral e psicológico por conta de suas orelhas demasiadamente grandes. A partir da ajuda de amigos, Dumbo reverte a sua situação de achincalhado ao ser idolatrado por conta da descoberta do seu dom de voar, usando as suas orelhas como asas.

Desde a primeira releitura de Dumbo pelos estúdios Disney, a partir do livro de Aberson e Pearl, é possível identificar a liberdade de criação frente à substituição de personagens, tais como o pássaro chamado Red – do livro, pelo ratinho Timóteo – da primeira versão para o cinema – ambos parceiros de Dumbo, responsáveis por estimular a sua autoestima e direcioná-lo no caminho do estrelato, e que, ao final de ambas as versões, são contratados pela indústria cinematográfica de Hollywood.

Seguindo a linha da liberdade de manipulação dos personagens e do roteiro do longa de animação de 1941 – assinado por Joe Grant e Dick Huemer, e dirigido por Bem Sharpsteen – a releitura do clássico em live-action, com lançamento previsto para 29 de março de 2019, no Brasil – produto da mais que perfeita química entre os olhares do diretor Tim Burton e do roteirista Ehren Kruger – não poupa a mente do espectador fiel consumidor dos clássicos Disney, de uma imersão em meio à compulsiva tentativa de estabelecimento de links entre as duas produções.

A ingênua fantasia e o tecnicolor anunciado no pôster do longa de animação ganham ares góticos e sombrios no live-action. Cenas e personagens icônicos presentes no longa de 1941, tais como a chegada dos bebês nas jaulas do circo e o camundongo Timóteo, ganham breves referências pontuais, somente perceptíveis aos olhos do espectador mais antenado. Por outro lado, cenas com roupagem extremamente infantil da primeira versão, como nas quais tomam parte a “maria fumaça” chamada Casey Junior – uma referência direta ao famoso maquinista norte-americano Casey Jones – redesenhada para a versão live-action porém, mantendo as características concebidas originalmente.

O drama provocado pelo bullying sofrido pelo bebê elefante, em função de suas enormes orelhas, ganha imediato amparo de uma família composta por um casal de crianças – Milly Farrier (Nico Parker) e Joe Farrier (Finley Hobbins) órfãos de mãe, e por um pai – Holt Farrier  (Collin Farwell) que já fora estrela de circo e que, ao retornar da guerra, recebe a difícil tarefa de cuidar do elefantinho chamado Jumbo, posteriormente apelidado, pejorativamente, Dumbo. O espirro do filhote, responsável pela exposição de suas enormes orelhas diante das demais elefantas, causado pela aspiração de um pena pela sua tromba – pena que, no longa de 1941, fora arrancada do rabo de um dos corvos componente de uma trupe de malandros, pelo seu líder Jim Crow, e que se torna o grande amuleto de Dumbo, responsável por alimentar a sua autoconfiança para voar – tornam-se causa e efeito indissociáveis a cada decolagem do protagonista neste remake. E por falar em corvos, os cinco irmãos de penas pretas são extirpados do live-action, sem dó nem piedade, transferindo para as crianças a tarefa de serem os portadores da “pena mágica” responsável por detonar o dom de voar do elefante bebê. Vale a observação que nessa sua obra, Tim Burton não concede falas a qualquer um dos animais participantes do elenco.

Os créditos pela composição da nova trilha sonora de Dumbo fica por conta de Danny Elfman – composta por uma nova linguagem instrumental contemporâneo que inclui a trilha Casey Junior – muito fiel à original – e a melancólica releitura de "Baby Mine" pela cantora Aurora – a canção de ninar original de autoria de Frank Churchill e letra de Ned Washington gravada, originalmente, por Betty Noyes, dentre outras.

Levando-se em conta a curta duração do longa de animação, a considerável redução das cenas musicalizadas e seus timings na versão live-action, Kruger insere uma continuidade ao roteiro de Grant e Huemer, a partir do que seria o fim do longa original, preservando preciosidades não contempladas na – o que poderia ser chamada de – primeira parte do filme. A alucinação de Dumbo e Timóteo embalada pela trilha “A Parada dos Elefantes Cor de Rosa” – quando do pileque tomado, acidentalmente, pela dupla – é transportada para o picadeiro em DreamLand, quando da performance de coristas moldando bolhas de sabão a partir de enormes aros circulares. Outro resgate da versão de 1941 demanda um breve retorno à cena dos corvos, quando Dumbo lhes foi apresentado pelo camundongo Timóteo como “a nova maravilha do universo – o único elefante voador”, precedendo a canção "Eu Vi um Elefante Voar”, com o pronunciamento de alguns de seus versos pelo apresentador circense ao anunciar a entrada da estrela do espetáculo no picadeiro da versão de Tim Burton. Com extremo respeito aos desenhos icônicos do longa de animação – em especial, os que mostram Timóteo voando com Dumbo na aba de seu chapéu – Tim Burton promove tomadas nas quais a artista aérea Colette, sua parceira de cena, sobrevoa o picadeiro montada nas costas de Dumbo, trajando figurino que remete ao usado por Timóteo, em ambas as versões.

Em Dumbo 2019, juntam-se à família Farrier: Dani de Vito (no papel de Max Medici, o dono do circo), Eva Green (no papel de Colette Marchant, a artista aérea), Michael Keaton (V.A. Vandemere, o produtor que enxerga Dumbo como a galinha dos ovos de ouro) e Alan Arkin (que incorpora J. Griffin Remington – o banqueiro escolhido por Vandemere para patrocinar o investimento em Dumbo e torná-lo uma estrela), dentre outros.

Longe de atribuir total ineditismo a essa continuidade ao roteiro original, Kruger metamorfoseia a ingenuidade do conto de Aberson para uma realidade atual. Consequentemente, seu roteiro foi recheado com ganância pelo enriquecimento a qualquer custo, com o avanço da globalização e da modernização dos parques temáticos como forma de fomento ao turismo e com uma boa dose de conscientização sobre a defesa e os direitos da fauna e do combate à utilização de animais em circos.

Sem sombra de dúvida, a despeito de qualquer adaptação sofrida por ambas as versões da história do filhote de elefante que voa, a emotiva relação entre mãe e filho é a principal engrenagem de “Dumbo” – para espectadores de todas as idades.

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