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sábado, 28 de setembro de 2019

Monstros




Mexe com traumas e deixa um legado marcado por cicatrizes

Perpetuada por instinto, por compulsão ou pela forte sugestão das opiniões de terceiros que passam pela experiência, a reprodução da espécie humana, compreendida como tornar-se mãe ou pai de um ser “do mesmo sangue”, assume o caráter de dever ou de obrigação sob a bênção de um manto divino, concedendo aos progenitores a graça de uma força sobrenatural, que confere à sua prole o status de presentes de Deus.


“Monstros” – o primeiro musical argentino contemporâneo apresentado no Brasil, redefine, de forma implosiva, a cultura do “crescei e multiplicai-vos”. O ousado, impactante e reconfortante texto, assinado pelo dramaturgo argentino Emiliano Dionisi, inspira a direção de Victor Garcia Peralta que exorta sobre os sacrifícios que um homem e uma mulher são induzidos a suportar em nome de um ‘amor incondicional’.

“Monstros” apresenta duas histórias que assumem o status de desabafo pessoal de Cláudio e Sandra – dois adultos que se cruzam, casualmente, pelo fato fortuito de seus filhos estudarem no mesmo colégio. Ambos se orgulham de seus rebentos a ponto de considerá-los contemplados com intelecto e capacidade cognitiva acima da média e, consequentemente, os consideram como, verdadeiramente, especiais. Porém, não percebem que estão despertando os monstros que habitam o interior de todos os envolvidos.

Claudio Lins e Soraya Ravenle assumem o papel da progenitura – com todos os sabores e dissabores que a vida lhe reserva –  e constroem, de forma fundamentada, a operação psíquica do efeito genético de seus respectivos filhos e a influência dos dois na expressiva subjetividade contida na essência de ser papai e mamãe. A fantasiosa busca da configuração familiar, impregnada de harmonia e de felicidade, conta com a fantasmática trilha sonora de Martin Rodriguez, capaz de traduzir as mensagens presentes em  cada cena. Seguindo a lógica da tortura contida na paternidade e na maternidade, Fernando Rubio concebe um cenário escultórico e minimalista, instalando, no palco, um monumental grampo sargento utilizado para fixar peças de marcenaria e serralheria – possivelmente, sugerindo as dores sentidas pela compressão exercida pelas obrigações ocultas e mercantilizadas pelas bênçãos devidas à graça divina pela capacidade que lhes foram dadas com vistas à perpetuação de suas genéticas. A frustrante e dolorosa empatia do espectador com os protagonistas é conferida pelo figurino de Claudio Tovar, que processa a desumana e natural patologização de indivíduos que podem estar sentados lado a lado, na plateia, durante todo o espetáculo. O desenho de luz de Maneco Quinderé é limitador do foco na vida, a ponto de ocultar as mazelas na penumbra e, com isso, possivelmente instigar a curiosidade daqueles que caem no conto da incondicionalidade dos filhos como agentes do sentido à vida.

“Monstros” mexe com traumas e deixa um legado marcado por cicatrizes.

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Ballet Nacional da Rússia



Com repertório majestoso, composto por trechos das obras ‘Lago dos Cisnes’, ‘Spartacus’, ‘Scherezade’, ‘Carmem’, ‘Bolero’, dentre outros


Pela primeira vez no Brasil, o Ballet Nacional da Rússia apresenta o Ballet de São Petersburgo, contemplando grandes talentos em um único espetáculo, produzido pelo diretor Andrey Liapyn.

Acompanham a primeira bailarina do Teatro Marinsky – Oksana Bondareva, oito dos principais solistas consagrados mundialmente do Balé Mariinsky – Nika Tskhvitaria, Vitaly Amelisko, Victor Tomashek, Adel kinzikeev, Victoria Dimovska, Sergey Chumakov e Elena Petrichenko.

Com repertório majestoso, composto por trechos das obras ‘Lago dos Cisnes’, ‘Spartacus’, ‘Scherezade’, ‘Carmem’, ‘Bolero’, dentre outros, Liapyn fez a noite de quinta-feira, dia 26 de setembro de 2019, entrar para a história do ballet no Rio de Janeiro, no Teatro VillageMall.

Foro Íntimo




Permite o espectador sentir toda a angústia do protagonista, cadenciado pelas imagens P&B.

