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domingo, 20 de outubro de 2019

Sylvia



A ilusória alma do bichinho cheio de vontades – desenhado sem pelos num corpo bem torneado, como se a sua silhueta remetesse a de um Cocker Spaniel

Uma cadelinha – cuja classificação etária pode defini-la ainda como filhote que, por sua vez, transborda em impulsividade e em egoísmo instintivo – torna-se coerentemente encantadora ao ser incorporada pela atriz Simone Zucato e concede o seu nome ao título do espetáculo dirigido com extrema candura por Gustavo Wabner – “Sylvia”.

Sem qualquer vestígio de pudor, Sylvia fareja virilhas das visitas, se impõe de forma ameaçadora frente a gatos e, em franco exibicionismo de sua nata crueldade canina, devasta a ordem e corrompe o princípio de asseio da casa como um tsunami. Seu comportamento desencadeia o que há de mais selvagem na psiquê do casal formado por Greg – modelado, despretensiosa e confortavelmente, por Alexandre Dantas, como o marido que se permitiu vulnerabilizar pela paixão pela cadela sem lar Sylvia – e Kate – a esposa centrada, capaz de controlar os seus afetos a partir de uma visão clara entre razão, paixão incorporada e tocante sensibilidade, pela atriz Cláudia Ventura. Greg retrata o típico homem bem sucedido porém, infeliz profissional e emocionalmente, acometido, juntamente com Kate, pela síndrome do ninho vazio após a saída de seus filhos de casa, com vistas à condução de suas próprias vidas. Diante desse quadro, repleto de fragilidade emocional, Greg encontra consolo em Sylvia, ao resgatá-la em uma praça e levá-la para casa, para o terror de Kate, que encara a sua nova fase de vida, sem os filhos em casa, como uma oportunidade de um recomeço sem amarras, sequer pela adoção de um cão.

O texto de A.R. Gurney lança mão da cativante figura canina para discorrer, de forma leve e poética, sobre a socialização durante a crise de meia-idade do marido e a insensibilidade da esposa diante da crise existencial do companheiro. A liberdade poética presente na tradução de Simone Zucato, abre campo para que Wabner canalize a energia selvagem da história e filtre o seu teor misógino e sexista, aparentemente, latente na obra de 1995. Contribuindo para com a  atenuação dos momentos de conflito entre o casal, o ator comediante Rodrigo Fagundes se desdobra em três personagens que sustentam o termo comédia, da classificação do espetáculo como romântico – o machão, dono de um cão; a requintada amiga de Kate; e o terapeuta, cuja indefinição sobre sua sexualidade fica por conta de sua marcante androginia. A precisão contida na evolução do espetáculo é muito bem acomodada pelo cenário poli temático de Camila Schimtz que modula a exasperação estridente, muito próximo ao caos de um lar doce lar - uma perfeita sobreposição alternante de interior com exterior, presente durante todo o espetáculo. A mulher-animal, embora tenha a sua mística conectada à humanização dos seres vivos, parece bem analisada pelo figurino de Marcelo Marques, que brinca com essa presunção, sem domesticar a ideia feminista. A sombria psicopatia, com tendências bestiais, é atenuada pelo equilibrado e lúdico desenho de luz de Wagner Freire que contempla, respeitosamente, o fluxo das passagens sensuais, com muita consciência e respeito para com o espectador. Seja durante a prática de um certo Le Parkour pelos quatro cantos do apartamento do casal, nos momentos que dedica a lamber seu dono ou à destruição dos sapatos de Kate, Sylvia baila ao som da trilha sonora de Daniel Maia, que confere o afloramento d’alma do belo animalzinho de estimação e, porque não dizer, um certo apelo sexual. O embaraçoso comportamento instintivo e primitivo de Sylvia conta com a direção de movimento de Sueli Guerra, que exibe, de maneira sutil e, algumas vezes desconcertantes, as peripécias da cativante cadelinha. A ilusória alma do bichinho cheio de vontades – desenhado sem pelos num corpo bem torneado, como se a sua silhueta remetesse a de um Cocker Spaniel – é muito bem dimensionada pelo visagismo de Tainá Lasmar.

