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quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Era uma vez em...Hollywood



Uma força incendiária e estranhamente fraternal



O mais recente longa escrito e dirigido por Quentin Tarantino, “Era uma vez em... Hollywood”, é estruturado em torno do homicídio de cinco indivíduos em Cielo Drive, Los Angeles, no ano de 1969, cometidos pelo grupo cognominado Família Manson.

A história é protagonizada pelo veterano cowboy da TV – Rick Dalton (Leonardo DiCaprio) e seu fiel dublê e motorista pessoal – Cliff Booth (Brad Pitt), que passam seus dias ociosos, muitas vezes, bêbados - ambos vizinhos do casal  Roman Polanski (Rafal Zawierucha) e Sharon Tate (Margot Robbie), que se encontra em fase final de gestação. Na noite de 8 de agosto de 1969, estando Polanski em viagem, Tate reúne amigos em casa - a mesma noite em que membros da Família Manson executa planos que a banha em sangue, pela direção de Tarantino.

Contrastando com a fatídica noite, “Era uma vez em...Hollywood” é estranhamente precedida por alegria, por energia e por humor palatável, claramente idiossincrático – marca registrada do diretor. A melancolia que se aporta a cada minuto se deve, nada mais, nada menos, pelo fato de que, aparentemente, a história é baseada em fatos reais. O longa conta com uma estrutura temporal na qual as camadas densas colaboram para com a liberdade ‘poética’ de Tarantino em transformar uma história macabra em um conto de fadas justiceiro, onde o verão de 1969, em Cielo Drive, torna-se fato histórico para os americanos que tiveram que repensar a fama, a violência e a contracultura que, de certa forma, contribuiu para ceifar vidas inocentes.

A obra de Tarantino é paradoxal quando tende a ser um derivado de outros filmes dele mesmo – mas se sobressai, exatamente, por influenciar a distância entre suas obras através de uma força incendiária e estranhamente fraternal.

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Mãe Fora da Caixa



Esclarece, junto à plateia, o significado do amor subjetivo


A referência egocêntrica do ser humano, em face à maternidade, desconsidera as diversas modalidades do ato de ser mãe, ao concentrarem as atenções nos modelos romantizados e sacramentados por celebridades,  exercendo o seu papel de formador de opinião,  a partir da fabulação de um discurso que traveste o estado materno em bênção divina, em experiência maravilhosa, em diretriz que dá sentido à vida e da enunciação de frases, ora enaltecedoras do instinto feminino, ora fomentadoras de sentimento de frustração.

Caindo na real e de pés no chão, o simples fato de uma mulher se tornar mãe, seja biologicamente, seja por adoção, não é, de fato, uma obra de um Ser Divino ou de um Espírito tido como Santo, segundo os preceitos do cristianismo – muito embora a reprodução dos seres vivos seja um dos fantásticos processos da evolução do universo e da vida, da mesma forma que os processos de adoção estão fadados aos trâmites criados e costurados pelo próprio homem. Portanto, o milagre da criação ou a vontade de Deus, sob a ótica da verdade nua e crua, fica por conta da liberdade poética e do respeito às crenças religiosas de cada indivíduo.

A simbologia que expressa a força de quem gera, de quem cria e de quem educa é minuciosamente estampada no espetáculo “Mãe Fora da Caixa”, cujo texto de Cláudia Gomes esclarece, junto à plateia, o significado do amor subjetivo, em contrapartida com a objetividade da vida de uma mulher que se prepara para descobrir se está grávida de um segundo filho. Miá Mello se entrega de corpo e alma ao seu personagem e canaliza a sua energia e experiência maternal ao espectador, em meio uma atmosfera saturada de comédia que induz ao riso genuíno, do início ao fim do espetáculo.