A potencialidade contida no filme “Foro Íntimo” deflagra um processo perturbador, repressor e condicionador junto ao espectador que insiste em compreendê-lo a partir de, apenas, um determinado ponto de vista. A direção minimalista de Ricardo Mehedff desenha um dia na vida de um Juiz criminal ciente de seus deveres e obrigações e, por conta disso, se vê enclausurado em um fórum onde é submetido a uma rotina desidiosa, ininterruptamente vigiado por seguranças armados e ameaçado de morte pelos que estão sob o seu julgamento.


Baseado em fatos reais, “Foro Íntimo” retrata o potencial da verve perversa de Mehedff induzindo o espectador a um estado de anóxia, pelo simples fato do protagonista seguir à risca os protocolos jurídicos e, consequentemente, abrir mão de sua liberdade e do seu convívio familiar por conta da investigação sobre 100 quilos de pasta base de cocaína encontrados em um ônibus da frota de um senador.

Seu timing lento, em estilo cine arte meio cult, “Foro Íntimo” permite o espectador sentir toda a angústia do protagonista, cadenciado pelas imagens P&B, através de uma diegese claustrofóbica extrema.

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Hebe – A Estrela do Brasil



O foco das atenções para assuntos ligados à política, à sexualidade, ao racismo, ao machismo e ao movimento feminista

Um filme engajado com a pauta de temas, infelizmente, ainda muito atuais – preconceito e censura – sob direção de Maurício Farias que, anacronicamente, elege o ano de 1985 e o rebate no plano de 2019, fixando o espectador no eixo de simetria. O ousado e voluntário confronto temporal, embora envolva o longa com ares de melancolia, seduz o espectador ao definir o foco das atenções para assuntos ligados à política, à sexualidade, ao racismo, ao machismo e ao movimento feminista.

O ringue dessa peleja é identificado no roteiro assinado por Carolina Kotscho que, longe de se tratar de uma cinebiografia segundo os padrões tradicionais, discorre sobre um determinado segmento da vida da apresentadora, cantora, radialista, humorista e atriz – Hebe Camargo. Um período em que debates ao vivo realimentam as chamas fascistas da ditadura brasileira que acabara dar lugar à retomada de um processo democrático. Um breve hiato de tempo durante o qual, a "Rainha da Televisão Brasileira" decide se poupar dos holofotes para dedicar uma fração maior de seu tempo ao relacionamento familiar.

“Hebe - A Estrela do Brasil” brilha, não somente pelo cintilar das jóias, dos vestidos e do cenário da apresentadora, mas a começar pelas impecáveis interpretações de todo o elenco – em especial, Andréa Beltrão que, consegue levar para as telas a essência de uma Hebe Camargo que se traduz no olhar, no gestual, no porte, no andar e na humanidade da protagonista. De tudo isso, não se pode omitir o indissociável peso da direção de fotografia e de iluminação no crescimento dos personagens coadjuvantes, com rara dignidade.

Em ritmo conciso, “Hebe - A Estrela do Brasil” se faz presente, nos tempos atuais, como um brado de esperança, em ritmo de um tão almejado ‘Começar de Novo’.

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Ad Astra - Rumo às Estrelas



Admiravelmente metódico, futurista, triste e reflexivo, em meio a uma atmosfera sombria, indagativa e desconstrutiva do ser


Num futuro próximo, o visionarismo se faz vitorioso, mais uma vez, na história da humanidade, possibilitando a recriação de um novo lar, longe de todas as mazelas que vêm assolando o planeta Terra, decorrentes do retrocesso e pela desordem. Viagens espaciais se tornam tão banais a ponto de refletirem cenas do cotidiano terrestre em solo lunar que, apesar da incredulidade dos fatos pelos menos esclarecidos, em 21 de julho de 1969, foi pisado, pela primeira vez, pelos astronautas norte-americanos Neil Armstrong e Buzz Aldrin. Incrédulos que, na contramão dos avanços da ciência desde a Idade Média, em alguns pontos do planeta, atualmente, põem em cheque, até mesmo, a sua forma geométrica.

O major do Comando Espacial da agência do Governo Federal dos Estados Unidos da América – Administração Nacional da Aeronáutica e Espaço – McBride (Brad Pitt) faz da Lua um trampolim para chegar a Netuno, onde seu pai – Clifford (Tommy Lee Jones), se encontra em órbita, em uma estação espacial, há trinta anos. Sua meta – localizá-lo e entregar-lhe uma mensagem da NASA. Durante o percurso origem-destino, a viagem de McBride se desdobra e o impulsiona numa imersão em autoconhecimento. A lentidão associada às conexões emocionais obtusas, contidas na direção de James Gray, confere ao filme “Ad Astra – Rumo às Estrelas” gravame, acepção e magnificência sobre questões do universo interior e exterior do ser humano, resgatando estilos cênicos e questionamentos kubrickianos e asimovianos, do final dos anos 1960.

