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quarta-feira, 31 de julho de 2019

No Coração do Mundo



Uma singular, despretensiosa, porém, zelosa produção cinematográfica, digna de se tornar uma promissora sequência


Uma canção de Lara Fabian – ‘Love By Grace’ – marca o início do longa “No Coração do Mundo” porém, interrompida por estampidos de tiros, numa comunidade do município mineiro de Contagem – região metropolitana de Belo Horizonte - MG. Um roteiro estruturado pela vida que passa na periferia mineira, amplamente abalizado por Gabriel e Maurilio Martins, que também assinam a direção entrelaçada que definem um quadro, no qual a humanidade, mesmo em ambientes hostis, criam laços e formam sociedades paralelas do morro e do asfalto.
 
A ilustrada história de cada personagem faz com que o longa flua de modo multifário, permitindo o espectador entranhar-se nos anseios dos protagonistas e nivelar a balança com dosagem equilibrada entre o bem e o mal – muito embora, isento de qualquer parâmetro capaz de estabelecer e distinguir diferenciais entre um e outro.
 
Um jovem que não se esforça em se meandrar entre doçura, violência e desespero – vive aplicando golpes e cometendo pequenos delitos, até o dia em que uma velha conhecida lhe propõe fazer parte de um plano que irá mudar a vida de ambos. Mas para viabilizar a trama, o delinquente deve convencer sua namorada – uma cobradora de ônibus que sonha vencer na vida, de forma lícita – a participar da ação, cujo retorno equivale a tirar a sorte grande.
 
As agruras dos protagonistas são embaladas por uma seleta trilha sonora, envoltas por um minucioso desenho de som, impossível de passar por despercebido, assinado por Tiago Bello e Marcos Lopes, e imortalizadas pela fotografia de Leonardo Feliciano – uma singular, despretensiosa, porém, zelosa produção cinematográfica, digna de se tornar uma promissora sequência.


terça-feira, 30 de julho de 2019

Renato e seus Blue Caps | uma noite de ouro na cidade do Rio de Janeiro


Um misto de lágrimas e euforia por parte de todos os presentes



Formada no início dos anos 60, a banda de rock Renato e seus Blue Caps – uma das mais longevas, ainda em atividade – se apresenta de forma explosiva no Teatro Clara Nunes, no Rio de Janeiro, na sexta-feira, dia 26 de julho de 2019. A atual composição da banda conta com os veteranos Renato Barros (guitarra, violão e vocal) e Cid Chaves (vocal), complementada por Darcy Velasco (teclado), Bruno Sanson (contra-baixo) e Gelson Moraes (bateria).
No palco, o quinteto resgata canções que fizeram parte da vida de gerações de fãs que ainda guardam, em sua memória, momentos que foram embalados ao som de sucessos da Jovem Guarda como “Garota Malvada”, “Menina Linda”(I Should Have Known Better) - do álbum Viva A Juventude!, de 1964; e “Feche os olhos”(All my loving), de 1965 – as duas últimas, versões de músicas dos Beatles. O “Momento Cara de Pau” – conforme intitulado pelo próprio Renato Barros, apresenta canções com letras de sua autoria como: “Devolva-me” e “Eu Não Sabia Que Você Existia”. A banda também presta sua homenagem a Tom Jobim com “Corcovado” e a Vinicius de Moraes, com “Eu Sei Que Vou Te Amar”.
Na platéia, espectadores – com idade média não inferior aos sessenta anos emparelhados com a jornada percorrida pela banda, até os dias de hoje – ignoram a configuração romana retangular do Teatro Clara Nunes e fazem da sala de espetáculos uma pista de dança, atendendo ao comando de Renato Barros para que participassem do baile, a começar por “Festa de Arromba”, seguida por “Pode Vir Quente Que Eu Estou Fervendo”, “O Bom” e “O Pica-Pau”. O cover de Roy Orbison com “Pretty Woman” exerce o mesmo efeito que “Era Um Garoto Que Como Eu Amava Os Beatles e Os Rolling Stones” – o suficiente para provocar um misto de lágrimas e euforia por parte de todos os presentes.
O próximo show marcado para o dia 23 de novembro de 2019, no Teatro Village Mall – Barra da Tijuca, promove uma nova oportunidade para que os fãs de Renato e seus Blue Caps possam reviver mais uma noite de ouro na cidade do Rio de Janeiro.

