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quinta-feira, 20 de junho de 2019

Iroko - Meu Universo - Sem qualquer compromisso de conferir ao público um conto que se fecha


Sem qualquer compromisso de conferir ao público um conto que se fecha, muito menos um final feliz


O tempo que segue, à galope, muitas vezes trôpego, mas sempre concedendo uma multiplicidade de tons à vida é materializado, aos olhos do espectador, na dramaturgia assinada por Jeff Fagundes, “Iroko - Meu Universo”. Um dos Orixás mais antigos, Iroko representa o tempo e rege a Ancestralidade. Considerado a primeira árvore plantada na terra, por onde desceram todos os Orixás, representa o líder de todos os espíritos das árvores sagradas.

Não se permitindo limitar-se ao processo conceptivo do espetáculo, Fagundes assume o elenco do monólogo e se torna solo fértil ao enraizamento da percepção do espectador, que sorve, sem pudor e com muito prazer, a história de um menino que desbrava o universo humano e descobre a sua real identidade. A qualidade rastreada pela direção corporal de Palu Felipe dá à luz um balé indolente e arrastado, moroso e pesado, em total sintonia com o fecundo adubo que, sedento por sol, evidencia as ervas daninhas que crescem ao seu redor. A direção musical fica por conta de Pedro Moragas que, apesar de oxidar o sentido da audição do espectador, involuntariamente o lança ao encontro do preciosismo do texto, envolvendo a plateia com a sua aura incensada com fragrância de folhas mortas. O simbolismo sacro é fortemente definido pelo projeto cenográfico e pelo figurino de Bidi Bujnowski que, de forma minimalista, natural e reciclável, recobrem o habitat de Iroko e o corpo do protagonista, em total sintonia com a dimensão de tempo e espaço definida pelo desenho de luz de Jorge Oliveira, que domina o espaço cênico e mantém o espectador atento à interpretação ontológica de Fagundes.


Sem qualquer compromisso de conferir ao público um conto que se fecha, muito menos um final feliz, a história se encerra com a corruptela de “era uma vez”, apresentando a vez de um jovem em busca do caminho que possa conduzi-lo à liberdade de viver, apesar do infindável confronto com os limites que o mantém no eterno combate à discriminação racial.

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