O desenrolar suave e enganosamente simples do longa é admiravelmente metódico, futurista, triste e reflexivo, em meio a uma atmosfera sombria, indagativa e desconstrutiva do ser. O viés filosófico especulativo, robusto e impetuoso é forte o suficiente para envolver o espectador a ponto de abstraí-lo dos efeitos especiais e demovê-lo de qualquer expectativa pelo surgimento de uma criatura extraterrena, monstruosa e ameaçadora.

De fato, “Ad Astra – Rumo às Estrelas” está longe de ser um filme, essencialmente, de ficção científica, mas carregado de entrelinhas que devem ser digeridas pelo espectador, de modo a lhe permitir uma compreensão da vida, muito maior do que seus olhos podem ver o que se passa na tela.

domingo, 22 de setembro de 2019

Casacor Rio 2019




Gisele Taranto Arquitetura - Ch’a Bar
Leo Romano - Clube Leo
Márcia e Manu Müller Arquitetura - Sala da Colecionadora
Jean De Just - Muito Além da Cozinha
Claudia Pimenta e Patrícia Franco - Oasis Carioca

ArtRio 2019




Zipper Galeria
Simone Cadinelli Arte
Galeria Aura
Galeria Mapa
Cavalo
Galeria Superfície
Galeria Inox
Leme/AD
Verve
Mult.Ti.Plo Espaço Arte
Carbono Galeria
Casa Triângulo
Galeria Luisa Strina
Galeria Estação
Hilda Araujo Escritório de Arte
Bergamin e Gomide
Simões de Assis Galeria de Arte / Sim Galeria
Marcia Barrozo do Amaral Galeria de Arte 
Galeria Sur

sábado, 21 de setembro de 2019

ArtRio 2019




Celma Albuquerque
Galeria Athena
Anita Schwartz Galeria de Arte
Fortes D’Aloia e Gabriel
Galeria Frente
Fólio
Almeida e Dale Galeria de Arte
Pinakotheke
Paulo Zuczynski Escritório de Arte
Ronie Mesquita Galeria
Silvia Cintra +Box 4
Galeria Nara Roesler

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

ArtRio 2019



Gustavo Rebello Arte
Galeria de Arte Ipanema
Lurixs Arte Contemporânea
Dan Galeria
A Gentil Carioca
Vermelho
Galeria Karla Osorio
Roberto Alban Galeria
Portas Vilaseca Galeria
Galeria Mário Cohen 
Cassia Bomeny Galeria
Martha Pagy Escritório de Arte
C.Galeria

Movimento Arte Contemporânea

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

O Substituto



A essência do espetáculo se manifesta no âmbito do intelecto


A estética expressionista de Alexandre Lino, intuitivamente, adaptada ao cenário educacional atual, forja o desapego de um professor substituto com a democracia diante de uma tempestade de absurdos contidos no texto, politicamente detrator, de Daniel Porto.

Extraindo o máximo da engenhosa e impiedosa direção de Maria Maya, o espetáculo “O Substituto” aborda a história de um docente, por vocação, de um estabelecimento de ensino que precisa, não somente, apresentar as novas diretrizes educacionais impostas pela, então, secretaria de educação, mas também contar com o apoio dos responsáveis pelos alunos. A superficialidade da narrativa proposta pelo professor se metamorfoseia num verdadeiro e compensador exercício de tolerância por parte do espectador – seja ele de qualquer posicionamento político – uma vez que, a essência do espetáculo se manifesta no âmbito do intelecto.

A lugubridade subjacente é simbolicamente acentuada pelo desenho de luz de Paulo Denizot que resgata a atmosfera de tortura – presente em alguma repartição administrativa responsável pelo estabelecimento de ordem política e social do passado – pungente e solitária. Karlla de Luca assina a concepção cenográfica, minimalista porém, emblemática, composta por uma lousa – riscada à giz, com dizeres anacrônicos, retrógrados e alusivos à contemporaneidade de fatos, lançada no mesmo plano do chão onde pisa o professor – sobre a qual repousa a carcaça de algo que, um dia, fora uma carteira escolar – uma sala de aula lotada de gente porém, vazia enquanto ideias, coerência e potencial progressista. Acrescenta-se à contribuição técnica de Luca, o figurino marcado pela neutralidade do desapego e pela adequação à realidade sombria do ofício, cuja relevância vem se perdendo há cerca de meio século.

