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domingo, 21 de abril de 2019

Tebas Land


Investe na percepção do espectador, com ênfase na violência doméstica

“Tebas Land” – um espetáculo que atinge o espectador, em cheio, a partir de duas vertentes definidas pela empatia e pela exploração emocional, arremessadas intensamente, pelo drama indexado à fabulosa manipulação textual do dramaturgo franco-uruguaio Sergio Blanco.

A repercussão de um parricídio se torna motivo de pesquisa para O – um circunspecto e honrado dramaturgo obstinado em desenvolver um roteiro teatral, a partir dos motivos pelos quais o jovem Martín teria sido levado a matar seu pai com vinte e um golpes de faca, estabelecendo um paralelo pós moderno da tragédia grega Édipo Rei, inspirado no condenado à privação de liberdade, que seria submetido a entrevistas periódicas nas dependências da penitenciária onde cumpre sua pena.

Abstraindo-se do fato que enquadra o apenado como um indivíduo dotado de potencial alta periculosidade, a direção de Victor Garcia Peralta investe na percepção do espectador, com ênfase na violência doméstica praticada contra esposa e filho, conduzindo a plateia numa viagem, na companhia de três personagens desempenhados, com sedutora excelência interpretativa de dois atores – Otto Jr. e Robson Torinni. “Tebas Land” é uma história de ficção sobre o processo criativo de uma peça teatral baseada em fatos reais, contemplando dois universos representados por uma quadra de basquete inserida numa instalação prisional – habitada pelo apenado Martín e outra, laborativa – habitada pelo dramaturgo O, em equipe com o ator selecionado para interpretar Martín. O cenário, assinado por José Baltazar, é capacitado para ser identificado, pelo espectador, por suas qualidades plásticas e sonoras. O simbolismo inserido, quase que egoisticamente, por Peralta, desperta a curiosidade e a inteligibilidade do espectador, seja através dos jogos de palavras e de frases concebidos por Blanco ou pelos efeitos luminotécnicos transmitidos pela direção ao consagrado desenhista de luz cênica – Maneco Quinderé, responsável pela percepção dos espaços e dos personagens, que transcende a tridimensionalidade à qual o olhar do espectador já se encontra viciado. Complementando a paisagem visual cênica, Marcello H. entra com a sua trilha sonora, que se comporta como um meio onde palavras e imagens se diluem e se fundem em beleza poética.

A Tebas de Blanco, sob a visão de Peralta, contempla um encontro regado de sentimentos - dentre os quais, curiosidade, ceticismo e cerimônia recrudescem no afeto entre dois homens - incapaz de transpor os limites da admiração, do reconhecimento e do rogo por um simples gesto de zelo. Deixa o espectador imerso na reflexão sobre o quanto de pureza é capaz de existir, tanto na bondade quanto na maldade e sobre o quanto os indivíduos podem ser dominantemente bons ou maus.

“Tebas Land” não se encerra ao apagar das luzes do palco, sequer após o cessar dos aplausos da plateia, que carrega consigo o sussurrar do conteúdo das entrelinhas, subentendidas ao longo do espetáculo, que sugerem as distinções marcantes de condutas, por vezes, cuidadosas e dedicadas, por outras, selváticas e brutais, destituindo a máxima que define seres, farinha do mesmo saco e, evidenciando, a evolução moral dos indivíduos.

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