terça-feira, 31 de dezembro de 2019

O Caso Richard Jewell



Muito além de uma simples cinebiografia


Richard Jewell – um guarda de segurança em atividade no Centennial Olympic Park de Atlanta, durante os Jogos Olímpicos de Verão de 1996 – identifica, em meio à multidão, um volume suspeito de conter um dispositivo explosivo, se empenha em evacuar a área e alertar as autoridades, minimizando o número de vítimas fatais e de feridos. Num primeiro momento, aclamado como um herói, Jewell acaba sendo apontado como possível suspeito pelo atentado, pelo FBI. A partir de então, o homem sonhador, fiel aos seus conceitos de integridade moral e profissional, vê a sua privacidade e a de sua mãe, com quem vive sob o mesmo teto, se esvair com a força das acusações e do assédio do público e da imprensa.

Sob a não menos aguardada e surpreendente direção de Clint Eastwood, o filme “O Caso de Richard Jewell” dramatiza fatos reais, resgatando uma história que retrata a moral e a justiça como ícones que representam uma produção cinematográfica, muito além de uma simples cinebiografia. Eastwood denuncia a imprensa como uma instituição que, nem sempre, é fiel ao seu compromisso com a verdade dos fatos, mas com o que o seu leitor deseja como fontes de leitura, mesmo que incondizentes com a realidade – da mesma forma com que a maioria dos governantes fazem com os seus eleitores.

O roteiro desenha uma triste jornada de um homem ingênuo que se torna vítima da imprensa e da justiça corrupta, definida por um sutil viés tendencioso a uma política de direita. Contudo, Eastwood supera a sugestiva afluência formada por atos terroristas, e ideologias político-religiosas, reunindo fatos conflitantes e as polêmicas advindas das acusações. Com isso o espectador é presenteado com um filme que transborda tensão, com suspense na dose certa e repleto de emoções que se manifestam à flor da pele – o registro de um erro judiciário que parece, cada vez mais vital, nos dias obscuros que o mundo vem atravessando.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

O Farol



O sombrio e introspectivo universo da solidão

Crença fielmente adotada por marinheiros romanos e gregos - uma antiga superstição condena à má sorte aqueles que matam aves marinhas que, por sua vez, incorporam as almas de marinheiros mortos.

Com base nesse argumento, Robert Eggers concebe o seu segundo longa, “O Farol” – a poderosa, porém, cansativa história de um antigo faroleiro (Willam Dafoe) e de seu mais novo aprendiz (Robert Pattinson). Ambos vivem uma rotina de trabalho diário na costa da Nova Inglaterra.  Em meio ao isolamento, segredos e visões míticas tomam conta de suas mentes até apodrecerem cobertas de fezes e lama – situações repugnantes e irritantes capazes de incomodar o menos sensível dentre os espectadores que ousam explorar o sombrio e introspectivo universo da solidão e a carência de comunicação interpessoal contida no terror existencial do longa em preto e branco.


“O Farol” atinge a meta definida por Edders, graças ao desempenho dos protagonistas que souberam assimilar a aura de pavor saturado por exageros e contrastes entre claros e escuros, que dificultam a assimilação da história desenhada pelo diretor, que meandra por entre dor, raiva, sexo, ódio, carinho e desespero. Apesar da considerável quantidade de absurdos presentes, o filme cativa o espectador mais pelo seu teor artístico e pela fragilidade dos estados mentais de seus protagonistas, fazendo com que a espera pelo facho de luz do farol travestido de uma, possivelmente inatingível, tábua da salvação, conduza alguns presentes à sala de projeção que, porventura, se encontre à deriva.

sábado, 28 de dezembro de 2019

Frozen II



Ação, emoção, e muita música para aquecer o cantinho mais gelado do coração


Frozen II –  uma continuidade ao confortável enredo estabelecido pelo seu filme embrião, com potencial latente para se tornar uma franquia - A rainha Elsa, com suas habilidades mágicas, prospera como agente de pacificação e de prosperidade para a cidade de Arendelle; sua irmã, a princesa Anna, ainda configura uma excelente escada para a protagonista, como apoiadora e conselheira; Kristoff, o galante namorado de Anna,  apesar de decidido a lhe pedir a mão em casamento, falha a cada tentativa; por fim, o boneco de neve Olaf, neste episódio, imune ao derretimento, sustenta o filme com suas entradas e sacadas cômicas.