A obsolência melancólica das instituições de ensino como alicerce da formação das crianças, adolescentes e jovens adultos é flagrante em “O Substituto” – uma tragédia humana obstinada pela aniquilação do senso crítico, cujo processo passa pela revisão dos livros sob a intervenção do fascismo.

Depois do Casamento



“Um grande negócio filantrópico”


Como se em dificuldade de expor, ao espectador, os detalhes de sua nova empreitada, o diretor Bart Freundlich recheia o longa “Depois do Casamento” com uma diversidade de emoções porém, incapazes de contagiar os personagens que se limitam ao papel de promissores intérpretes – fortemente engessados, dentro de uma história na qual Isabel (Michelle Williams) – uma norte-americana que trabalha em um orfanato em Calcutá – viaja para Nova York, a convite de uma magnata da mídia – Theresa (Julianne Moore) – que encontra-se prestes a vender sua empresa e deseja doar US$ 2 milhões à instituição indiana.

Durante a primeira reunião na sede da empresa, em Manhattan, Theresa convida Isabel para o casamento de sua filha, Grace (Abby Quinn), na casa da família, em Long Island, no dia seguinte. A chegada da humanitária à propriedade de sua futura doadora e de seu marido - o artista plástico Oscar (Billy Crudup) – desencadeia uma cascata de eventos que, num primeiro momento, deveriam apelar para a dramaticidade mas, de fato, se configuram em “um grande negócio filantrópico”.

As conexões entre os envolvidos transmitem fragilidade, enquanto deveriam ser avassaladoras. A moral da história não floresce, tampouco o roteiro é capaz de transmitir , com detalhes suficientes, o passado dos personagens. O drama não sustenta as razões da produção do longa, agravado pelo fato de ser um remake do filme homônimo dinamarquês de 2006, dirigido por Susanne Bier.

A debilidade presente no confronto entre a luta dos muito pobres pela sobrevivência e a angústia emocional dos muito ricos para se tornarem mais ricos, faz com que a versão sem idealismo de “Depois do Casamento” de Freundlich, seja uma forte candidata ao preenchimento de grade de programação vespertina de TV aberta.

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Midsommar - O Mal Não Espera a Noite



Uma experiência conceitual – descomedida, perturbadora e visceral


Cenas de terror psicológico transpõem um cenário urbano, lugubremente encerrado e que, posteriormente, se revelam em meio a uma paisagem rural sueca, resplandecente por um sol que não se põe. Tão brevemente quanto um prólogo, uma tragédia familiar abate a jovem Dani (Florence Pugh) de tal forma que a faz com que se entregue a uma aventura, às cegas, na companhia de seu namorado Christian (Jack Reynor) e de dois amigos deste – férias durante as quais, participariam da celebração do solstício de verão em um lugarejo na Suécia. Ao longo de toda a festividade do Midsommar, conluio ardiloso e perigo aterrorizante fecham o cerco dos companheiros estrangeiros.

A moderna técnica de direção de Ari Aster aplicada ao longa “Midsommar - O Mal Não Espera a Noite” contempla uma clareza de imagens que estimulam o intelecto do espectador atento e que lhe concede distintos e subjetivos pontos de vista, sob o efeito psicodélico que paira durante todo o desenrolar da trama. O horror desenhado para ‘Midsommar’ é insólito, velado e sombrio, definindo uma pluralidade de meios de se encarar a vida.

Ao corromper as expectativas do espectador a partir de incertezas puramente psicológicas, Aster reinventa a receita do terror, sob a luz do sol sueco que, por um par de meses, não se apaga. Embora certos aspectos da história não sejam revelados até o seu final enigmático, o espectador participa do passo a passo retrospectivo de um início aterrorizante até o seu derradeiro clímax.

O brilhantismo do longa se revela através da materialização do egoísmo, da crueldade e da irônica exposição da essência de cada personagem, dentre protagonistas e coadjuvantes, lhes conferindo uma experiência conceitual – descomedida, perturbadora e visceral. Cenas, tão generosas em sua extensão, capacitam o espectador se arriscar no campo das deduções, mesmo sentindo-se assustado, até mesmo, ameaçado, diante do descomunal fanatismo religioso e de seus efeitos maléficos contemplando a mente humana.