quarta-feira, 24 de julho de 2019

Ted Bundy: A Irresistível Face do Mal | a ponta de um iceberg cuja porção submersa não é possível dimensionar em apenas duas horas de duração do longa



O espectador não conhecedor da história de Bundy, se depara com um drama cauteloso que não se explica e que não apresenta os motivos, mas somente a pseudo natureza do protagonista pelo olhar de uma mulher que o conheceu intimamente



Sob o pseudônimo de Elizabeth Kendall, Elizabeth Kloepfer – a mulher que foi, por algum tempo, a principal figura no estranho universo do primeiro  dentre os mais temíveis assassinos da história dos Estados Unidos da América durante os anos 1970, responsável pela qualificação dos assassinatos em série – é autora do livro "O Príncipe Fantasma: Minha Vida com Ted Bundy", adaptado para as telas do cinema sob o título “Ted Bundy: A Irresistível Face do Mal”. O longa exercita um olhar reflexivo sobre a sociedade que transforma casos policiais em entretenimento convencionais, muitas vezes televisionados em programas sensacionalistas em diversos horários e para toda a faixa etária, sem qualquer filtragem.

Liz Kendall é vivida pela atriz, modelo e escritora britânica, radicada nos Estados Unidos, Lily Collins – a namorada de Theodore Robert Bundy, por sua vez, incorporado pelo ator, cantor, dublador e produtor executivo norte-americano, Zac Efron – uma genial seleção do diretor Joe Belinger para o papel do charmoso, sedutor, perverso e sádico psicopata acusado pela morte e pelo estupro de trinta e seis mulheres, e de suspeita de outros tantos crimes de homicídios e de assédio sexual. A capacidade de comunicação do protagonista e a sua trajetória acadêmica como brilhante aluno de direito com forte indícios de conquista de uma extraordinária carreira profissional podem ser consideradas motivos facilitadores para a atração de mulheres por parte de Ted Bundy, pondo em cheque a credibilidade incondicional de um indivíduo desconhecido, a partir de um rosto bonito.

Ao assistir “Ted Bundy: A Irresistível Face do Mal”, o espectador não conhecedor da história de Bundy, se depara com um drama cauteloso que não se explica e que não apresenta os motivos, mas somente a pseudo natureza do protagonista pelo olhar de uma mulher que o conheceu intimamente – apenas a ponta de um iceberg cuja porção submersa não é possível dimensionar em apenas duas horas de duração do longa.


A diversidade comportamental do personagem título sugere um desesperado grito de alerta, que não atinge a sua parceira amorosa, durante um longo período – fato esse que não se conecta ao seu livro, pois disfarça a perspectiva do conceito sobre patologia, dando-lhe um tom bizarro de culto e de fascinação pela personalidade pública de Bundy, sem qualquer impedimento para que se torne o galã de sua própria história.

segunda-feira, 22 de julho de 2019

O Vendedor de Sonhos | de autoria do doutor em psicanálise, professor, escritor brasileiro e médico psiquiatra, Augusto Jorge Cury



Despreza a teoria Orwelliana de que alguns são mais iguais que outros


Abordando a psicologia emocional dos personagens contemporâneos que parecem viver num insano emaranhado de sentimentos, a versão teatral do best-seller homônimo “O Vendedor de Sonhos” – de autoria do doutor em psicanálise, professor, escritor brasileiro e médico psiquiatra, Augusto Jorge Cury – desenha a sua primeira cena a partir da ameaça de um homem se jogar do alto de um edifício, ao mesmo tempo que seu livre arbítrio em pôr um fim à sua vida, naquele momento e daquela forma, é questionado por um morador de rua. Traição, dívidas financeiras e drogas compõem as engrenagens dessa adaptação, também assinada por Cury, em parceria com Erikah Barbim & Cristiane Natale – sob um olhar não tão veemente quanto aquele projetado na versão original, mas com ênfase no maltrapilho que, pela direção beirando à programação neurolinguística de Cristiane Natale, insere a obra num misterioso território tomado por uma atmosfera alienista.