Apesar da aparente paz reinante, Arendelle encontra-se ameaçada por forças advindas de uma misteriosa floresta encantada. De modo a combatê-las, Elsa, na companhia de sua irmã e de seus amigos, deve transpor a névoa que circunda a floresta, domesticar as forças do ar, da água, do fogo e da terra, e descobrir o segredo sombrio que ameaça o seu reino.

O impressionante visual e a vibrante realidade gráfica da animação, transportam para tela do cinema cenas fantásticas que irrigam a imaginação do espectador, independente de sua idade. A digna direção Jennifer Lee e Chris Buck injeta ação, emoção, e muita música para aquecer o cantinho mais gelado do coração dos que buscam Fronzen como forma de entretenimento, sem qualquer demanda por um belo príncipe para solucionar os conflitos desenhados para a trama.

Ao apostar no amor fraterno e na cooperação mútua, os estúdios Disney molda a primeira princesa que não sonha em viver feliz para sempre ao lado de seu príncipe encantado. Na contramão dessa premissa, moldada à base de clichês retrógrados em vias de extinção, o discurso feminista torna a personagem consistente e orgânica para as novas gerações de espectadores, esperançosos por mais calor no coração e por menos frieza nas atitudes.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

Minha Mãe É Uma Peça 3



Consegue a proeza de, até mesmo, emocionar o espectador em meio a gargalhadas

 Completa, neste mês de dezembro de 2019, a trilogia que conta a história de Dona Hermínia – a icônica figura materna do cinema nacional, encarnada pelo ator, humorista, diretor, roteirista e apresentador Paulo Gustavo – na comédia “Minha Mãe É Uma Peça 3”.

A adequação às novas configurações da família, contemplando a  gravidez da filha Marcelina (Mariana Xavier) e o casamento homoafetivo de seu filho Juliano (Rodrigo Pandolfo), faz com que a imprevisível e despudorada Hermínia perceba que nada mais será tão simples como antes.

Da mesma forma que nas edições anteriores, “Minha Mãe É Uma Peça 3” é baseado em situações hilárias do cotidiano vivido pela carismática mãe de Paulo Gustavo. A dramaticidade que surge como algo desnecessário, em se tratando de uma comédia, é muito bem colocada pela direção de Susana Garcia que consegue a proeza de, até mesmo, emocionar o espectador em meio a gargalhadas.

O longa conduz os fãs e os calouros junto ao universo de Paulo Gustavo que presenteia os espectadores com sua divertida mãe, para que sua própria história seja difundida em meio a tanto humor e profundo respeito às diferenças.

domingo, 15 de dezembro de 2019

Embarque Imediato



A condição do negro diante de uma sociedade preconceituosa


Em “Embarque Imediato” – espetáculo inédito nos palcos – a família Pitanga dá vida a personagens que estabelecem teorias sobre a histórias dos negros e o preconceito racial.

Antônio, Rocco e, em off, Camila apresentam um encontro paradoxal entre um velho africano e um jovem pesquisador brasileiro, a partir do qual afloram experiências distintas de cada um dos personagens. A condição do negro diante de uma sociedade preconceituosa é principal foco de abordagem do texto de Aldri Anunciação. Contudo, a propensão pela vitimização da raça pela direção de Márcio Meirelles não acrescenta aos inevitáveis questionamentos por parte do espectador, deixando em aberto uma demanda mais do que necessária por um debate aberto, após cada apresentação.