“Sylvia” fala do amor interespécies, das pessoas que antropomorfizam seus animais e esquecem de categorizar os seres pensantes com os quais se deparam todos os dias – em casa, nas ruas e pela vida a fora.

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Malévola: Dona do Mal



Uma produção generosa, cheia de mensagens subliminares e com grande potencial de se tornar uma franquia longeva


A partir de “Malévola: Dona do Mal”, é possível compreender a ambição da Walt Disney Pictures quanto ao provável desenvolvimento de uma saga – aparentemente baseada no clássico de animação “A Bela Adormecida”, de 1959 – que tem como embrião o live-action “Malévola”, de 2014.

O viés infanto-juvenil integrante do mundo da fantasia de “A Bela Adormecida”, que segue a fórmula do conto de fadas no qual uma pobre menina encontra toda a sorte de barreiras para realizar seu sonho, até que, após uma batalha contra o mal, um príncipe encantado a resgata da amargura ou de um sono profundo e vivem felizes para sempre – uma livre adaptação de contos originais seculares, no caso da história da princesa Aurora – de Disney, que remonta às versões de Giambattista Basile (1634), de Charles Perrault (1697) e dos irmãos Grimm (1821).

Considerando-se o potencial criativo dedicado à versão animada de 1959, capaz de subtrair os assuntos tabus para o público infanto-juvenil das obras de Basile e Perrault, as versões live-action resgatam a essência do mundo da fantasia e investe na filosofia dos mundos das fadas e dos humanos e na psicologia dos personagens, lhes conferindo surpreendentes redefinições de papéis e de suas atribuições enquanto heróis e vilões.

“Malévola: Dona do Mal” dá continuidade à desconstrução dos paradigmas aos quais todos foram induzidos a conceber como verdade – como Aurora ser despertada de seu sono profundo por um beijo de amor que, no live-action de 2014, teve como agente, ninguém menos que, Malévola, em vez de um beijo por parte do príncipe Philip.

Laços de afinidade, que acabaram unindo Aurora (Elle Fanning) a Malévola (Angelina Jolie) numa relação de mãe e filha, deram frutos para a formação de uma nova família, triangulada pelo corvo Diaval (Sam Riley). Com isso, Aurora se torna a rainha de Moors – um reino nos moldes de uma floresta encantada, habitado por fadas e outras criaturas, até então, governado por Malévola.

Ao contrário do final “e viveram felizes para sempre” da animação clássica, Aurora e o príncipe Philip (Harris Dickinson) não se casam após o despertar da princesa, mas anunciam seu casamento em “Malévola: Dona do Mal” – enlace que evidencia a tentativa de união entre os reinos das fadas e o dos humanos - mas que intensifica, aparentemente, os sentimentos maternos da rainha Ingrith (Michele Pfeifer) para com a futura esposa de seu filho Philip e acirra, a olhos vistos, a ira de Malévola frente ao desafio pela luta contra a possibilidade da perda do amor de Aurora.

O contraste entre o bem e o mal é evidenciado, não somente, através das cenas líricas e belicosas, mas também pelo contraste entre o cromatismo acentuado e a neutralidade da penumbra – tal e qual um prenúncio dicotômico entre Sol e Lua, promovendo ao espectador uma experiência digna de reflexão sobre a evolução dos contos de fadas e a dura realidade do mundo real contemporâneo.

“Malévola: Dona do Mal” é uma produção generosa, cheia de mensagens subliminares e com grande potencial de se tornar uma franquia longeva – quem sabe, a partir do fruto do amor entre Aurora e Philip.

