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quarta-feira, 15 de maio de 2019

Kardec



Uma obra de arte sombria e misteriosa que eleva a cinebiografia ao patamar qualitativo das obras internacionais

Ao se insubordinar contra a fiscalização das instituições de ensino pela igreja católica, a imposição sacerdotal para que os professores recitassem o catecismo e zelassem pela moral cristã nas salas de aula – em total desrespeito à laicidade do sistema de ensino e do Estado – o professor Hippolyte Léon Denizard Rivail – influente educador, autor e tradutor francês – lança mão do seu direito à aposentadoria de seu ofício acadêmico e, sob o pseudônimo de Allan Kardec, se notabiliza como codificador e divulgador do Espiritismo, também denominado de Doutrina Espírita.

Longe de qualquer subestimação intencional quanto ao talento de Leonardo Medeiros, frente ao desafio de se transformar a cada papel, ou de qualquer conotação mediúnica, o ator incorpora Rivail, humana e confortavelmente, fazendo com que o longa “Kardec” cumpra a sua meta de propagar a história baseada no livro de autoria do jornalista, escritor, roteirista e diretor brasileiro Marcel Souto Maior. Cabe a ressalva que o reconhecimento do predicado quanto à excelência interpretativa dos personagens deve ser estendida à totalidade do elenco que, juntamente com a direção de arte, fotografia, efeitos visuais, trilha sonora, figurino, penteado e maquiagem, recriam uma Paris da segunda metade do século XIX – uma obra de arte sombria e misteriosa que eleva a cinebiografia ao patamar qualitativo das obras internacionais, fruto da mais que perfeita direção do roteirista e diretor brasileiro, Wagner de Assis.

Ao facultar ao espectador o entendimento do gênesis da doutrina que explica a vida após a morte, segundo o Kardecismo, Assis expõe as engrenagens do espiritismo, numa época em que adultos e crianças ainda não são qualificados como moradores de rua, mas reconhecidos como adultos e crianças que mendigam por um prato de sopa rala e pão seco, tanto e quando, piedosamente ofertados pela burguesia francesa. O catolicismo, como conforto e consolo social para os menos abastados e modelo difundido como moralmente correto – apregoador do “... tudo o que o homem semear, isso também ceifará” – entra em colisão com a possibilidade de término da hegemonia daquela religião na Europa, com a chegada do espiritismo – defensor da aceitação das condições às quais os indivíduos estão sujeitos, como penalidade decorrente a atos cometidos em vidas anteriores.

Mesmo visivelmente racional, o longa não consegue consagrar a evolução espírita fora de uma obra de ficção, onde mesas flutuam e giram no ar, a despeito do credo do espectador, passível de ser contestado por qualquer pessoa com um mínimo de senso crítico – da mesma forma que acontece com a própria parapsicologia, com a ufologia e, até mesmo, com a teologia



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