A delicadeza harmonizada com desespero faz da direção de Joana Lebreiro eclodir a capacidade do amor materno, apartado da obviedade e da facilidade presente na indução social, que define a incondicionalidade do amor por um filho. O desempenho do exercício da maternidade da protagonista e a sua postura que sobrepuja o bom senso em nome de um instinto ou obrigação frente à sociedade são caricaturados pela concepção do projeto de cenografia assinado por Mina Quental, cujo pano de fundo, formado por assentos de bacias sanitárias - por onde se esvaem os traumas, as psicoses, o egoísmo e o apego responsáveis pela deformação do caráter do ato de procriar - resulta na perda total de domínio e de controle de um planejamento familiar. Atuando como um dosador do viés tragicômico do espetáculo, o desenho de luz de Paulo César Medeiros contribui para a limitação do desenvolvimento filosófico da atual e futura mamãe, interagindo, precisamente, com os momentos que ultrapassariam os limites da tragédia, se o espetáculo também não fosse contemplado pela comédia. Guardada as devidas proporções, a intencional e necessária interatividade com a plateia requer a identificação de si mesmo com a protagonista, por parte do público feminino e da protagonista com a mãe de seus filhos, por parte do público masculino. Em atendimento a essa demanda, o natural e instintivo figurino de Bruno Perlatto e Mariana Safadi transporta a protagonista às suas origens quase que primitivas, expondo a sua intimidade, sem glorificar a maternidade com um vestuário que pudesse remeter à santificação do processo.

A criatura desenhada por Miá torna-se cada vez mais palpável diante de uma plateia – diversificada por pais, por aspirantes a pais, por filhos, por simpatizantes à maternidade e por indivíduos que optaram não passar pela experiência tema do espetáculo – que enxerga, a cada movimento da personagem, uma história crível e muito próxima de si. É justo que o crédito a ser dado ao domínio exercido sobre o espectador pela atriz, seja compartilhado com a direção de movimento de Andrea Jabor, que concede a Miá um poderio incontrolável – contudo, ciente da meta a ser atingida. As involuntárias manifestações evidenciadas entre os espectadores que se remetem aos fatos apresentados por conta de identificações diversas, são controladas pelo planejamento e pela seleção da trilha sonora de Ricco Vianna, capaz de silenciar a plateia em momentos em que a atenção deve ser voltada para as questões intensamente psíquicas que aproximam e distanciam a mulher-mãe do público.

O espetáculo, livremente baseado no livro homônimo de Thaís Vilarinho, não vem para apresentar definições sobre a aceitação ou a negação de um estado de gravidez em potencial, pela mulher que somente se realiza após a experiência da maternidade, mas promover uma deliciosa reflexão sob o ponto de vista mercadológico da mulher que acaba sendo blindada, quase que, religiosamente, como qualquer negócio em que deve ser construída a relação sócio-econômica. Nesse contexto, “Mãe Fora da Caixa” ilustra o amor maternal baseado em discursos ‘médicos-filosóficos-políticos-sociais’ que dão o tom ao amor a ser dispensado a cada ser que nasce sob o signo da vida que segue.

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Histórias Assustadoras para Contar no Escuro



Sem provocar o menor lampejo de medo


Aos bons e velhos tempos dos anos 1980, quando alguns sustos bem colocados garantem a determinados filmes a classificação de terror – o longa “Histórias Assustadoras para Contar no Escuro” presta uma nostálgica homenagem frente a espectadores saudosistas que, àquela época, juntam sua turma para assistirem às matinês de filmes manchados com muito sangue, poluídos gritos de pavor e impregnados de personagens disformes – tudo regado à pipoca com guaraná.

A direção de André Øvredal constrói um clima claustrofóbico e sem muita luz, exatamente para que os oitentistas revivam a experiência de estarem ouvindo, e não assistindo uma história de terror. A violência, tão manifesta no gênero dos anos 1980, não se faz presente na adaptação do livro para o cinema. Mesmo contemplando um roteiro escrito a seis mãos, incluindo o cineasta, roteirista e produtor mexicano Guillermo Del Toro, o longa não entusiasma com a sua história ambientada em 1968, em uma cidade chamada Mill Valley, onde um grupo de adolescentes entra em contato com as histórias do autor dos livro homônimo do filme – Alvin Schwartz.