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

A Luz no Fim do Mundo



Um aguçado sentido crítico


A longuíssima cena inicial do filme “A Luz no Fim do Mundo” já deixa bem claro que o espectador está servindo de cobaia para o estreante na cadeira do diretor – Casey Affleck, que também assina o roteiro do longa e nele, também atua.

Em uma barraca, à noite, Affleck inventa uma história de ninar para a sua filha adolescente e, tomado por intensa sutileza, conta as aventuras de uma raposa fêmea e de seu companheiro, abarcando no contexto, até mesmo, a Arca de Noé. Na metade do conto, a raposa fêmea perde o protagonismo, sendo este, repassado para o seu companheiro – desenhando, dessa forma, a descentralização da figura feminina. O fato é notoriamente percebido por sua filha, que lhe indaga se ela seria a única garota da sua espécie.

“A Luz no Fim do Mundo” revela um aguçado sentido crítico em um mundo pós-apocalíptico onde uma pandemia dizima a população feminina do planeta e, estranhamente, a sua filha se torna a única sobrevivente. Apesar de sã, para não ser tomada por ser capaz de transmitir a peste contraída somente pelas mulheres, a menina deve se comportar como um garoto. Por muito tempo, durante o filme, pai e filha são os únicos humanos na tela, em meio a uma paisagem desértica e assustadoramente estéril – obra do diretor de fotografia Adam Arkapaw que, através das imagens, impõe o drama necessário aos solitários personagens.

O ritmo arrastado negligencia a incongruência e a falta de lógica que justifiquem a ocorrência da hecatombe, mas constrói, lentamente, a relação pai e filha. As aparições repentinas de outros humanos se mostram ameaçadoras, pois não enxergam a jovem como um garoto - a despeito de seu disfarce, colocando a vida da menina em risco – em decorrência de que pode ser tomada como uma ameaça aos homens sobreviventes e de que nenhuma mulher deve permanecer viva após o surgimento da praga.

O posicionamento do longa “A Luz no Fim do Mundo” soa autocongratulatório, ao mesmo tempo machista, tendo em vista a abordagem de partir da visão do status do homem como provedor pois também é o homem quem protege, do mundo, o único ser do gênero feminino. Anna Pniowsky, como a filha que precisa se disfarçar de menino, não permite que o filme termine com essa impressão tão retrógrada. O seu olhar confiante, frio e avaliador desenha uma criança porém, cônscia da fluidez entre a maturidade e o que representa um mundo dominado somente por homens.

Mojo Mickybo



Dura realidade potencializada pela certeza da inexistência de heróis


No auge das sectárias adversidades vivenciadas em uma cidade no início dos anos 1970, dois meninos que crescem juntos compartilham o vislumbre de suas experiências através de seus olhares modelados pelo seriado televisivo ‘Batman e Robin’ e pelo longa metragem ‘Butch Cassidy e Sundance Kid’.

Com base nesse argumento, o espetáculo “Mojo Mickybo” mergulha no melancólico facciosismo causado pela guerra e por adversidades econômicas, sociais e religiosas que corrompem a amizade entre ambos – uma dura realidade potencializada pela certeza da inexistência de heróis que possam aplacá-la.

O texto de 1998, assinado pelo dramaturgo irlandês Owen Mccaferty – cuja montagem, sob a meticulosa direção de Diego Morais, é inédita nos palcos brasileiros – confere, ao espectador, primorosos momentos de embarque rumo ao passado, matizado por prazeres favorecidos pela inocência da infância. Não obstante – de forma incômoda e lastimável – em distintos momentos, o espectador atento, ao exercitar o seu olhar crítico, é capaz de traçar paralelos com o que se passa nas esferas político-econômicas atuais, com reflexos avassaladores nas relações sociais, uma vez que, a gradual evolução do potencial de colisão entre os dois amigos parece ser causada por diferentes persuasões ideológicas. Pedro Henrique Lopes, que dá vida a Mojo, também assina a adaptação do texto original de Mccaferty e parece polarizar o posicionamento geográfico dos seu personagem – o do "lado da estrada" e de Mickybo – o do "sobre a ponte", segundo um panorama entrelaçado por alusões e subtextos que ronda a ascensão da violência atrelada ao poder, de maneira sombria e contumaz.