A identidade de cada um dos personagens é potencializada pela dramaticidade do desenho de luz de Nara Zocher que desvencilha a encenação do viés da autoajuda contida, subliminarmente, no texto, muito em função da construção do protagonista. Não é de se desprezar a dose de crítica social presente na narrativa, ricamente ilustrada pela concepção do conjunto figurino e adereços assinado por Valentina Oliveira, em total sintonia com o cenário minimalista, com toques surrealistas, a ponto de convencer os mais influenciáveis a pensar sobre seus próprios problemas ou aprimorar as suas habilidades, mesmo que de forma inconsciente. Enquanto isso, a liberdade poética toma conta da trilha sonora de Maurício Colatoni, assumindo o papel de um indicativo, junto à plateia, de que é chegada a hora de expressarem seus sentimentos, a despeito do genuíno potencial de emotividade das cenas. A essência dos personagens incorporados por Luiz Amorim, Mateus Carrieri, Marcos Veríssimo, Lino Colatoni, Anisha Zevallos, Adriano Merlini, Guilherme Carrasco e Fernanda Mariano é transmitida, fidedignamente, ao espectador, permitindo-lhe o auto exame dos interstícios de sua consciência, segundo a legitimidade de um ser humano e não como um indivíduo dotado de poderes sobrenaturais.

Ao induzir a plateia a crer no conceito de que somos todos iguais perante a um Ser Supremo, o texto de Cury despreza a teoria Orwelliana de que alguns são mais iguais que outros, fazendo com que “O Vendedor de Sonhos” coloque o espectador dentro de sua zona de conforto, ainda na poltrona da sala de espetáculos, sem qualquer aviso prévio sobre a continuidade da vida, sem manual de instrução.

quinta-feira, 18 de julho de 2019

A Bela Adormecida | Aposta no potencial cognitivo do público infantil

Aposta no potencial cognitivo do público infantil


Longe de se enquadrar no rol das histórias de princesas loiras de olhos azuis, coadjuvadas por animais falantes, cantantes, dançantes e fofos, o espetáculo “A Bela Adormecida” – flexionado no primoroso e onírico texto assinado por Janine Rodrigues e ludicamente dirigido pela pulsante veia artística multidisciplinar de Alexandre Lino – é repleto de mensagens ocultas, valores morais, simbolismos e crenças capazes de anestesiar o espectador, diante de uma realidade que aposta no potencial cognitivo do público infantil, com vistas ao aprimoramento de sua capacidade interpretativa e de seu senso crítico.

Dedicando-se, de corpo e alma, ao seu desempenho solo, a atriz/bailarina Silvia Patricia transmite, de forma didática e imaginativa, a importância do despertar da consciência do ser, sem as amarras das clicherias produtoras das batalhas entre o bem e o mal – sendo o primeiro definido pela beleza e pela nobreza e, o segundo, pela feiura e pela picardia.
O figurino de Karlla de Luca desmistifica as vestes principescas engessadas nas mentes dos pequerruchos pelas versões animadas e publicações gráficas estereotipadas e eleva a protagonista ao patamar da mulher batalhadora, alimentada pela perseverança em busca do despertar para a vida. A escuridão que comanda os egos e que se dispersa durante a caminhada da heroína conta com a direção de movimento de Giselda Fernandes que lhe injeta a força da cadência das origens em busca dos desígnios, conduzindo o espectador ao âmago da história contada com muita consciência e respeito ao próximo. Uma força impulsionada pela trilha sonora MAD que, sob a ousadia do sangue pernambucano pulsante da direção de Lino, confronta a essência do ritmo afro brasileiro nordestino de Jaraguá Mulungú e a disciplina clássica do pós romantismo russo da partitura deTchaikovsky. O arquétipo feminino sob o olhar masculino do diretor é evidenciado quando o desenho de luz de Paulo Denizot envolve a personagem como o sol em sua incessante doação a quem possa aquecer.
Encantadora por sua beleza e que se entrega ao sono profundo a ponto de fazer acordar a sua alma, Bela traça a sua existência, transformando-a em  alimento intelectual direcionado ao público infantil. Não obstante, o legado para os adultos acompanhantes, fruto do vazio existencial da protagonista, provoca o desejo pelo despertar das ideias, das verdades e dos conceitos sobre como viver melhor a vida.






