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segunda-feira, 1 de julho de 2019

Quem tem medo de Travesti - Acende a chama do absurdo que vela o preconceito


Acende a chama do absurdo que vela o preconceito, ao mesmo tempo que projeta os holofotes da coerência que celebram o direito de cada um viver de acordo com a sua identidade

A discussão central inserida no espetáculo “Quem tem medo de Travesti” é definida por uma perspectiva humana que compreende um posicionamento defensivo frente ao preconceito, mantida por muitos conservadores – quando não pela identidade de gênero capaz de acirrar a homofobia, pelo seu debate contemporâneo, de caráter ético, à sombra da inatividade. A discriminação polemiza as boas intenções dos paladinos do Senhor em nome da família e transforma a orientação sexual e as discussões sobre sexo biológico, em algo contextualizado, em embates historicamente retrógrados.


“Quem tem medo de Travesti” é uma conjunção de talentos, idealizada por Silvero Pereira que também dirige o espetáculo, juntamente com Jezebel De Carli – dupla essa que não pode ser dissociada de BR Trans, peça escrita e protagonizada por Pereira e dirigida por De Carli, na qual o ator, ao mesmo tempo, autor, conta experiências de vidas,  desempenha números musicais e torna visível um segmento da população ignorado pela sociedade.


“Quem tem medo de Travesti” é elencado por uma trupe de artistas militantes, composta por Denis Lacerda, Diego Salvador, Italo Lopes,  Patrícia Dawson, Verònica Valenttino, e Rodrigo Ferreira (Mulher Barbada), que incorporam, com excelência dramatúrgica, diversos personagens do universo transformista. Com teatralidade ímpar, incomum nesse segmento performático, as personagens contam histórias de suas vidas, desnudando o que há de mais precioso no ser humano – a empatia. O cerne do espetáculo não aparenta, apenas, atentar para a diversão do espectador, uma vez que também expõe, de forma dramática, ao mesmo tempo, apoteótica, o repúdio ao preconceito e à discriminação que vitimizam os travestis, ao fazer com que a intolerância seja desmascarada no contexto do espetáculo que denuncia um Brasil que lidera o ranking mundial de assassinatos de transexuais.


Apesar de ser um espetáculo viabilizado sem patrocínio, mas por meio de financiamento coletivo, “Quem tem medo de Travesti” conta com recursos musicais, cuja pesquisa se deve à polivalência de Silvero Pereira, cuja preparação vocal é zelosamente trabalhada pela professora Angela Moura e contemplando a música original assinada por Verónica Valenttino. Expondo a essência desnuda e trajada das artistas os figurinos e adereços concebidos por Antônio Rabadan, complementados pelo mais que adequado e personalizado vizagismo, definem a veia humana, bestial e artística de cada uma das personagens. O projeto cenográfico, não só, é pragmático, atendendo à facilidade de montagem e desmontagem ao longo das turnês, mas lhe é conferido ares cosmopolitanos tão evidentes quanto os são cidadãs do mundo, as protagonistas do espetáculo. Dramatizando o que é tragédia e exaltando as performances musicais e coreografadas, o desenho de luz cênica assinado por Ricardo Vivian, acende a chama do absurdo que vela o preconceito, ao mesmo tempo que projeta os holofotes da coerência que celebram o direito de cada um viver de acordo com a sua identidade.


Sem escapismo, “Quem tem medo de Travesti” não foge à luta e enfrenta as adversidades diárias que são impostas aos indivíduos que resolvem defender a sua sexualidade, com perseverança e resistência – mesmo que, no momento de seus desempenhos, não estejam, declaradamente, representados pela plateia – apenas, subliminarmente.

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