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sábado, 13 de julho de 2019

Palace II - Três Quartos com Vista para o Mar | sensação de impotência e a constatação da impunidade



Um dramático documentário de horror com viés catastrófico

Um registro cujo marco se dá em pleno carnaval de 1998. Um registro que tem início com projetos de vida. Um registro cujas raízes remontam à chegada dos portugueses na Terra Brasilis. Um registro que revela causas e consequências, visíveis e invisíveis, diretas e indiretas, que se alastram pelo passado, explicam o momento presente e desenham um futuro obscuro de uma nação que ainda clama por uma justiça travestida de sopro de esperança na pele da impunidade. Um documentário intitulado “Palace II - Três Quartos com Vista para o Mar” com lançamento nacional previsto para 18 de julho de 2019 – mais que oportuna lembrança de um dos maiores desastres dos anais da engenharia civil brasileira, levada para a tela dos cinemas, pela direção de Gabriel Correia e Castro e Rafael Machado que, ao lançarem mão da linguagem jornalística na condução da obra, denunciam a perturbadora sensação de inoperância da justiça no trato dos direitos dos cidadãos comuns.

Edifício residencial contemplando cento e setenta apartamentos – cuja construção se deu ao longo da década de 1990, sob a responsabilidade da Construtora Sersan do deputado federal Sérgio Naya – o Palace II, que para muitos representou a realização do sonho de morar na Barra da Tijuca, na cidade do Rio de Janeiro,  foi marcado pelo seu desabamento, em 22 de fevereiro de 1998, decorrente de vícios de cálculo estrutural conjugados ao uso de materiais de baixa qualidade, causando a morte de oito pessoas e deixando cento e cinquenta famílias desabrigadas.

O longa de Castro e Machado reacende chamas do passado alimentadas por falsidade ideológica, por falsificação de documento público, por sonegação e fraude de execução fiscal, por ganância, por desprezo à ética e por quebra de decoro no sentido mais abrangente do desrespeito ao ser humano – conferindo à produção, qualidades de um dramático documentário de horror com viés catastrófico. Ao retratar a luta jurídica das vítimas do Palace II pelos seus direitos, contra o dono da construtora Sersan, o documentário navega pelos meandros do litígio, em meio à morosidade dos trâmites da justiça, cuja inércia se mantém, vinte e um anos após o desastre, contra os que não têm foro privilegiado ou recursos financeiros para comprar uma sentença que favoreça seus interesses.

A sensação de impotência e a constatação da impunidade, fartamente concedidas nos quase noventa minutos de filme, é algo desolador, para o espectador incapaz de não se ver em cada um dos padecedores do Palace II que brigam por algo que deveria ser uma garantia para todos os cidadãos de bem ou do mal – a justiça, cuja cegueira não se explica, se decorrente de total imparcialidade ou de mero equívoco.

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