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segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Mãe Fora da Caixa



Esclarece, junto à plateia, o significado do amor subjetivo


A referência egocêntrica do ser humano, em face à maternidade, desconsidera as diversas modalidades do ato de ser mãe, ao concentrarem as atenções nos modelos romantizados e sacramentados por celebridades,  exercendo o seu papel de formador de opinião,  a partir da fabulação de um discurso que traveste o estado materno em bênção divina, em experiência maravilhosa, em diretriz que dá sentido à vida e da enunciação de frases, ora enaltecedoras do instinto feminino, ora fomentadoras de sentimento de frustração.

Caindo na real e de pés no chão, o simples fato de uma mulher se tornar mãe, seja biologicamente, seja por adoção, não é, de fato, uma obra de um Ser Divino ou de um Espírito tido como Santo, segundo os preceitos do cristianismo – muito embora a reprodução dos seres vivos seja um dos fantásticos processos da evolução do universo e da vida, da mesma forma que os processos de adoção estão fadados aos trâmites criados e costurados pelo próprio homem. Portanto, o milagre da criação ou a vontade de Deus, sob a ótica da verdade nua e crua, fica por conta da liberdade poética e do respeito às crenças religiosas de cada indivíduo.

A simbologia que expressa a força de quem gera, de quem cria e de quem educa é minuciosamente estampada no espetáculo “Mãe Fora da Caixa”, cujo texto de Cláudia Gomes esclarece, junto à plateia, o significado do amor subjetivo, em contrapartida com a objetividade da vida de uma mulher que se prepara para descobrir se está grávida de um segundo filho. Miá Mello se entrega de corpo e alma ao seu personagem e canaliza a sua energia e experiência maternal ao espectador, em meio uma atmosfera saturada de comédia que induz ao riso genuíno, do início ao fim do espetáculo.

A delicadeza harmonizada com desespero faz da direção de Joana Lebreiro eclodir a capacidade do amor materno, apartado da obviedade e da facilidade presente na indução social, que define a incondicionalidade do amor por um filho. O desempenho do exercício da maternidade da protagonista e a sua postura que sobrepuja o bom senso em nome de um instinto ou obrigação frente à sociedade são caricaturados pela concepção do projeto de cenografia assinado por Mina Quental, cujo pano de fundo, formado por assentos de bacias sanitárias - por onde se esvaem os traumas, as psicoses, o egoísmo e o apego responsáveis pela deformação do caráter do ato de procriar - resulta na perda total de domínio e de controle de um planejamento familiar. Atuando como um dosador do viés tragicômico do espetáculo, o desenho de luz de Paulo César Medeiros contribui para a limitação do desenvolvimento filosófico da atual e futura mamãe, interagindo, precisamente, com os momentos que ultrapassariam os limites da tragédia, se o espetáculo também não fosse contemplado pela comédia. Guardada as devidas proporções, a intencional e necessária interatividade com a plateia requer a identificação de si mesmo com a protagonista, por parte do público feminino e da protagonista com a mãe de seus filhos, por parte do público masculino. Em atendimento a essa demanda, o natural e instintivo figurino de Bruno Perlatto e Mariana Safadi transporta a protagonista às suas origens quase que primitivas, expondo a sua intimidade, sem glorificar a maternidade com um vestuário que pudesse remeter à santificação do processo.

A criatura desenhada por Miá torna-se cada vez mais palpável diante de uma plateia – diversificada por pais, por aspirantes a pais, por filhos, por simpatizantes à maternidade e por indivíduos que optaram não passar pela experiência tema do espetáculo – que enxerga, a cada movimento da personagem, uma história crível e muito próxima de si. É justo que o crédito a ser dado ao domínio exercido sobre o espectador pela atriz, seja compartilhado com a direção de movimento de Andrea Jabor, que concede a Miá um poderio incontrolável – contudo, ciente da meta a ser atingida. As involuntárias manifestações evidenciadas entre os espectadores que se remetem aos fatos apresentados por conta de identificações diversas, são controladas pelo planejamento e pela seleção da trilha sonora de Ricco Vianna, capaz de silenciar a plateia em momentos em que a atenção deve ser voltada para as questões intensamente psíquicas que aproximam e distanciam a mulher-mãe do público.

O espetáculo, livremente baseado no livro homônimo de Thaís Vilarinho, não vem para apresentar definições sobre a aceitação ou a negação de um estado de gravidez em potencial, pela mulher que somente se realiza após a experiência da maternidade, mas promover uma deliciosa reflexão sob o ponto de vista mercadológico da mulher que acaba sendo blindada, quase que, religiosamente, como qualquer negócio em que deve ser construída a relação sócio-econômica. Nesse contexto, “Mãe Fora da Caixa” ilustra o amor maternal baseado em discursos ‘médicos-filosóficos-políticos-sociais’ que dão o tom ao amor a ser dispensado a cada ser que nasce sob o signo da vida que segue.

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