‘Midsommar’ não transmite uma mensagem positiva, tampouco soluções capazes de combater problemas, sejam eles existenciais  ou do cotidiano. A teoria antropológica contida no longa enfatiza a organização social e a natureza da cultura, desenvolvidas à frente de belas paisagens ensolaradas, sob céu azul e brilhante, em meio a flores viçosas, das mais variadas cores, que intensificam trevas que habitam os seres humanos e que, nenhuma religião ou seita, são fortes, o suficiente, para conduzi-los à luz da salvação.

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Casacor Rio 2019




Cristina Cortês e Cláudia Sant'Anna – Loft do Casal Ciclista
Diego Raposo e Arquitetos – Estúdio do Viajante
Lívia Quintella e Ricardo Guttemberg – Casa Zoo
Toca Arquitetura Paula Pupo e Natália Lemos – Estúdio Elã
Paula Neder e Coletivo PN+ – Estúdio Hum para Leroy Merlin

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Quem Você Pensa Que Sou




Narrativa faz com que o espectador se perca em um labirinto de emoções, palavras e incertezas

O rompimento de um casamento de longa data seguido pelo abandono de uma mulher de meia idade pelo seu jovem namorado frustram os anseios pelo recomeço de sua vida amorosa – status emocional de uma professora de literatura que, no momento de sua vida abordado pelo longa “Quem Você Pensa Que Sou”, analisa o romance clássico de intriga sexual ‘Ligações Perigosas’ de Choderlos de Laclos junto aos seus alunos. Trata-se de uma história contada com recursos de flashback, fartamente, durante sessão de psicoterapia da docente, durante a qual discorre sobre as dificuldades em aceitar a visão de si mesma, através da qual acredita não mais ser desejada pelos homens.


O sexto longa do diretor francês Safy Nebbou, que também assina o roteiro, se baseia em um romance de Camille Laurens ‘Who You Think I Am’, cuja narrativa faz com que o espectador se perca em um labirinto de emoções, palavras e incertezas. A protagonista, dotada de surpreendentes nuances emocionais, é um prato cheio para o potencial interpretativo de Juliette Binoche, que se entrega à personagem com braçadas longas e precisas num mar de amoralidade, com requintes de elegância na articulação de vingança, com potencial ardiloso para o estímulo de tentações e com surpreendente candura enquanto dedicada à criminalidade virtual. Dessa forma, Binoche dá forma a Clara e a conduz de forma tal que a permite transitar, sobriamente, sob profundo êxtase existencial estimulado pelo desejo por homens mais novos.

A impiedosa forma de relato sobre a proliferação das mídias sociais no mundo moderno faz com que o longa pareça destinado a enraizar o desejo, aparentemente universal, do compartilhamento daquilo que se supõe ser e ter, envolvendo indivíduos incrédulos de seus valores quando não mascarados por uma conexão wi-fi. Portanto, a história se abstém da apresentação de um herói ou de uma vítima, mesmo sob a ameaça de um mecanismo rancoroso, mas se permite chafurdar em uma patologia virtual contemporânea em crescimento exponencial, maquiada por um falso visagismo apelidado de fuga, dotado de forte capacidade de ilusão contra a ameaça da realidade.

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Casacor Rio 2019



Lia Lamego – Espaço de Fragrâncias
Alexandre Lobo & Fábio Cardoso – Loft Premium
Mariana Magalhães Costa – Loja da Casa
Sergio Novaes – Livraria
Jacira Pinheiro – Casa DOA



domingo, 8 de setembro de 2019

Maurício Manieri - Classics



Genuína viagem no tempo, com versões de grandes sucessos nacionais e internacionais dos anos 1970 até a atualidade


Noite de sexta-feira, 6 de setembro de 2019, sobe ao palco do Teatro VillageMall, no Rio de Janeiro, Maurício Manieri –  cantor, compositor, pianista clássico, arranjador e produtor musical São Bernardense de ascendência italiana, cuja formação musical clássica o permitiu enveredar, com muita segurança, pelo POP, MPB e soul, ao longo de sua carreira. A partir dos anos 1990, o trabalho de Manieri passa a ser revelado a um público que, juntamente com gerações que o sucede, faz parte de um fã-clube que acolhe o artista sob manifestações dignas de um pop star.