As lentes nostálgicas da cândida meninice resgata e aflora a essência pueril integrantes d’alma dos atores Pedro Henrique Lopes e Cirillo Luna – no papel de Mickybo – diante de uma plateia contempladora que torce, em uníssono com os personagens, para que os super-heróis idolatrados pela dupla impeçam que a ameaça das bombas da guerra atinjam a sua cidade natal. Os interlúdios narrativos e a interpretação de Lopes e Luna assumem o status visual de um graphic novel frente ao cenário e figurino de Clívia Cohen e José Cohen – intensificando os momentos durante os quais o espectador decifra o tema amizade em uma sociedade turbulenta e repleta de privações sociais e emocionais – carregados no contraste entre sombras e luzes promovidos pelo desenho de luz de Paulo Cesar Medeiros, que se anuncia para o que veio anteriormente ao trágico epílogo e, se faz presente, em doses homeopáticas, como um irregular e desconfortável pano de fundo dos infortúnios enfrentados pelos protagonistas.

“Mojo Mickybo” contempla um rito de passagem que não ignora o que deveria ser ignorado e promove o adequado equilíbrio à temática a partir do olhar de duas crianças, ao mesmo tempo que oferece a ingênua constatação de que sequer Batman teria vez, nos dias atuais, como paladino da justiça.

O Enigma da Rosa




Instigante ao extremo

A filha mais nova de um casal desaparece e dela, pai, mãe e irmão ficam sem notícias, até o recebimento de uma carta anônima, lhes informando que, para tê-la de volta, em primeiro lugar, o autor da carta deveria ser recebido na casa da família, à noite, sem que as autoridades fossem acionadas. Uma vez na casa, o sequestrador dispõe todos em torno de uma mesa e condiciona a devolução da menina, à revelação de um segredo guardado por um dos membros da família. Desse ponto em diante, um por vez, profere uma passagem da vida, ignorada pelos demais – histórias consideradas pelo sequestrador, como confissões pelas quais não esperava. E a cada uma dessas confissões, o sequestrador aplica ao seu autor a pena da retaliação, até o momento que, enfim, lhe é revelado o segredo pelo qual tanto ansiava.


Apesar do ritmo previsível definido pelo roteiro, como se de um jogo da verdade, em momento algum, “O Enigma da Rosa” se enquadra no hall dos filmes enfadonhos capazes de abater o espectador pelo cansaço, tendo em vista ser instigante ao extremo, ao reunir toda a plateia da sala de projeção em torno da mesa de inquisição, juntamente com os três membros daquela família imersa em confidências e seu enigmático ‘visitante’. Tal crédito se deve ao ritmo definido pela direção de Josué Ramos ao manipular, com maestria, o misto de drama e suspense psicológico, contemplando os segredos ocultos que pululam a partir de uma abordagem fria sobre segredos de família.     

A cada segredo revelado, um castigo na mesma proporção do dano causado – um exercício do “olho por olho, dente por dente” ou do “aqui se faz, aqui se paga”. Dessa forma é conduzido “O Enigma da Rosa” a uma magnitude obscura de preceitos morais e éticos que servem de base estrutural entre pais e filhos - no longa, codificados a partir de um núcleo composto de pessoas unidas por um grau de parentesco e que moram juntas, em uma mesma casa mas, não se constitui, necessariamente, de um lar.

sábado, 12 de outubro de 2019

Brasilis - Um Espetáculo Circo da Turma da Mônica



‘Brasilis’ desempenha um papel complementar ao aprendizado e à formação acadêmica da criança, despertando o seu interesse pela cultura nacional num formato lúdico e interativo


A riqueza cultural do Brasil e respectivas regiões em que vivemos servem de fonte de inspiração para a concepção do musical “Brasilis - Circo da Turma da Mônica”, pelo cartunista, empresário e escritor brasileiro Maurício de Sousa. Com base na obra original de Christiano Metri e Rafael Calça, cujo foco é definido pela compreensão do real significado do termo ‘diversidade cultural’, ‘Brasilis’ desempenha um papel complementar ao aprendizado e à formação acadêmica da criança, despertando o seu interesse pela cultura nacional num formato lúdico e interativo.

