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quinta-feira, 11 de abril de 2019

O Som e a Sílaba


O Som e a Sílaba não se intimida, tampouco confunde o espectador com a sua excentricidade, ao discorrer sobre a síndrome de Asperger ao som de clássicos da música erudita

A angústia frente ao incerto, ao desconhecido e ao medo incutido ao longo da vida – que induzem à identificação da sociedade segundo padrões qualitativos, qualificativos, quantitativos e referenciais – muitas vezes, é compensada pelo domínio de alguma habilidade em potencial ou pelo reconhecimento por notório saber, capazes de reduzir o pavor de ser apontado por ignorância ou por incapacidade. Como num ato autopreservação da racionalidade e do instinto, surge o poder de identificação do inimigo que, nem sempre, se faz presente.

Longe de vislumbrar assumir o status de um diagnóstico psicossocial, mas as entrelinhas do conteúdo do  espetáculo “O Som e a Sílaba”, o prólogo desta resenha visa transmitir os valores incrustados no texto de Miguel Falabella aos espectadores – como a magnitude contida no ato de se entregar ao próximo, como um agente capaz de lhe conceder a faculdade se compreender melhor. Compreensão essa responsável pelo equilíbrio na condução dos momentos difíceis e pelo respeito supremo ao ‘funcionamento’ de um ser, mesmo que acometido pela Síndrome de Asperger, tal como Sarah Leighton – uma jovem desajeitada no que se refere à integração social e sedenta pelo conhecimento de tudo que se relaciona com música – personagem incorporada, de voz, corpo e alma, pela atriz, cantora, compositora e versionista brasileira – Alessandra Maestrini.

Ao conceber e dar a vida à professora de canto Leonor Delis, materializada no palco, pela soprano lírico-spinto brasileira – Mirna Rubim, a direção de Falabella celebra a união entre música e humanidade, alterando, em definitivo, a trajetória das duas mulheres. Uma trama se passa num ambiente onde cobranças e convenções sociais conquistam a empatia do espectador, pelo simples fato da substância tóxica do preconceito ter passado pelo processo de destilação. Um cenário acolhedor, habilmente concebido por Zezinho Santos e Turíbio Santos, refletindo o habitat de Leonor – através de seu piano de cauda, acessórios musicais, mobiliário e objetos pessoais – permissiva e generosamente, acolhe a invasão de Sarah, através de um pórtico limítrofe entre as duas dimensões às quais pertencem as protagonistas – a porta de entrada da casa da professora. Em respeito ao conceito que define a luz como responsável pela modelação do espaço arquitetônico, o desenho luminotécnico cênico assinado por Wagner Freire insere – em meio aos focos que traduzem tragédia e comédia em determinação, solidariedade e conquista – adereços cênicos que incorporam luminosidade própria, cujos significados ficam por conta do aprofundamento da leitura de cada espectador na mente criativa de Falabella. O contraste entre a consagrada postura, requintadamente formal e profissional de Leonor, que sugere o seu cotidiano comportamental, e a gradativa evolução dos modos autênticos, despojados e simplórios de Sarah ao longo da história, é devido, não somente à direção de movimento – facilmente imputada como parte integrante da zelosa e minuciosa direção geral – mas também à evolução de estilos do figurino concebido pela dupla Ligia Rocha e Marco Pacheco, em estreita composição com o adequado visagismo de Wilson Eliodorio. Diversos são os momentos em que a realidade e a ficção se fundem presenteando o espectador com um espetáculo dentro de um outro espetáculo, promovendo um impacto da idealização do desenho de som de Mario Jorge Andrade, que define a jornada das protagonistas rumo ao autoconhecimento de suas essências.

Se é sabido que “de perto, ninguém é normal”, absurdos e incongruências fazem parte das dificuldades para se chegar à definição do que seja essa tal normalidade. Em torno desse pensamento, “O Som e a Sílaba” não se intimida, tampouco confunde o espectador com a sua excentricidade, ao discorrer sobre a síndrome de Asperger ao som de clássicos da música erudita, tais como: Vissi D’Arte” – de Giacomo Puccini; “Je Veux Vivre” – de Charles Gounod; “Oh Mio Babbino Caro” – de “Gianni Schicchi” e “Viens, Mallika, Les Lianes Na Fleurs” – de Leo Delibes; dentre outras, cantadas ao vivo pelas estrelas que despontam na ficção e na realidade.


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