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terça-feira, 14 de maio de 2019

O Censor



Progressiva sobreposição de realidade

Um conto que exala sensualidade se enquadra, significativamente, em meio a uma atualidade política, bizarramente, marcada pelo retrocesso.

Na atual temporada, o drama, fracionado a partir de duas coordenadas, se manifesta, precipuamente, num lugar incomum – numa das sala de projeção do Grupo Estação, em Botafogo, Rio de Janeiro – onde as provocações concebidas pelo dramaturgo e diretor escocês – Anthony Neilson, evidenciam a sua capacidade valer-se do sexo e da violência, como instrumentos através dos quais, mesmo que um tanto quanto vulgar, consegue chocar e confrontar o espectador, de modo inquietante.

Visceralmente enigmático, os fragmentos do quebra-cabeça proposto pela criação geral – compartilhada por Alexandre Varella, Cavi Borges e Patrícia Niedermeier – são montados no escritório localizado em um porão, no qual um censor conduz o seu ofício passando a tesoura em filmes pornôs.

Ao receber a visita de uma desconcertante diretora de cinema que se sente vitimada por ter um de seus filmes barrados pela caneta do profissional, a cineasta tenta convencê-lo de que o seu longa – que contempla nada além de atos sexuais explícitos – de fato, trata-se de uma história sutil de aprofundamento de um relacionamento humano. O lascivo desempenhado pelos personagens, convincentemente incorporados por Varella, Niedermeier e Emilze Junqueira, surpreendem ao sensualizarem as cenas sem qualquer atitude ou exposição corporal explícita, estimulando, consequentemente, a imaginação do espectador.

Se por um lado, a despretensão da sala de espetáculos possa sugerir, para os olhares externos, um árduo desafio para definir qualidade da produção, por outro, para Borges, trata-se de uma questão de oportunidade de pôr à prova, o seu jogo de cintura associado a uma direção criativa. Dentre os recursos tecnológicos cênicos, se destaca a iluminação de Luiz Paulo Nenen, como auxiliar no processo de sedução desempenhado, sobrepondo-se aos medos e fobias expostos pelos protagonistas, tornando forte e crível os seus enfrentamentos diante das questões sexuais abordadas. Os enlouquecedores vídeos de Cavi, Christian Caselli, Terêncio Porto e Hsu Chien estimulam opiniões sobre o papel do sexo e da intimidade física, beirando o primitivo a ponto de levar à quebra de tabus.


A progressiva sobreposição de realidade e de fantasia no espetáculo “O Censor” comunica-se, furtivamente, com o contraditório, ao se auto-intitular uma peça-filme, apenas por contemplar um telão onde são projetadas cenas desconexas e a apresentação acontecer em uma sala de cinema. A limitação do foco sob tal perspectiva, conduz a compreensão a uma estranha Mary Poppins, capaz de eliminar o problema sem permitir que seus agraciados avancem além dos limites permitidos à aproximação de terceiros. Portanto, a tática aparentemente usada por cineastas, com vistas ao ar de intelectualidade para as suas superfícies profanas, somente vela o olhar para algo que possa existir além da imagem – tal e qual clama a cineasta ao seu censor. 

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