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terça-feira, 8 de outubro de 2019

Greta



Uma vez fora, ninguém mais retornará ao armário, independentemente da sua idade


Com foco no histórico preconceito que incide sobre a comunidade LGBTQIA+, à frente de um cenário estruturado pela violência - por sua vez, alicerçada pelos estereótipos, pela discriminação e pela intolerância - o primeiro filme de Armando Praça é prologado pela visão da nascente de um rio de amarguras a partir da velhice daqueles que fazem parte daquela comunidade, agravado pela marginalização causada pela desigualdade social que, por conta das políticas que definem os comandos do poder, acabam assumindo, em total despreparo, o papel de engrenagens de setores essenciais do serviço público.

Praça define o argumento de “Greta” com base na história da peça “Greta Garbo, quem diria, acabou no Irajá” de Fernando Melo. Ao analisar e explorar o processo da comédia contida no espetáculo, o diretor e roteirista cearense confia a representatividade social e a compreensão do universo LGBTQIA+,  a Pedro (Marco Nanini) – personagem que lança mão de sua influência garantida pela função de profissional de enfermagem, de um hospital público, para favorecer a fuga de Jean (Demick Lopes) – um indivíduo ferido à faca, ingresso na instituição, imobilizado em sua própria maca. Deliberadamente, ao libertar Jean, Pedro libera a sua vaga em favor de sua amiga Daniela (Denise Weinberg), mesmo em se tratando de um leito pertencente à enfermaria masculina.

A partir de então, Praça desenha a homossexualidade, a bissexualidade e a transexualidade em seu longa, retratando uma realidade nua e crua, subtraindo, do roteiro, qualquer possibilidade de manifestação de humor – contrariando eventuais expectativas, por parte do público cinéfilo – faceta essa agravada pela introdução de personagens idosos, debilitados pela decadência e pela perversa invisibilidade social.
Pedro assume sua condição social e convive com o que o destino lhe proporciona, conformado, como se não fosse digno de algo além dos limites com os quais a vida lhe presenteia. Pedro procura assistir Daniela - a inspiração de seu alter ego - por sua vez, conformada com sua visão do fim de sua jornada, a ponto de declinar das forças que lhe restam para conquistar uma vida mais digna. Pedro, dotado de uma generosidade sem limites, permite a aproximação de Jean em sua vida, como profundo conhecedor, autodidata, da essência humana. Pedro sabe se entregar ao prazer e reivindica o que o faz chegar ao deleite.

“Greta” não ambiciona empunhar a bandeira da educação, da família, da religião e da cultura – questões sedutoramente apropriadas pelo fascismo – mas adota uma postura que transmite a certeza de que, uma vez fora, ninguém mais retornará ao armário, independentemente da sua idade.

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