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sábado, 28 de setembro de 2019

Monstros




Mexe com traumas e deixa um legado marcado por cicatrizes

Perpetuada por instinto, por compulsão ou pela forte sugestão das opiniões de terceiros que passam pela experiência, a reprodução da espécie humana, compreendida como tornar-se mãe ou pai de um ser “do mesmo sangue”, assume o caráter de dever ou de obrigação sob a bênção de um manto divino, concedendo aos progenitores a graça de uma força sobrenatural, que confere à sua prole o status de presentes de Deus.


“Monstros” – o primeiro musical argentino contemporâneo apresentado no Brasil, redefine, de forma implosiva, a cultura do “crescei e multiplicai-vos”. O ousado, impactante e reconfortante texto, assinado pelo dramaturgo argentino Emiliano Dionisi, inspira a direção de Victor Garcia Peralta que exorta sobre os sacrifícios que um homem e uma mulher são induzidos a suportar em nome de um ‘amor incondicional’.

“Monstros” apresenta duas histórias que assumem o status de desabafo pessoal de Cláudio e Sandra – dois adultos que se cruzam, casualmente, pelo fato fortuito de seus filhos estudarem no mesmo colégio. Ambos se orgulham de seus rebentos a ponto de considerá-los contemplados com intelecto e capacidade cognitiva acima da média e, consequentemente, os consideram como, verdadeiramente, especiais. Porém, não percebem que estão despertando os monstros que habitam o interior de todos os envolvidos.

Claudio Lins e Soraya Ravenle assumem o papel da progenitura – com todos os sabores e dissabores que a vida lhe reserva –  e constroem, de forma fundamentada, a operação psíquica do efeito genético de seus respectivos filhos e a influência dos dois na expressiva subjetividade contida na essência de ser papai e mamãe. A fantasiosa busca da configuração familiar, impregnada de harmonia e de felicidade, conta com a fantasmática trilha sonora de Martin Rodriguez, capaz de traduzir as mensagens presentes em  cada cena. Seguindo a lógica da tortura contida na paternidade e na maternidade, Fernando Rubio concebe um cenário escultórico e minimalista, instalando, no palco, um monumental grampo sargento utilizado para fixar peças de marcenaria e serralheria – possivelmente, sugerindo as dores sentidas pela compressão exercida pelas obrigações ocultas e mercantilizadas pelas bênçãos devidas à graça divina pela capacidade que lhes foram dadas com vistas à perpetuação de suas genéticas. A frustrante e dolorosa empatia do espectador com os protagonistas é conferida pelo figurino de Claudio Tovar, que processa a desumana e natural patologização de indivíduos que podem estar sentados lado a lado, na plateia, durante todo o espetáculo. O desenho de luz de Maneco Quinderé é limitador do foco na vida, a ponto de ocultar as mazelas na penumbra e, com isso, possivelmente instigar a curiosidade daqueles que caem no conto da incondicionalidade dos filhos como agentes do sentido à vida.

“Monstros” mexe com traumas e deixa um legado marcado por cicatrizes.

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