A série de histórias assustadoras forma um quebra-cabeça de contos contidos nos livros como: ‘The Haunted House’, ‘The Dream’, ‘The Red Spot’, ‘Harold’,  “The Big Toe, dentre outras que, juntas, contam uma única história – a de uma falecida jovem que guarda segredos bizarros, que se desdobraram em uma série de macabros acontecimentos, descritos em um livro que transcende o tempo e logo é descoberto por outros jovens que, sem saber, passam a fazer parte dos contos compilados no livro.

O Horror das imagens contidas na produção de Øvredal são dignas da geração millenium que, como a coleção de Schwartz, se faz direcionada às  crianças – sendo esta, a partir de histórias críveis e realmente assustadoras. Já, o filme, satisfaz a capacidade de assimilação infantilóide, sem muito atrativo e, pior que tudo, sem provocar o menor lampejo de medo.

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Não Mexa com Ela



A insídia do machismo


Orna (Liron Ben Shulsh) é um exemplo de esposa e de mãe que batalha para ajudar a manter o bem estar da família, enquanto seu marido (Oshri Cohen) luta para manter seu novo restaurante, apesar de sua baixa frequência. Ao conquistar um emprego bem remunerado, Orna adentra o universo masculino do corretor imobiliário Benny (Menashe Noy). Com o tempo, Benny passa a acreditar que, não somente, se beneficia com habilidades imobiliárias de Orna, como também possa tê-la como um objeto sexual.

Sob a direção com olhar feminista de Michal Aviad o filme israelense “Não Mexa com Ela” é situado na atual Tel Aviv. Conduzido por um enredo oportuno, beirando ao satisfatório, o longa apresenta – de forma incômoda, muitas vezes, revoltante – a exposição das mulheres em um mundo predominantemente masculino que se sente no direito de assediar o gênero feminino, sob o tacanho subterfúgio de levar ao conhecimento de terceiros, de que homens pertencentes àquele universo têm prazer em se relacionar sexualmente com mulheres.

Aviad consegue captar, habilmente e ferozmente, a insídia do machismo, mas não foge do maniqueísmo dos atos acusatórios da mulher diante do abusador pois, com o seu desfecho rápido e sem a severidade no qual o assunto deve ser imbuído, não garante, ao longa, a autenticidade tão esperada, por uma história tão dolorosa, beirando ao patamar de terror psicológico.

terça-feira, 6 de agosto de 2019

Meu Amigo Enzo



Subestima a totalidade dos personagens humanos e compromete a essência humana dada ao labrador pensador que exacerba na emotividade


Para o espectador que tem interesse na perspectiva de entendimento de um cachorro sobre a morte, o longa “Meu Amigo Enzo” cumpre o seu papel, sem qualquer embasamento científico, mas repleto de clichês capazes de levar, aos prantos, qualquer indivíduo que seja tutor de um animal ou por eles cultivam estima. 

Tudo por conta da história de um piloto de corrida que, um dia, decide adotar um filhote de cachorro e chamá-lo por Enzo, em homenagem ao fundador da Scuderia da Ferrari e da fábrica de automóveis do mesmo nome. Com o passar dos anos, a amizade entre homem e animal sofre profundas mudanças quando o humano, se apaixona por uma jovem e com ela se casa e, juntos, concebem uma linda menina.

A direção de Simon Curtis retrata o amor que os animais domésticos despertam nos humanos, ao mesmo que tempo revela a vulnerabilidade desses mesmos seres frente a mudanças, a perdas e a alegrias que, nem sempre, encontram respostas ou alentos em um outro ser humano.

Curtis aposta na adoção do papel de narrador da história pelo próprio Enzo, pondo em risco a credibilidade do roteiro pelo espectador não tão aficionado pelo universo dos pets, já comprometido pela previsibilidade do enredo. “Meu Amigo Enzo” subestima a totalidade dos personagens humanos e compromete a essência humana dada ao labrador pensador que exacerba na emotividade, sem naturalidade.

Lamentavelmente, o longa baseado no romance literário ‘The Art of Racing in the Rain’ de Garth Stein – por sua vez, contemplado pela feliz simbiose entre mágica e intuição – não ostenta as mesmas qualidades do livro, a ponto de fazer guardar na memória as imagens e os relatos do labrador que sonha em ser humano, vistas e ouvidas dentro da sala de projeção.