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terça-feira, 23 de abril de 2019

La Cama



Uma obra peculiar a partir da qual, o espectador presencia uma despedida repleta de dor

Imerso na separação de um término de casamento de décadas, onde o afeto ainda persiste e todo o restante chegou ao fim, o casal Mabel e Jorge vive o seu último dia na casa em que ocupa, com provável paixão, erotismo, medo e emoção e, por razões obscuras e sem muitas explicações. Nesse contexto, o ousado roteiro da diretora argentina Mónica Lairana intitulada “La Cama” é uma obra peculiar a partir da qual, o espectador presencia uma despedida repleta de dor, mas cheia de beleza.

Cenas que dispensam diálogos ou reflexões em viva voz, explicitam a desmontagem de peças de mobiliário e a consequente desconstrução de um leiaute, a desconstrução de porta-retratos, o desnudar de paredes de seus quadros, a partilha de bens acumulados, uma intimidade compartilhada pela última vez e o pesar por algo que morre, mesmo permanecendo pulsante. Janelas e vistas que não mais serão capturadas pelos olhares do casal que, silenciosamente, compartilham sentimentos indescritíveis com espectadores passíveis de assumirem, a qualquer momento, os papéis de Mabel e de Jorge.


A capacidade de Lairana em desnudar a alma dos protagonistas, através das interpretações de Alejo Mango e Sandra Sandrini, faz do longa uma obra de arte contemporânea, crua e perturbadora, por se tratar de uma história de amor prologada por seu epílogo – a partir da cena de dois corpos que se entrelaçam pela última vez, em plena consciência de seu termo.

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