O mosaico composto por som e voz é concebido pela competência de Jarbas Bittencourt, que assina a trilha sonora. O embate da força dramática da história se passa em um cenário concebido por Erick Saboya que, não só remete a uma sala de um aeroporto internacional, mas torna a quarta dimensão atuante em meio a sobreposição de planos que definem uma rica diversidade de focos de encenação mixados a projeções. As condicionantes que viabilizam o direito de ir e vir encontram-se vinculadas a uma determinada identidade, que se apropria das condições diaspóricas que transitam conectadas a direção de vídeos de Rafael Grilo que, por sua vez, articula a malha virtual com Camila Pitanga, permitindo-se elucidar os discursos dos protagonistas. Chico Peres – o responsável pela identidade dos protagonistas a partir de suas vestimentas – assina o figurino do espetáculo, evidenciando o teor político contido na essência dos dois homens.

“Embarque Imediato” também marca uma singela celebração dos 80 anos do artista Antônio Pitanga e o fechamento de uma trilogia composta por “Namíbia, Não!” e “O Campo de Batalha” – a primeira sob a direção de Lázaro Ramos e, a segunda, dirigida por Márcio Meirelles e Fernando Philbert – durante a qual, é possível perceber, uma fusão dialética a partir de um, mais que necessário, discurso político integrado a uma sutil subversão de propriedade de grupos e de condições humanas.

sábado, 14 de dezembro de 2019

O Cravo e a Rosa



Muita música, poesia e humor


O espetáculo musical “O Cravo e a Rosa” – cujo texto, livremente inspirado na novela homônima de Walcyr Carrasco, é assinado pela atriz e produtora Izabella Bicalho – repleta o palco do Teatro Petro Rio das Artes com muita música, poesia e humor. A surpreendente produção – que mantém as referências literárias da obra de William Shakespeare – ‘A Megera Domada’, transportada por Carrasco para o seu folhetim televisivo – reescreve a deliciosa história de amor sob a meticulosa direção de Rafaela Amado que, habilmente, confere a fusão da atual leitura de Bicalho com a direção musical de Claúdia Elizeu e das músicas originais de Tony Lucchesi e Menelick de Carvalho, renovando a discussão dos papéis do homem e da mulher na instituição do casamento de vinte anos atrás.

Conta a história da família Batista, cujo patriarca estabelece uma condição para que Bianca, sua filha mais nova, pudesse casar com o jovem, Heitor – Catarina, a insubmissa filha mais velha, deveria casar-se primeiro e torna-se uma esposa obediente. O tal casamento acontece às custas de muita contrariedade por parte de Catarina e, seu marido, Petruchio – um fazendeiro que enfrenta dificuldades financeiras – impõe uma série de privações à esposa, a fim de “amansá-la”.

Izabella Bicalho, além de ser a responsável pelo texto que corteja as palavras com lirismo e bom humor, também integra o elenco como a feminista e protagonista Catarina – a idealista, à frente do seu tempo, que luta pelo direito feminino ao voto e ao respeito, como indivíduos no contexto social.

Mulher que não tem o casamento como meta, tampouco assumir a condição social imposta para as mulheres de sua época. Da essência de cada um dos personagens brotam especificidades, que parecem brotar das mais belas fontes literárias, veiculadas pelo competente elenco composto por Paulo Oliveira (Petruchio), Lis Maia (Mimosa), Gledy Goldbach (dona Bete), Luiza Lewicki (Bianca), Margô Mello (Dona Beth), Alix Bandeira (Neca), Matheus Lana (Professor), Mariana Ferreira (Berta), Murici Lima (Batista), Hugo Minervini – (Heitor), Roberto Lomeu (Professor), Rodrigo Becker (Calixto / Padre), Amanda Wanderley – (Dora), Tiaia Mawê (Lindinha), Beatriz Chamas (Rosa), Lucas Alves (Mário), Branca Americano (Dona Adelaide), Mathias José (Batista), Felipe Coutinho (Petruchio), Anna Priscilla Lacerda (Carlota), Fernando Moreno Rudá (Nelson), Victoria Shizue (Bianca), Lyli Lua (Mimosa), Léo Patrocínio – (Calixto/Padre), Luíza Surreaux (Catarina Batista), Igor Fernandez (Heitor).