sábado, 13 de julho de 2019

Palace II - Três Quartos com Vista para o Mar | sensação de impotência e a constatação da impunidade



Um dramático documentário de horror com viés catastrófico

Um registro cujo marco se dá em pleno carnaval de 1998. Um registro que tem início com projetos de vida. Um registro cujas raízes remontam à chegada dos portugueses na Terra Brasilis. Um registro que revela causas e consequências, visíveis e invisíveis, diretas e indiretas, que se alastram pelo passado, explicam o momento presente e desenham um futuro obscuro de uma nação que ainda clama por uma justiça travestida de sopro de esperança na pele da impunidade. Um documentário intitulado “Palace II - Três Quartos com Vista para o Mar” com lançamento nacional previsto para 18 de julho de 2019 – mais que oportuna lembrança de um dos maiores desastres dos anais da engenharia civil brasileira, levada para a tela dos cinemas, pela direção de Gabriel Correia e Castro e Rafael Machado que, ao lançarem mão da linguagem jornalística na condução da obra, denunciam a perturbadora sensação de inoperância da justiça no trato dos direitos dos cidadãos comuns.

Edifício residencial contemplando cento e setenta apartamentos – cuja construção se deu ao longo da década de 1990, sob a responsabilidade da Construtora Sersan do deputado federal Sérgio Naya – o Palace II, que para muitos representou a realização do sonho de morar na Barra da Tijuca, na cidade do Rio de Janeiro,  foi marcado pelo seu desabamento, em 22 de fevereiro de 1998, decorrente de vícios de cálculo estrutural conjugados ao uso de materiais de baixa qualidade, causando a morte de oito pessoas e deixando cento e cinquenta famílias desabrigadas.

O longa de Castro e Machado reacende chamas do passado alimentadas por falsidade ideológica, por falsificação de documento público, por sonegação e fraude de execução fiscal, por ganância, por desprezo à ética e por quebra de decoro no sentido mais abrangente do desrespeito ao ser humano – conferindo à produção, qualidades de um dramático documentário de horror com viés catastrófico. Ao retratar a luta jurídica das vítimas do Palace II pelos seus direitos, contra o dono da construtora Sersan, o documentário navega pelos meandros do litígio, em meio à morosidade dos trâmites da justiça, cuja inércia se mantém, vinte e um anos após o desastre, contra os que não têm foro privilegiado ou recursos financeiros para comprar uma sentença que favoreça seus interesses.

A sensação de impotência e a constatação da impunidade, fartamente concedidas nos quase noventa minutos de filme, é algo desolador, para o espectador incapaz de não se ver em cada um dos padecedores do Palace II que brigam por algo que deveria ser uma garantia para todos os cidadãos de bem ou do mal – a justiça, cuja cegueira não se explica, se decorrente de total imparcialidade ou de mero equívoco.

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Ta Azor! a Lucidez de Artaud - Sonhos travestidos de lucidez

Sonhos travestidos de lucidez e em terrível estado de solidão



Ao conduzir toda a sua obra pelo incessante desejo de se encontrar, o poeta, pintor, escritor, ator e dramaturgo Antonin Artaud renega a consciência estética, fundamentada em simulacros – a realidade empírica da sobrevivência – embora, manipule a vida como se fosse, supostamente, regida por forças mágicas, a partir de uma consciência cósmica, firmada entre o universo e o divino.

As metáforas associadas às obras do artista são desenhadas no espetáculo “Ta Azor! - A Lucidez de Artaud”, sob o roteiro de Calé Miranda, que gera uma aura dolorosa em torno de um espírito inquieto. A concepção de Calé preenche o espaço cênico com os movimentos, quase coreografados, e pelo texto, austeramente, articulado por Mônica Izidoro, Fátima Colin, Júlio César Pires e Arthur Vinciprova. Como se acometidos por um devaneio onírico, os personagens elegem a cura da dor e da impotência intelectual como o ponto forte da peça, ao discursarem sobre a síntese entre a matéria e o espírito.

