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quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Coringa




Um delírio hipnotizante

Ano de 1981 – a cidade fictícia de Gotham City tem suas ruas infestadas de ratos, onde bandidos agridem pessoas por conta de míseros trocados, onde os ricos ficam, cada vez mais ricos, à custa de uma população que permanece pobre.


Os acasos identificados no longa “Coringa” não devem ser encarados, simplesmente, como coincidências triviais, relativamente à realidade. De fato, se constituem no fio condutor de uma história na qual, o magnata bilionário Thomas Wayne (Brett Cullen) dá início à estratégia de sua campanha para prefeito e se auto intitula “um homem do povo” que acredita ser a única esperança dos desprovidos de Gothan. Em paralelo, o fracassado Arthur Fleck (Joaquin Phoenix) trava uma luta contra o seu distúrbio mental, que o coloca à margem da sociedade e, para defender o seu sustento, faz bicos vestido de palhaço e sonha em se tornar um comediante de stand-up comedy, de modo a dar o mínimo de dignidade à sua mãe (Frances Conroy) – ambos não têm uma vida fácil. A realidade se mistura aos delírios de Arthur e, a direção de Todd Phillips, simplesmente fascina o espectador ao lhe permitir conferir às cenas a sua própria leitura, mas que, certamente, em momento algum, é algo digno de se achar graça.

O diretor consegue a façanha de justificar, ao longo do tempo, cada gestual do personagem, a evolução de seu visagismo e de seu figurino, a sua insanidade. A provocação contida no longa está na transformação de vítima em vitimador e, de maneira compreensivelmente trágica, discute, sutilmente, a implosão da empatia causada pelo impacto pessoal de uma sociedade sem nenhum amor-próprio, mas que tem a sua cara estampada em programas sensacionalistas, mostrando o quanto medíocre se pode ser quando a justiça social se faz omissa.

Dessa forma, “Coringa” torna-se símbolo das minorias marginalizadas pelas mãos da arrogância de uma sociedade corrupta e doente. Como se a partir de um delírio hipnotizante, o meio da história é justificada pelas cenas iniciais. O fim, não confere com o que o espectador acredita conhecer como fato consumado e, sob a maestria da produção, se dá conta de que acaba de assistir a um filme digno de inumeráveis indicações para o Oscar.

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