Counter

terça-feira, 1 de outubro de 2019

O Anjo do Apocalipse



Respeitosamente insolente, ceticamente crédulo, burlescamente diplomático


1850 a.C. – Abraão, um velho mercador da cidade de Ur, na Mesopotâmia (atual Iraque), recebe um chamado de Deus. O Senhor lhe ordena que junte todos os seus pertences, abandone seu país natal e parta em busca de um novo lar, rumo ao oeste - a terra de Canaã. Alcançando o seu destino, o mercador deve constituir a sua descendência e dedicar-se ao culto de seu benfeitor – Jeová, o Deus único. Ao longo da jornada, o enviado de Deus gera dois filhos - o mais velho, nascido de sua serva Agar, é chamado de Ismael; o segundo, filho de Sara, esposa legítima do patriarca, recebe o nome de Isaac. O país prometido aos descendentes de Abraão é uma terra tomada por desertos, repleta de oliveiras e banhada pelas águas do rio Jordão, conhecida ao longo dos séculos como a Terra Santa – paisagem dos grandes dramas da Bíblia, território adorado pelas três maiores religiões do planeta. Hoje, palco do conflito mais violento da atualidade, segundo historiadores, iniciados pelos tataranetos de Abraão, que deram origem a dois povos de aparência, língua e cultura muito parecidas, mas que se entrincheiraram em lados opostos no front da política internacional – árabes e judeus.

Aproveitando-se dessa dicotomia, o autor, diretor, teórico, crítico e professor carioca Clovis Levi lança mão de questões históricas, religiosas e culturais amparadas pelos conflitos no Oriente Médio, para levar aos palcos a temática da intolerância e da violência extremas que, na atualidade, vem assumindo o papel extremista nas relações sócio-políticas. Com a habilidade de quem transita em meio à tragédia, ao drama e à comédia, como quem estivesse visitando um parque temático, Levi conta a história de amor entre a árabe Zahra e o judeu Eliakim – uma mulher e um homem que atravessam os séculos entre o Torá e o Alcorão, em meio a explosões de ódio e de violência em nome da religião que impede o amor de um pelo outro em suas mais variadas vidas, num processo cíclico de vida e morte, no qual o capricho do destino os reserva um reencontro nos dias em que vivemos. Assumindo a narrativa da história, intermediando os conflitos do casal e servindo de interlocutor junto a Deus, respeitosamente insolente, ceticamente crédulo, burlescamente diplomático – dessa forma se apresenta, aos espectadores, “O Anjo do Apocalipse”. Contaminado pela carga de realidade fabulosa presente no texto de Levi, a direção de Marcus Alvisi não encontra alternativa senão reduzir a pó qualquer fragmento que possibilite a paz em meio aos confrontos internos entre os dois seculares amantes, incitando os encontros e desencontros, o amor e o ódio, o arrependimento e a impenitência, a vida e a morte. Alvitri também assina a trilha sonora responsável pela formação de uma barreira necessária à escalada do terror instaurado no espetáculo, com a coalizão do elenco criteriosamente estabelecido pela excelência dramática de Juliane Araújo – como Zahra, de Daniel Dalcin – como Eliakim e de Marcelo Escorel – no papel do anjo – o bem-sucedido negociador, junto à plateia, que visa à instauração de rompantes de humor em uma história maculada por sangue. Os confrontos causados pela luta entre a defesa da segurança de Israel e a criação do Estado do povo palestino inspira a concepção cenográfica de José Dias, que projeta a intolerância frente às diferenças, pelas posturas radicais através de um fundo infinito negro que atravessa as entranhas do luto, tomado pelos fragmentos de poeira das explosões do ódio e da violência entre os povos irmãos, artisticamente sugeridos pelo dramático desenho de luz de Aurélio de Simoni. As lembranças das guerras travadas por grupos tidos como terroristas são resgatadas pelo figurino de Maria Duarte, delineando, parcimoniosamente, as vidas perdidas em nome de uma paz distante da história de “O Anjo do Apocalipse”.

Ao analisar, por alto, as fases das guerras baseadas nas perspectivas político-religiosas, “O Anjo do Apocalipse” choca mais do que sensibiliza, pois não permite dissociar o discurso de ódio e a perversidade utilizados para justificar a falta de razão que inviabiliza o sentido da humanidade.

Nenhum comentário:

Postar um comentário