O potencial desse grande elenco também é lapidado pela talentosa atriz, cantora, bailarina, maquiadora, modelo e coreógrafa Malu Cordioli que desenha cada biótipo dos personagens em números de dança e movimentos, de encontro com a perfeição deliciosamente imperfeita.

A atual temporada de “O Cravo e a Rosa” é inexplicavelmente curta e termina em 15 de dezembro de 2019. Portanto, os que desejarem reviver a história que teve Adriana Esteves e Eduardo Moscovis como protagonistas na TV, o generoso convite convoca os fãs da novela enxergarem, com outros olhos, uma história não pertence a, somente, um autor. Quanto ao Circuito Geral, cabem votos sinceros que, uma nova temporada dê continuidade ao espetáculo, que não basta ser visto, mas revisto.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

Entre Facas e Segredos



Mensagem social enrustida em mistério e morte


A magia cinematográfica é transportada para as telas de cinema, pela direção do roteirista e diretor norte-americano Rian Johnson, imprimindo estilo peculiar ao longa “Entre Facas e Segredos” que demanda, por parte do espectador, concentração máxima que, uma vez negligenciada, é capaz comprometer a deliciosa experiência que envolve a história, flexionada nos moldes de suspense policial da escritora britânica Agatha Christie.

Harlan Thrombey (Christopher Plummer) – um consagrado empresário no ramo da edição de livros – é encontrado morto, por sua governanta - Fran (Edi Patterson), com a garganta cortada e com uma faca em uma das mãos, após a comemoração de aniversário de seus oitenta e cinco anos, levando todos a crer que havia cometido suicídio. Contudo, perguntas pairam no ar, sobre o que teria levado Thrombey a dar cabo de sua própria vida. Dois policiais interpretados por LaKeith Stanfield e Noah Segan assumem a investigação na propriedade do falecido patriarca.

Como peças de um complexo quebra-cabeças, seguem os diálogos entre os investigadores com cada um dos membros da família do morto: a filha, Linda (Jamie Lee Curtis) – uma empresária bem-sucedida; o genro, Richard (Don Johnson) – infiel a sua filha;  o preconceituoso neto – Ransom (Chris Evans); o filho editor – Walt (Michael Shannon), que entrou em conflito com o pai anteriormente à sua morte; a nora Joni (Toni Collette) – uma adepta aos livros de auto-ajuda mas, que vinha roubando o velho, por um bom tempo; e, por fim, a acompanhante Marta Cabrera (Ana de Armas) – cuidadora e confidente de Thrombey, com grande potencial para auxiliar a desvendar o caso. Mas para a surpresa de todos - convidados para a leitura do testamento de Thrombey - o conceituado detetive Benoit Blanc (Daniel Craig) se envolve no caso, após tomar conhecimento das ocorrências, através de um envelope que lhe fora enviado, de forma anônima, contendo uma soma, em espécie, suficiente para pagar os seus serviços de investigador. A partir dessa introdução, “Entre Facas e Segredos” desenvolve a narrativa sobre quem e porque Blanc foi conduzido à mansão do falecido.

A lúdica tentativa de desvendar o mistério injetado na trama,  juntamente com o investigador, por si só, vale todo o empenho do comparecimento ao cinema. Não obstante, o longa é repleto de diálogos ferinos que dissecam a burguesia, para o deleite do olhar sócio-crítico do espectador. Destaque, em meio à ficha técnica, o elenco é composto por uma seleção de atores que, devido ao seu empenho diante das câmeras, pulveriza qualquer vestígio de coadjuvação e define um time de protagonistas capaz de privar o espectador de seu fôlego a cada cena, a cada descoberta.