Em meio a um espetáculo eminentemente sensorial, o espectador pode se dar ao luxo de cerrar os olhos e compreender o que se passa, simplesmente, através do sentido do olfato – inebriado pela fragrância do mix de ervas composto por hortelã, alecrim, arruda, dentre outros – e pela percepção dos movimentos e da insana coreografia em meio a uma paisagem sonora fantasmagórica, ao mesmo tempo, alucinante, por Marco Netto – consolidando a brutalidade, a promiscuidade, o sofrimento e as privações sofridas por Artaud. Porém, longe da intenção de promover ao espectador a experiência de estar na plateia de um teatro cego, Calé promove uma riqueza cromática a partir da inconsciente leveza orgânica do desenho de luz assinado por  Eliza Moreira, associado ao policromatismo de seu figurino, em busca pelo sentido obscuro da essência de Artaud.

Dessa forma, o espectador é induzido a experimentar uma terapêutica possibilidade de renascimento e de regeneração através de sonhos travestidos de lucidez e em terrível estado de solidão. A arena ambientada, acolhe o público em meio à história, segundo um teatro, sob um novo formato, que dramatiza a escrita e que se dirige ao leitor-espectador. “Ta Azor - A lucidez de Artaud” dá lugar ao corpo humano proferindo palavras em busca de uma cura que se afasta da crueldade, que se apresenta poética e volátil – como a vida de um indivíduo qualquer, inconscientemente lúcido.

segunda-feira, 1 de julho de 2019

Homem-Aranha: Longe de Casa - uma continuação, mais do que satisfatória

Uma continuação, mais do que satisfatória

Veneza, Berlim, Londres e Praga são as cidades icônicas que servem de cenário para a sequência das aventuras do jovem Peter Parker, no filme “Homem-Aranha: Longe de Casa”.

Condicionalmente, a plena compreensão do filme demanda que o espectador esteja bem atualizado junto ao universo Marvel – em especial, ter assistido ‘Vingadores - Ultimato’, com vistas à assimilação do real significado do evento apocalíptico apelidado ‘The Blip’ e, não ser impactado com o spoiler apresentado, de cara, na abertura do filme, ao som de Whitney Houston – ‘I will always love you’.

Com o mundo livre de Thanos, os professores do Midtown planejam um passeio escolar para Europa. Consequentemente, Parker vislumbra a oportunidade de desfrutar a tão almejadas férias e abrir o coração para a sua amada MJ em solo europeu. Ao chegarem ao seu destino, eis que surge um monstro, causando destruição geral. Entra em cena um homem que, se intitulando Mysterio, luta contra a monstruosa criatura. Com isso, acaba conquistando a simpatia de Parker, com quem cria laços de amizade, com o aval de Nick Fury.
  
A direção de Jon Watts tem uma veia imaginativa pirotécnica impactante, além de não poupar o espectador de uma avalanche de cenas de humor teen e de uma boa e adequada dose de realidade aguda, ao se tratar de vida e morte – um somatório que faz do longa uma continuação, mais do que satisfatória, de uma franquia ansiada por uma legião de fãs do Aranha. Seja no início, no meio ou no fim, tudo tem o seu porquê. As cenas pós créditos aprofundam, ainda mais, o que o Universo Marvel promete para a próxima sequência. 

‘Longe de Casa’ contempla um roteiro inteligente e maduro, assinado por Chris McKenna e Erik Sommers – dupla que consegue a proeza de manter a refrescância juvenil inserida em um capítulo da saga dos Vingadores.

O Olho e a Faca - sem referencial emocional, que confunde sonho com realidade


Sem referencial emocional


De um lado, um acidente bizarro em uma plataforma de petróleo, cuja responsabilidade recai sobre o líder do grupo de embarcados. De outro, um cara gente boa, muito querido pelos companheiros de labuta que, na disputa pelo cargo de gerente da plataforma, vê todo o carinho e camaradagem, dispensados pelos colegas, se perder no fundo do mar. Em terra firme, esse homem, apesar de casado, com filhos e pais vivos, também dá suas escapadinhas e tem uma vida em paralelo com uma amante – linhas gerais do filme “O Olho e a Faca”, filosoficamente dirigido por Paulo Sacramento.

