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segunda-feira, 22 de julho de 2019

O Vendedor de Sonhos | de autoria do doutor em psicanálise, professor, escritor brasileiro e médico psiquiatra, Augusto Jorge Cury



Despreza a teoria Orwelliana de que alguns são mais iguais que outros


Abordando a psicologia emocional dos personagens contemporâneos que parecem viver num insano emaranhado de sentimentos, a versão teatral do best-seller homônimo “O Vendedor de Sonhos” – de autoria do doutor em psicanálise, professor, escritor brasileiro e médico psiquiatra, Augusto Jorge Cury – desenha a sua primeira cena a partir da ameaça de um homem se jogar do alto de um edifício, ao mesmo tempo que seu livre arbítrio em pôr um fim à sua vida, naquele momento e daquela forma, é questionado por um morador de rua. Traição, dívidas financeiras e drogas compõem as engrenagens dessa adaptação, também assinada por Cury, em parceria com Erikah Barbim & Cristiane Natale – sob um olhar não tão veemente quanto aquele projetado na versão original, mas com ênfase no maltrapilho que, pela direção beirando à programação neurolinguística de Cristiane Natale, insere a obra num misterioso território tomado por uma atmosfera alienista.

A identidade de cada um dos personagens é potencializada pela dramaticidade do desenho de luz de Nara Zocher que desvencilha a encenação do viés da autoajuda contida, subliminarmente, no texto, muito em função da construção do protagonista. Não é de se desprezar a dose de crítica social presente na narrativa, ricamente ilustrada pela concepção do conjunto figurino e adereços assinado por Valentina Oliveira, em total sintonia com o cenário minimalista, com toques surrealistas, a ponto de convencer os mais influenciáveis a pensar sobre seus próprios problemas ou aprimorar as suas habilidades, mesmo que de forma inconsciente. Enquanto isso, a liberdade poética toma conta da trilha sonora de Maurício Colatoni, assumindo o papel de um indicativo, junto à plateia, de que é chegada a hora de expressarem seus sentimentos, a despeito do genuíno potencial de emotividade das cenas. A essência dos personagens incorporados por Luiz Amorim, Mateus Carrieri, Marcos Veríssimo, Lino Colatoni, Anisha Zevallos, Adriano Merlini, Guilherme Carrasco e Fernanda Mariano é transmitida, fidedignamente, ao espectador, permitindo-lhe o auto exame dos interstícios de sua consciência, segundo a legitimidade de um ser humano e não como um indivíduo dotado de poderes sobrenaturais.

Ao induzir a plateia a crer no conceito de que somos todos iguais perante a um Ser Supremo, o texto de Cury despreza a teoria Orwelliana de que alguns são mais iguais que outros, fazendo com que “O Vendedor de Sonhos” coloque o espectador dentro de sua zona de conforto, ainda na poltrona da sala de espetáculos, sem qualquer aviso prévio sobre a continuidade da vida, sem manual de instrução.

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