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quarta-feira, 17 de abril de 2019

O Anjo




Ortega leva o espectador à reflexão sobre o conteúdo hipnótico, brutal e amoral de sua obra

Desde sua prisão em 1972, com vinte anos de idade, Carlos Eduardo Robledo Puch, apelidado ‘O Anjo da Morte’ passa quarenta e seis  anos encarcerado, por ter sido julgado culpado por onze assassinatos, roubos, agressões sexuais e diversos outros crimes.


Baseando-se nos relatos do serial killer, o cineasta Luis Ortega minimiza os aspectos mais hard da ficha corrida do psicopata – como os estupros – e destaca a sua sexualidade, a sua família e o início de sua psicopatologia, no seu novo longa “O Anjo” – produzido por Pedro Almodóvar – que inicia a história de Puch (Lorenzo Ferro) como assaltante de uma casa vizinha à sua, em Buenos Aires, em 1971. Os pais do protagonista, vivendo de forma  trivial e respeitável, não são alvo de orgulho, sequer parâmetro para o jovem Carlitos que, a partir de sua amizade com o colega de escola – Ramón (Chino Darin), encontra a família de seus sonhos – chefiada pelo pai (Daniel Fanego) de Ramón – um ex-presidiário viciado em heroína – e por sua sensual esposa (Mercedes Moran). Juntos, Puch, Ramón e seus pais, formam uma quadrilha.

A trilha sonora contribui para que a irônica dramatização tenha um efeito impactante junto ao espectador – uma vez que o perfil de Carlitos não reflete a imagem de um psicopata usual dos filmes, tampouco parece ser compelido à prática de homicídio. Suas práticas criminosas não contemplam planejamentos fantasiosos, torturas, sequer rituais, mas apenas reações circunstanciais, de forma tal que o tornam um indivíduo temeroso.

Ortega reescreve a história de Puch buscando o equilíbrio entre os horrores praticados por Puch e o fascínio que o protagonista lhe provoca, transformando-o em um jovem sexy, contemplando uma beleza andrógina e contrariando a opinião da sociedade sob a ótica do que, por ela, é considerado ‘normal’. E contrapartida, Ortega leva o espectador à reflexão sobre o conteúdo hipnótico, brutal e amoral de sua obra – se contaminada por resquícios de decência ou pela anulação de fragmentos de compunção, a partir da hipótese dos indivíduos não optarem ser apenas bons ou maus o tempo todo, mas podem se tornar aquilo que escolhem ser, para sempre.

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