O elenco é composto por Roberto Birindelli, Caco Ciocler , Maria Luísa Mendonça, Luís Mello e conta com uma rápida aparição, quase sem texto, de Débora Nascimento. Maciçamente, o cast parece servir apenas de escada para Rodrigo Lombardi e seu personagem sem referencial emocional, que confunde sonho com realidade, encara todos que o cerca como inimigos, e tenta, de todas as formas contidas em um surto psicótico, voltar à terra e abandonar o mar interno de sua alma atormentada.

Apesar do argumento deixar o espectador a ver navios quanto à meta pretendida pela produção, o longa é agraciado com produção sonora estruturada pela expertise de Miriam Biderman, Ricardo Rei e André Tadeu e com a primorosa fotografia de José Roberto Eliezer – que impedem que  “O Olho e a Faca” se posicione em patamar abaixo daquele reservado para um filme regular.

Quem tem medo de Travesti - Acende a chama do absurdo que vela o preconceito


Acende a chama do absurdo que vela o preconceito, ao mesmo tempo que projeta os holofotes da coerência que celebram o direito de cada um viver de acordo com a sua identidade

A discussão central inserida no espetáculo “Quem tem medo de Travesti” é definida por uma perspectiva humana que compreende um posicionamento defensivo frente ao preconceito, mantida por muitos conservadores – quando não pela identidade de gênero capaz de acirrar a homofobia, pelo seu debate contemporâneo, de caráter ético, à sombra da inatividade. A discriminação polemiza as boas intenções dos paladinos do Senhor em nome da família e transforma a orientação sexual e as discussões sobre sexo biológico, em algo contextualizado, em embates historicamente retrógrados.


“Quem tem medo de Travesti” é uma conjunção de talentos, idealizada por Silvero Pereira que também dirige o espetáculo, juntamente com Jezebel De Carli – dupla essa que não pode ser dissociada de BR Trans, peça escrita e protagonizada por Pereira e dirigida por De Carli, na qual o ator, ao mesmo tempo, autor, conta experiências de vidas,  desempenha números musicais e torna visível um segmento da população ignorado pela sociedade.


“Quem tem medo de Travesti” é elencado por uma trupe de artistas militantes, composta por Denis Lacerda, Diego Salvador, Italo Lopes,  Patrícia Dawson, Verònica Valenttino, e Rodrigo Ferreira (Mulher Barbada), que incorporam, com excelência dramatúrgica, diversos personagens do universo transformista. Com teatralidade ímpar, incomum nesse segmento performático, as personagens contam histórias de suas vidas, desnudando o que há de mais precioso no ser humano – a empatia. O cerne do espetáculo não aparenta, apenas, atentar para a diversão do espectador, uma vez que também expõe, de forma dramática, ao mesmo tempo, apoteótica, o repúdio ao preconceito e à discriminação que vitimizam os travestis, ao fazer com que a intolerância seja desmascarada no contexto do espetáculo que denuncia um Brasil que lidera o ranking mundial de assassinatos de transexuais.


Apesar de ser um espetáculo viabilizado sem patrocínio, mas por meio de financiamento coletivo, “Quem tem medo de Travesti” conta com recursos musicais, cuja pesquisa se deve à polivalência de Silvero Pereira, cuja preparação vocal é zelosamente trabalhada pela professora Angela Moura e contemplando a música original assinada por Verónica Valenttino. Expondo a essência desnuda e trajada das artistas os figurinos e adereços concebidos por Antônio Rabadan, complementados pelo mais que adequado e personalizado vizagismo, definem a veia humana, bestial e artística de cada uma das personagens. O projeto cenográfico, não só, é pragmático, atendendo à facilidade de montagem e desmontagem ao longo das turnês, mas lhe é conferido ares cosmopolitanos tão evidentes quanto os são cidadãs do mundo, as protagonistas do espetáculo. Dramatizando o que é tragédia e exaltando as performances musicais e coreografadas, o desenho de luz cênica assinado por Ricardo Vivian, acende a chama do absurdo que vela o preconceito, ao mesmo tempo que projeta os holofotes da coerência que celebram o direito de cada um viver de acordo com a sua identidade.


Sem escapismo, “Quem tem medo de Travesti” não foge à luta e enfrenta as adversidades diárias que são impostas aos indivíduos que resolvem defender a sua sexualidade, com perseverança e resistência – mesmo que, no momento de seus desempenhos, não estejam, declaradamente, representados pela plateia – apenas, subliminarmente.