Counter

segunda-feira, 22 de abril de 2019

Aérea



Humor perverso, macabro e avassalador

A realidade alternativa armazenada no espetáculo “Aérea” apresenta Patricya Travassos, interpretando uma comissária de bordo capaz de cometer as maiores atrocidades para conquistar o objeto de seu amor e para garanti-lo ao seu lado. Travassos humaniza, de maneira angustiante, o rumo que aquela mulher toma para galgar o status de permanecer´feliz para sempre’, por ela, tão almejado.

As linhas narrativas definidas para o texto assinado pela atriz, concebidas de tal forma a conferir um viés cômico ao espetáculo, adotam como inspiração o horror da angústia patológica da mulher que ama demais. Emparelhada com a vocação congênita da narrativa, a perturbadora direção de Marcus Alvisi manipula a fé no status que os espectadores têm de si mesmos e os transforma em involuntários passageiros de um voo comercial no qual, a comissária de bordo, mesmo oferecendo esforço zero em demonstrar o quanto os despreza, sequestra a atenção de todos para tornar pública a dimensão mórbida da sua capacidade de amar. A monologuista consegue a proeza de conceder à ampla sala de espetáculos, o caráter pitoresco, ao mesmo tempo, claustrofóbico, da cabine de uma aeronave, materializada pelo minimalismo cenográfico e pelo figurino “pão, pão, queijo, queijo” concebidos, sem mais delongas, por Nello Marrese, e pelo mais que natural visagismo de Gahbie Figueira, deixando, por conta da capacidade narrativa e dramatúrgica de Travassos, a chance de um retorno positivo por parte da plateia, sem camuflagens. O terror inserido, subliminarmente, em “Aérea”, sugere aos passageiros espectadores, durante todo o trajeto da aeronave, um comportamento não usual por parte da protagonista, acompanhado, na medida do possível, pelo não menos objetivo desenho de luz de Carlos Lafert, que se arrisca a uns efeitos pirotécnicos na abertura e no fechamento do espetáculo. O hipnótico confinamento sofrido pela plateia conta com a temática paisagem sonotécnica de Marcus Alvisi e Tiago Fonseca, que parece ter a função de manipular os monstros e as paranoias que assombramos pseudo passageiros, enquanto que, de maneira perturbadora, a mulher que ama demais descreve a sua vida com o que pode ser chamado de humor perverso, macabro e avassalador.”

Nenhum comentário:

Postar um comentário