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quarta-feira, 3 de julho de 2019

Ta Azor! a Lucidez de Artaud - Sonhos travestidos de lucidez

Sonhos travestidos de lucidez e em terrível estado de solidão



Ao conduzir toda a sua obra pelo incessante desejo de se encontrar, o poeta, pintor, escritor, ator e dramaturgo Antonin Artaud renega a consciência estética, fundamentada em simulacros – a realidade empírica da sobrevivência – embora, manipule a vida como se fosse, supostamente, regida por forças mágicas, a partir de uma consciência cósmica, firmada entre o universo e o divino.

As metáforas associadas às obras do artista são desenhadas no espetáculo “Ta Azor! - A Lucidez de Artaud”, sob o roteiro de Calé Miranda, que gera uma aura dolorosa em torno de um espírito inquieto. A concepção de Calé preenche o espaço cênico com os movimentos, quase coreografados, e pelo texto, austeramente, articulado por Mônica Izidoro, Fátima Colin, Júlio César Pires e Arthur Vinciprova. Como se acometidos por um devaneio onírico, os personagens elegem a cura da dor e da impotência intelectual como o ponto forte da peça, ao discursarem sobre a síntese entre a matéria e o espírito.

Em meio a um espetáculo eminentemente sensorial, o espectador pode se dar ao luxo de cerrar os olhos e compreender o que se passa, simplesmente, através do sentido do olfato – inebriado pela fragrância do mix de ervas composto por hortelã, alecrim, arruda, dentre outros – e pela percepção dos movimentos e da insana coreografia em meio a uma paisagem sonora fantasmagórica, ao mesmo tempo, alucinante, por Marco Netto – consolidando a brutalidade, a promiscuidade, o sofrimento e as privações sofridas por Artaud. Porém, longe da intenção de promover ao espectador a experiência de estar na plateia de um teatro cego, Calé promove uma riqueza cromática a partir da inconsciente leveza orgânica do desenho de luz assinado por  Eliza Moreira, associado ao policromatismo de seu figurino, em busca pelo sentido obscuro da essência de Artaud.

Dessa forma, o espectador é induzido a experimentar uma terapêutica possibilidade de renascimento e de regeneração através de sonhos travestidos de lucidez e em terrível estado de solidão. A arena ambientada, acolhe o público em meio à história, segundo um teatro, sob um novo formato, que dramatiza a escrita e que se dirige ao leitor-espectador. “Ta Azor - A lucidez de Artaud” dá lugar ao corpo humano proferindo palavras em busca de uma cura que se afasta da crueldade, que se apresenta poética e volátil – como a vida de um indivíduo qualquer, inconscientemente lúcido.

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