Simpatia, carisma, reciprocidade frente às manifestações de carinho recebidas e generosidade para com a extensão e qualidade técnica do show do compositor de sucessos consagrados – tais como: ‘Bem Querer’, ‘Te Quero Tanto’ e ‘Se Quer Saber’, dentre outros – são qualidades que  imprime em seu ‘Classics’, cuja turnê promove genuína viagem no tempo, com versões de grandes sucessos nacionais e internacionais dos anos 1970 até a atualidade.

Descortinando o palco do Teatro Vilagemall, Manieri abre o espetáculo com ‘O Melhor Vai Começar’ (Guilherme Arantes), seguindo com a música que dá título à turnê -  ‘Classics’ (Adrian Gurvitz), provocando intensas manifestações de descontrole emocional por parte dos fãs, a cada número. Tais reações são potencializadas quando do convite do artista para que suas fãs compartilhem de uma dança, em pleno palco, ao som das consagradas ‘Mandy’ (Barry Manilow), All Out Of Love (Air Supply), ‘Cruisin’ (Smokey Robinson) e outras mais, que levam a plateia ao delírio, numa atmosfera de bailinho de garagem, típico dos anos 1980.

Manieri, que tem em seu currículo a interpretação de várias músicas de trilhas sonoras de novelas e de longas metragens, tais como: ‘Pop Star’ (Xuxa) e ‘Eldorado’ (Disney), de forma extremamente elegante, convida a sua backing vocal Patricia Fernandez para fazer, com ele, um dueto, dando uma trégua ao saudosismo – marca da turnê ‘Classics’ – dando um toque de contemporaneidade ao show, com a emocionante interpretação de ‘Shallow’ (Bradley Cooper e Lady Gaga).

Proximamente ao término do espetáculo, Manieri é surpreendido com um bolo de aniversário, levado pelo seu filho Marco, de nove anos de idade, em comemoração antecipada aos seus 49 anos, repleta de clima familiar, agraciado pela presença de amigos na plateia, tais como: Marcos Pasquim, Babi Xavier e Fábio Villa Verde que, juntamente com seus fãs, entoam um genuíno ‘Parabéns pra Você’, seguindo, em coro dançante ao som de ‘The Best’ (Tina Turner), conduzida pelo incansável artista pop.

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

IT - Capítulo 2



Os traumas geracionais e o inesquecível horror presentes na obra formata o longa com marcas perturbadoras, violentas ao extremo, hemorragicamente cruéis e desconfortável conteúdo psicológico


Vinte e sete anos após sinistros acontecimentos, ocorridos na cidade fictícia de Derry, que levam sete crianças a fundarem o “Clube dos Perdedores”, o misterioso local se torna, mais uma vez, o cenário dos membros da confraria, composta pelos, já adultos, Mike (Isaiah Mustafa), Bill (James McAvoy), Beverly (Jessica Chastain) e Ben (Jay Ryan), Richie (Bill Hader), Eddie (James Ransone) e Stanley (Andy Bean). No passado, ainda adolescentes, além de lidar com o preconceito e com a opressão que toma conta da pequena cidade, se viram face a face com um ser demoníaco comedor de crianças e que assumia, quase sempre, a forma de um Clown denominado Pennywise (Bill Skarsgård) – fatos que os marcaram com profundas cicatrizes físicas e psicológicas.

A partir dessa fórmula, o cineasta argentino Andy Muschietti assina a direção da adaptação homônima para o cinema do segundo capítulo do romance de Stephen King – “It”, lançando mão da carga exagerada dos exageros, relativamente aos protagonistas, da mesma forma que o fez com o primeiro capítulo “IT – A Coisa”, lançado em 2017 – longos em sua duração e intensos na sua dose de terror.

Os traumas geracionais e o inesquecível horror presentes na obra formata o longa com marcas perturbadoras, violentas ao extremo, hemorragicamente cruéis e desconfortável conteúdo psicológico. Ao abordar temas sobre as lembranças e traumas da infância IT explora a fragilidade da inocência humana representada pela imagem de um Clown. A familiarização com a obra original de Stephen King concede, vagamente, ao espectador, uma percepção onde o roteiro de Gary Dauberman pretende chegar mas, lamentavelmente, não permite que a produção deslumbre, o suficiente, em se tratando de um sequência final de um filme que, apesar de valer a pena assistir, mas que não induz a plateia flutuar em meio à complexidade de Pennywise.

