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segunda-feira, 6 de maio de 2019

A Não Ser Que Seja



Derruba a moralidade do individualismo e se firma, ao se desgarrar do sistema que pinta o mundo do jeito que lhe é conveniente.

Sem qualquer explicação lógica do encontro ou indicativo sobre a origem dos três personagens contemplados pelo texto de Moisés Salazar, o espetáculo “A Não Ser Que Seja” desconstrói doutrinas sociais e políticas, poupando a plateia de ser insuflada por pensamentos ou ideologias polarizadoras.

Ao intercambiar informação e conhecimento como mecanismo catalisador da atenção do público, adotado pela sua direção, Oscar Saraiva elege Ludmila Brandão, Thor Vaz e Moisés Salazar como fiéis depositários de um conteúdo intelectual, contemplando humor inteligente, de um espetáculo repleto de visíveis significados em meio às suas conexões fortuitas.

Como um turbilhão de ideias, atitudes e pensamentos, a concepção cenográfica assinada por Laura Fragoso - fundamentada em projeções e jogos de espelhos - promove intencional ilusionismo espacial, ao mesmo tempo que define um horizonte pontuado por reflexões que, em algum momento, são responsáveis por seduzir o espectador a assistir ao espetáculo, ou linearizado pelo “nada” - que servirá de esteio para experiências de vida vindouras após o término da apresentação.

A atmosfera sombria, que vela as atrocidades dos massacres decorrentes das batalhas travadas no cotidiano, envolve a plateia, promovendo um diálogo marcado pelo dinamismo capaz de propiciar, ao espectador, uma experiência digerível, a despeito da acidez presente na temática discorrida pelos protagonistas. Adicionalmente, a trilha sonora de Anderson Primo atua como facilitador do processo de assimilação do espetáculo por parte do público e empurra, goela abaixo, todas as incógnitas inseridas na equação - composta por infinitas variáveis sócio econômicas - que não fecha.

A casualidade expressa pela aparente falta de discernimento dos personagens é justificada pela presença da sátira infinita e da crônica, onipresente no figurino de Renato Gremião, capaz de provocar inquietação, nervosismo e confusão ideológica pela predominância da cor escarlate. A cara da realidade fica por conta do visagismo de Carol Catalão, captador de conceitos puros, mas desprovido de conteúdo concreto.

Aparentemente, o espetáculo não gera uma definição consensual entre o espectador e os personagens, mas o desenho de luz de Elton Pinheiro faz toda a diferença em associação com a composição cenográfica – tradicional e politicamente disponibilizada, dando a entender a sua consciência de manutenção da ordem de uma história falsamente desordenada.


O mix de pequenos contos de “A Não Ser Que Seja” derruba a moralidade do individualismo e se firma, ao se desgarrar do sistema que pinta o mundo do jeito que lhe é conveniente, sem exame crítico, sem qualquer rigor sobre os pensamentos, mas ponderando, desde sempre, os olhares mais apurados de quem pensa diferente.

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