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quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Ouro Branco




“...pela sugestão do início e do fim de um pesadelo aterrorizador, do qual não se acorda; pela indução da plateia ao questionamento sobre o quanto se trata de um projeto de vida no purgatório ou de uma vida que se queima no inferno; ...”

Sem adentrar nas questões legais e administrativas das repartições públicas, mas dissecando o dia após dia vivenciado pelos seus recursos humanos, da mesma forma que seus planos de vida e suas expectativas relativas ao reconhecimento de seus superiores frente à dedicação dos servidores ao ofício, o espetáculo “Ouro Branco”, sucintamente, revela a desimportância de alguns daqueles serviços para o público, seja ele municipal, estadual ou federal.


Os elementos contidos na dramaturgia de André Ladeia são inerentes a um código de ética peculiar aos protagonistas, que discursam as suas amarguras em um pequeno e claustrofóbico escritório de uma repartição pública. Seus semblantes cadavéricos estampam renúncias e frustrações – frutos da busca pela estabilidade de emprego, da ambição por planos de carreira, e da resignação frente às limitações impostas por uma opção de vida. Uma trilha cuja prosperidade, muitas vezes, é combalida pela injustiça e pela burocracia que se impõem por meio de regras, capazes de ofuscar caminhos que possam conduzir a metas profissionais, muitas vezes, iluminados em favor de uma minoria privilegiada por preferências ou por indicações políticas. 

O dissabor dos servidores ganha horizonte sob a direção de André Gonçalves, que satisfaz as indagações do espectador relativamente a ética e a deveres morais que deveriam, supostamente, ser parte integrante das engrenagens públicas. Num primeiro momento, o espetáculo desenvolve o poder hierárquico, no qual o homem é explorado por um sistema que parece ter origem desde os tempos da escravidão, cujo grau de realidade, levada ao palco, se deve ao elenco composto por Charles Paraventi, Eduardo Gentil, Hilton Castro, Ícaro Galvão e Juliana Azevedo. Cada um, assumindo a carga de responsabilidade que lhe cabe enquanto personagens, potencializando as percepções interpessoais junto à plateia vitimada, na vida real, pelo sistema dramatizado no palco.
Uma quádrupla aliança transforma o palco em um portal através do qual o espectador é transportado da vida real para uma realidade nua e crua – projeto cenográfico, desenho de luz, figurino e visagismo assinados, respectivamente, por Marcos Flaksman, Aurélio de Simoni, Bidi Bujnowski e Nathalia Cavalcanti. Uma coligação responsável pela materialização do interior do local reconhecido pelo nome de repartição; pela sugestão do início e do fim de um pesadelo aterrorizador, do qual não se acorda; pela indução da plateia ao questionamento sobre o quanto se trata de um projeto de vida no purgatório ou de uma vida que se queima no inferno; pelo desfile de indumentária de gosto e qualidade duvidosa, marcada pelo desalinho evidenciado pelo suor extraído dos funcionários; pelo desconforto térmico e pela luminosidade em desacordo com a acuidade visual laborativa necessária ao ser humano; pela metamorfose de seres vivos em seres em decomposição, ainda em vida.

A definição organizacional é envolvida pela trilha sonora de Paula Raia e Fellipe Mesquita, responsável por detonar os conflitos e divergências de opiniões e por potencializar a credibilidade, ao longo dos expedientes, aos quais são submetidos cada um dos personagens. A estrutura visível sustentada pelo elenco, durante o espetáculo, conta com o alicerce definido pela direção de movimento de Bel Machado, fortalecendo o espectador para administrar o despreparo, o desestímulo e a insatisfação, que dentro do contexto de Machado, não compreende o interesse por uma gestão democrática.

O Estado Democrático de Direito, presente nas entrelinhas de “Ouro Branco”, não atua em acordo com os preceitos constitucionais, quando a finalidade do serviço público é deturpada e passa a contar com atos fraudulentos e corruptos, prejudicando a sociedade e manchando a imagem do país no âmbito nacional e internacional.

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