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Ouro Branco




“...pela sugestão do início e do fim de um pesadelo aterrorizador, do qual não se acorda; pela indução da plateia ao questionamento sobre o quanto se trata de um projeto de vida no purgatório ou de uma vida que se queima no inferno; ...”

Sem adentrar nas questões legais e administrativas das repartições públicas, mas dissecando o dia após dia vivenciado pelos seus recursos humanos, da mesma forma que seus planos de vida e suas expectativas relativas ao reconhecimento de seus superiores frente à dedicação dos servidores ao ofício, o espetáculo “Ouro Branco”, sucintamente, revela a desimportância de alguns daqueles serviços para o público, seja ele municipal, estadual ou federal.


Os elementos contidos na dramaturgia de André Ladeia são inerentes a um código de ética peculiar aos protagonistas, que discursam as suas amarguras em um pequeno e claustrofóbico escritório de uma repartição pública. Seus semblantes cadavéricos estampam renúncias e frustrações – frutos da busca pela estabilidade de emprego, da ambição por planos de carreira, e da resignação frente às limitações impostas por uma opção de vida. Uma trilha cuja prosperidade, muitas vezes, é combalida pela injustiça e pela burocracia que se impõem por meio de regras, capazes de ofuscar caminhos que possam conduzir a metas profissionais, muitas vezes, iluminados em favor de uma minoria privilegiada por preferências ou por indicações políticas. 

O dissabor dos servidores ganha horizonte sob a direção de André Gonçalves, que satisfaz as indagações do espectador relativamente a ética e a deveres morais que deveriam, supostamente, ser parte integrante das engrenagens públicas. Num primeiro momento, o espetáculo desenvolve o poder hierárquico, no qual o homem é explorado por um sistema que parece ter origem desde os tempos da escravidão, cujo grau de realidade, levada ao palco, se deve ao elenco composto por Charles Paraventi, Eduardo Gentil, Hilton Castro, Ícaro Galvão e Juliana Azevedo. Cada um, assumindo a carga de responsabilidade que lhe cabe enquanto personagens, potencializando as percepções interpessoais junto à plateia vitimada, na vida real, pelo sistema dramatizado no palco.
Uma quádrupla aliança transforma o palco em um portal através do qual o espectador é transportado da vida real para uma realidade nua e crua – projeto cenográfico, desenho de luz, figurino e visagismo assinados, respectivamente, por Marcos Flaksman, Aurélio de Simoni, Bidi Bujnowski e Nathalia Cavalcanti. Uma coligação responsável pela materialização do interior do local reconhecido pelo nome de repartição; pela sugestão do início e do fim de um pesadelo aterrorizador, do qual não se acorda; pela indução da plateia ao questionamento sobre o quanto se trata de um projeto de vida no purgatório ou de uma vida que se queima no inferno; pelo desfile de indumentária de gosto e qualidade duvidosa, marcada pelo desalinho evidenciado pelo suor extraído dos funcionários; pelo desconforto térmico e pela luminosidade em desacordo com a acuidade visual laborativa necessária ao ser humano; pela metamorfose de seres vivos em seres em decomposição, ainda em vida.

A definição organizacional é envolvida pela trilha sonora de Paula Raia e Fellipe Mesquita, responsável por detonar os conflitos e divergências de opiniões e por potencializar a credibilidade, ao longo dos expedientes, aos quais são submetidos cada um dos personagens. A estrutura visível sustentada pelo elenco, durante o espetáculo, conta com o alicerce definido pela direção de movimento de Bel Machado, fortalecendo o espectador para administrar o despreparo, o desestímulo e a insatisfação, que dentro do contexto de Machado, não compreende o interesse por uma gestão democrática.

O Estado Democrático de Direito, presente nas entrelinhas de “Ouro Branco”, não atua em acordo com os preceitos constitucionais, quando a finalidade do serviço público é deturpada e passa a contar com atos fraudulentos e corruptos, prejudicando a sociedade e manchando a imagem do país no âmbito nacional e internacional.

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Casacor Rio 2019




Casacor Rio 2019

RG Arquitetura Rodrigo Barbosa – Pier 21
Isabelle Cassani – Lavabo Público
Leila Bittencourt – Loft Coral
Maurício Nóbrega – Varanda DECA
Duda Porto – Nau