Sob o céu estrelado de uma Vila chamada Abobrinha, Mônica, Magali, Cebolinha, Cascão e Chico Bento conversam sobre as diferenças entre cidade e roça, sob diversos aspectos, tais como: linguagem regional, vestuário, culinária, dança, credo e tradições que, costurados pelo fio condutor da diversidade cultural, formatam um espetáculo amigável para espectadores de todas as faixas etárias e de todas as gerações que vêm acompanhando o trabalho de Maurício de Sousa desde 1959.

A produção do espetáculo, que exercita o seu faro pelas artes infanto-juvenis, reinventa o humor da veterana atriz Fafi Siqueira e direciona seu talento para o público infantil, convidando-a para desempenhar o papel de Vó Dita, que participa da conversa junto à turminha e, amparada por toda a experiência conquistada pela idosa personagem, conta diversas histórias sobre as nossas origens, através dos indígenas e respectivos folclores, dos europeus e dos negros. Dessa forma, abre-se um leque de temas que formam a base de um espetáculo repleto de aventuras, conduzidas pela turma criada por Maurício de Sousa, com a participação especial dos personagens indígenas Papa-Capim e Jurema e da personagem afrodescendente, recentemente criada, Milena. A propriedade do argumento do espetáculo aliada ao conteúdo e à dinâmica do roteiro adaptado por Mauro Sousa, Pedro Cameron e Mauricio de Sousa Produções são ingredientes preciosos para a harmoniosa direção de Mauro de Sousa que confere, ao espetáculo, o status de um canal de entretenimento e de aprendizado que promove uma experiência inédita junto ao espectador mirim, como se hipnotizados por luzes, sons, cores, fantasia e uma overdose de realidade, levada ao palco, capaz de lhes garantir uma formação como cidadãos conscientes e livres de preconceito.

O regionalismo sócio-geográfico é rica e ludicamente estampado no palco pela cenografia de J.C. Serroni com pluralismo que dialoga com as variadas culturas presentes no território nacional. O figurino de Carol Barreto enaltece a riqueza inerente a cada uma das cinco regiões do país, e confere, aos números musicais, o perfeito diálogo com os movimentos dos artistas, sejam através das coreografias ou pela plástica que confere às vestimentas, juntamente com alegorias e complementos cenográficos, o status de esculturas em movimento.

‘Brasilis’ também conta com a inestimável presença de Paula Lima como cantora convidada e com a mais que adequada participação musical especial do Olodum, potencializando os números musicais de ‘Brasilis’ de tal forma a demonstrar o respeito da produção do espetáculo para com o seu público alvo que, certamente, sai da sala de espetáculos, enxertados com sementes capazes de formar indivíduos segundo princípios definidos pela ética, pela cidadania e pela dignidade que definem os deveres e direitos de todo ser humano.

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Projeto Gemini



A qualidade das imagens promovem cenas credibilíssimas a ponto de transportar o espectador para dentro da ação


A esgotada e previsível fórmula de se desenhar filmes de espionagem internacional – contemplando cenas de ação, muitas vezes hilárias, transformadas em façanhas caricatas – minada pela superficialidade no desenvolvimento do enredo, deprecia o mais novo trabalho do cineasta Ang Lee, intitulado “Projeto Gemini”.

