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quinta-feira, 19 de setembro de 2019

O Substituto



A essência do espetáculo se manifesta no âmbito do intelecto


A estética expressionista de Alexandre Lino, intuitivamente, adaptada ao cenário educacional atual, forja o desapego de um professor substituto com a democracia diante de uma tempestade de absurdos contidos no texto, politicamente detrator, de Daniel Porto.

Extraindo o máximo da engenhosa e impiedosa direção de Maria Maya, o espetáculo “O Substituto” aborda a história de um docente, por vocação, de um estabelecimento de ensino que precisa, não somente, apresentar as novas diretrizes educacionais impostas pela, então, secretaria de educação, mas também contar com o apoio dos responsáveis pelos alunos. A superficialidade da narrativa proposta pelo professor se metamorfoseia num verdadeiro e compensador exercício de tolerância por parte do espectador – seja ele de qualquer posicionamento político – uma vez que, a essência do espetáculo se manifesta no âmbito do intelecto.

A lugubridade subjacente é simbolicamente acentuada pelo desenho de luz de Paulo Denizot que resgata a atmosfera de tortura – presente em alguma repartição administrativa responsável pelo estabelecimento de ordem política e social do passado – pungente e solitária. Karlla de Luca assina a concepção cenográfica, minimalista porém, emblemática, composta por uma lousa – riscada à giz, com dizeres anacrônicos, retrógrados e alusivos à contemporaneidade de fatos, lançada no mesmo plano do chão onde pisa o professor – sobre a qual repousa a carcaça de algo que, um dia, fora uma carteira escolar – uma sala de aula lotada de gente porém, vazia enquanto ideias, coerência e potencial progressista. Acrescenta-se à contribuição técnica de Luca, o figurino marcado pela neutralidade do desapego e pela adequação à realidade sombria do ofício, cuja relevância vem se perdendo há cerca de meio século.

A obsolência melancólica das instituições de ensino como alicerce da formação das crianças, adolescentes e jovens adultos é flagrante em “O Substituto” – uma tragédia humana obstinada pela aniquilação do senso crítico, cujo processo passa pela revisão dos livros sob a intervenção do fascismo.

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