A licença, historicamente concedida aos filmes de espionagem – relativamente às ousadas cenas de ação, que fazem parte da abertura – em “Projeto Gemini”, se faz presente ao qualificar Henry Brogan (Will Smith) como o protagonista sniper designado pela "Agência de Inteligência de Defesa" para cumprir uma missão, executada pelo atirador de elite com inconcebível e fantasiosa destreza – a despeito das inúmeras incríveis cenas subsequentes, dignas de tirar o fôlego dos mais céticos dentre os espectadores mais exigentes. Além de não poupar o longa das cenas de ação que demandam tecnologia fotográfica e exímio desempenho ‘Le Parkuriano’ e expertise no domínio das técnicas de ‘Moto Racing’ e ‘Martial Arts’, Lee introduz um formato digital evolutivo de projeção a sessenta quadros por segundo – tecnologia denominada 3D+Em HFR – contra os vinte e quatro quadros por segundo dos atuais filmes 2D.

Certamente, a qualidade das imagens promovem cenas credibilíssimas a ponto de transportar o espectador para dentro da ação, fazendo com que as inexistentes elucidações quanto às origens dos personagens e aos porquês e ao desenvolvimento tecnológico do experimento gerador dos clones de Henry Brogan perca importância junto para o espectador, que sai da sala de projeção saciado por pão e circo, mas sedento por algo mais sedutor do que água da bica.

terça-feira, 8 de outubro de 2019

Greta



Uma vez fora, ninguém mais retornará ao armário, independentemente da sua idade


Com foco no histórico preconceito que incide sobre a comunidade LGBTQIA+, à frente de um cenário estruturado pela violência - por sua vez, alicerçada pelos estereótipos, pela discriminação e pela intolerância - o primeiro filme de Armando Praça é prologado pela visão da nascente de um rio de amarguras a partir da velhice daqueles que fazem parte daquela comunidade, agravado pela marginalização causada pela desigualdade social que, por conta das políticas que definem os comandos do poder, acabam assumindo, em total despreparo, o papel de engrenagens de setores essenciais do serviço público.

Praça define o argumento de “Greta” com base na história da peça “Greta Garbo, quem diria, acabou no Irajá” de Fernando Melo. Ao analisar e explorar o processo da comédia contida no espetáculo, o diretor e roteirista cearense confia a representatividade social e a compreensão do universo LGBTQIA+,  a Pedro (Marco Nanini) – personagem que lança mão de sua influência garantida pela função de profissional de enfermagem, de um hospital público, para favorecer a fuga de Jean (Demick Lopes) – um indivíduo ferido à faca, ingresso na instituição, imobilizado em sua própria maca. Deliberadamente, ao libertar Jean, Pedro libera a sua vaga em favor de sua amiga Daniela (Denise Weinberg), mesmo em se tratando de um leito pertencente à enfermaria masculina.

A partir de então, Praça desenha a homossexualidade, a bissexualidade e a transexualidade em seu longa, retratando uma realidade nua e crua, subtraindo, do roteiro, qualquer possibilidade de manifestação de humor – contrariando eventuais expectativas, por parte do público cinéfilo – faceta essa agravada pela introdução de personagens idosos, debilitados pela decadência e pela perversa invisibilidade social.
Pedro assume sua condição social e convive com o que o destino lhe proporciona, conformado, como se não fosse digno de algo além dos limites com os quais a vida lhe presenteia. Pedro procura assistir Daniela - a inspiração de seu alter ego - por sua vez, conformada com sua visão do fim de sua jornada, a ponto de declinar das forças que lhe restam para conquistar uma vida mais digna. Pedro, dotado de uma generosidade sem limites, permite a aproximação de Jean em sua vida, como profundo conhecedor, autodidata, da essência humana. Pedro sabe se entregar ao prazer e reivindica o que o faz chegar ao deleite.

“Greta” não ambiciona empunhar a bandeira da educação, da família, da religião e da cultura – questões sedutoramente apropriadas pelo fascismo – mas adota uma postura que transmite a certeza de que, uma vez fora, ninguém mais retornará ao armário, independentemente da sua idade.

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

O Clube dos Canibais




Terror político-social

Requintadamente sanguinário, o longa “O Clube dos Canibais” é um autêntico filme de terror político-social, que desenha a opressão dos menos favorecidos, a partir de uma trama, nada sutil, que define suas vítimas, majoritariamente, como indivíduos de pele negra e parda.


A direção de Guto Parente amadurece a conexão entre crime e sexo, que leva os poderosos a constituir uma irmandade composta por políticos que apreciam saborear, gastronomicamente, a carne mais barata do mercado, em reuniões regulares, sob o comando de um deputado da cidade de Fortaleza - Ceará, defensor da família e dos bons costumes, à luz da Sagrada Escritura.

Sem sustos e, muito menos, sem a intenção de ser, meramente, um filme de terror, “O Clube dos Canibais” apavora por sua contemporaneidade e pelo seu olhar da elite que, em nome de sua moralidade, estritamente pessoal, precisa da minoria, quando não somente para a satisfação de suas fantasias sexuais, também para a produção do seu bolo fecal.

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Coringa




Um delírio hipnotizante

Ano de 1981 – a cidade fictícia de Gotham City tem suas ruas infestadas de ratos, onde bandidos agridem pessoas por conta de míseros trocados, onde os ricos ficam, cada vez mais ricos, à custa de uma população que permanece pobre.


Os acasos identificados no longa “Coringa” não devem ser encarados, simplesmente, como coincidências triviais, relativamente à realidade. De fato, se constituem no fio condutor de uma história na qual, o magnata bilionário Thomas Wayne (Brett Cullen) dá início à estratégia de sua campanha para prefeito e se auto intitula “um homem do povo” que acredita ser a única esperança dos desprovidos de Gothan. Em paralelo, o fracassado Arthur Fleck (Joaquin Phoenix) trava uma luta contra o seu distúrbio mental, que o coloca à margem da sociedade e, para defender o seu sustento, faz bicos vestido de palhaço e sonha em se tornar um comediante de stand-up comedy, de modo a dar o mínimo de dignidade à sua mãe (Frances Conroy) – ambos não têm uma vida fácil. A realidade se mistura aos delírios de Arthur e, a direção de Todd Phillips, simplesmente fascina o espectador ao lhe permitir conferir às cenas a sua própria leitura, mas que, certamente, em momento algum, é algo digno de se achar graça.

O diretor consegue a façanha de justificar, ao longo do tempo, cada gestual do personagem, a evolução de seu visagismo e de seu figurino, a sua insanidade. A provocação contida no longa está na transformação de vítima em vitimador e, de maneira compreensivelmente trágica, discute, sutilmente, a implosão da empatia causada pelo impacto pessoal de uma sociedade sem nenhum amor-próprio, mas que tem a sua cara estampada em programas sensacionalistas, mostrando o quanto medíocre se pode ser quando a justiça social se faz omissa.

Dessa forma, “Coringa” torna-se símbolo das minorias marginalizadas pelas mãos da arrogância de uma sociedade corrupta e doente. Como se a partir de um delírio hipnotizante, o meio da história é justificada pelas cenas iniciais. O fim, não confere com o que o espectador acredita conhecer como fato consumado e, sob a maestria da produção, se dá conta de que acaba de assistir a um filme digno de inumeráveis indicações para o Oscar.

terça-feira, 1 de outubro de 2019

O Anjo do Apocalipse



Respeitosamente insolente, ceticamente crédulo, burlescamente diplomático


1850 a.C. – Abraão, um velho mercador da cidade de Ur, na Mesopotâmia (atual Iraque), recebe um chamado de Deus. O Senhor lhe ordena que junte todos os seus pertences, abandone seu país natal e parta em busca de um novo lar, rumo ao oeste - a terra de Canaã. Alcançando o seu destino, o mercador deve constituir a sua descendência e dedicar-se ao culto de seu benfeitor – Jeová, o Deus único. Ao longo da jornada, o enviado de Deus gera dois filhos - o mais velho, nascido de sua serva Agar, é chamado de Ismael; o segundo, filho de Sara, esposa legítima do patriarca, recebe o nome de Isaac. O país prometido aos descendentes de Abraão é uma terra tomada por desertos, repleta de oliveiras e banhada pelas águas do rio Jordão, conhecida ao longo dos séculos como a Terra Santa – paisagem dos grandes dramas da Bíblia, território adorado pelas três maiores religiões do planeta. Hoje, palco do conflito mais violento da atualidade, segundo historiadores, iniciados pelos tataranetos de Abraão, que deram origem a dois povos de aparência, língua e cultura muito parecidas, mas que se entrincheiraram em lados opostos no front da política internacional – árabes e judeus.

Aproveitando-se dessa dicotomia, o autor, diretor, teórico, crítico e professor carioca Clovis Levi lança mão de questões históricas, religiosas e culturais amparadas pelos conflitos no Oriente Médio, para levar aos palcos a temática da intolerância e da violência extremas que, na atualidade, vem assumindo o papel extremista nas relações sócio-políticas. Com a habilidade de quem transita em meio à tragédia, ao drama e à comédia, como quem estivesse visitando um parque temático, Levi conta a história de amor entre a árabe Zahra e o judeu Eliakim – uma mulher e um homem que atravessam os séculos entre o Torá e o Alcorão, em meio a explosões de ódio e de violência em nome da religião que impede o amor de um pelo outro em suas mais variadas vidas, num processo cíclico de vida e morte, no qual o capricho do destino os reserva um reencontro nos dias em que vivemos. Assumindo a narrativa da história, intermediando os conflitos do casal e servindo de interlocutor junto a Deus, respeitosamente insolente, ceticamente crédulo, burlescamente diplomático – dessa forma se apresenta, aos espectadores, “O Anjo do Apocalipse”. Contaminado pela carga de realidade fabulosa presente no texto de Levi, a direção de Marcus Alvisi não encontra alternativa senão reduzir a pó qualquer fragmento que possibilite a paz em meio aos confrontos internos entre os dois seculares amantes, incitando os encontros e desencontros, o amor e o ódio, o arrependimento e a impenitência, a vida e a morte. Alvitri também assina a trilha sonora responsável pela formação de uma barreira necessária à escalada do terror instaurado no espetáculo, com a coalizão do elenco criteriosamente estabelecido pela excelência dramática de Juliane Araújo – como Zahra, de Daniel Dalcin – como Eliakim e de Marcelo Escorel – no papel do anjo – o bem-sucedido negociador, junto à plateia, que visa à instauração de rompantes de humor em uma história maculada por sangue. Os confrontos causados pela luta entre a defesa da segurança de Israel e a criação do Estado do povo palestino inspira a concepção cenográfica de José Dias, que projeta a intolerância frente às diferenças, pelas posturas radicais através de um fundo infinito negro que atravessa as entranhas do luto, tomado pelos fragmentos de poeira das explosões do ódio e da violência entre os povos irmãos, artisticamente sugeridos pelo dramático desenho de luz de Aurélio de Simoni. As lembranças das guerras travadas por grupos tidos como terroristas são resgatadas pelo figurino de Maria Duarte, delineando, parcimoniosamente, as vidas perdidas em nome de uma paz distante da história de “O Anjo do Apocalipse”.

Ao analisar, por alto, as fases das guerras baseadas nas perspectivas político-religiosas, “O Anjo do Apocalipse” choca mais do que sensibiliza, pois não permite dissociar o discurso de ódio e a perversidade utilizados para justificar a falta de razão que inviabiliza o sentido da humanidade.