De forma surpreendente, desigualdade entre classes e sucessão patrimonial  assumem os focos de inspiração de Johnson que acerta, ao traduzir a mensagem social enrustida em mistério e morte.

Finalmente Livres




Comédia romântica que desemboca em meio à farsa

Todas as noites, Yvonne (Adèle Haenel) conta ao filho as façanhas do seu falecido pai – um policial que mereceu, até, uma estátua em sua homenagem, prestada por seus colegas de trabalho. O que ela não sabia é que, o defunto era um corrupto que levou para a prisão um homem inocente. Horrorizada, a viúva quer reparar o erro cometido por seu falecido marido. Com isso, dia e noite, ela passa a seguir Antoine (Pio Marmai) – o pobre rapaz que seu marido levou para a cadeia, onde ficou recluso por oito anos, sem ter cometido qualquer crime.


A notória direção burlesca de Pierre Salvadori dá o tom de comédia romântica que desemboca em meio à farsa – uma história onde todos se embelezam, se transformam, escondem a verdade ou contam uma história conveniente para justificar a mentira.

O riso se faz presente na solidão, na injustiça e na traição que envolve os personagens do filme “Finalmente Livres”, onde a culpa e a redenção se confrontam com o caos que toma conta de vidas colapsadas, imersas na hilaridade do drama.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

O Juízo



Uma história sombria, caótica e sem emoção


Um homem decide se mudar, com sua esposa e seu filho, para uma fazenda de propriedade de sua família – local que carrega uma maldição secular, sob o manto da traição e da escravatura.

O argumento do longa “O Juízo” projeta uma história sombria, caótica e sem emoção, definida por um roteiro previsível sob a direção de Andrucha Waddington. Desprovido qualquer densidade mística, o longa remete a um desnecessário arremedo de um clássico de terror. A carência de identidade do longa se deve, essencialmente, à incorporação de clichês retratados por fantasmas vingativos, por paranoias “tarja preta”, por praga dramática e histórica transmitida de geração a geração e por conflitos existenciais. Tudo isso, a serviço de um anticlímax para o espectador que busca o medo, o susto e a razão, mas que encontra apenas a expectativa do desenrolar da história que, de tão frágil, sequer é capaz de sugerir a defesa de uma crítica social.

Em contrapartida, o texto de autoria de Fernanda Torres é esplendidamente interpretado por um elenco, escolhido a dedo que, em muito, transpõe qualquer possível carência do roteiro pontada pela crítica – ninguém menos que Felipe Camargo, Carol Castro, Criolo, Joaquim Torres Waddington, Lima Duarte e Fernanda Montenegro. Em total simbiose com as primorosas tomadas fotográficas externas e internas, associadas ao figurino e à maquiagem, o semblante dos personagens incorporados pelos atores se faz suficiente para abrilhantar a produção e justificar a presença do público às salas de projeção. 

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Carcereiros - O Filme



Deixa a desejar


Desprezando a possibilidade de realizar uma produção amparada por denúncia social, focada no dia a dia dos profissionais carcerários e os de seus detentos – como o fora impresso nas duas temporadas da série ‘Carcereiros’ veiculadas pela TV – José Eduardo Belmonte modela a sua direção de “Carcereiros - O Filme”, segundo os moldes dos filmes contemplando, eminentemente, ação explosiva.

Rodrigo Lombardi torna-se o ícone da série televisiva e, consequentemente, leva o longa de Belmonte nas costas, como Adriano – um historiador graduado, defensor da antiviolência, que segue os passos de seu pai e torna-se carcereiro no Complexo Penitenciário do Carandiru, na zona oeste da grande São Paulo.

Em “Carcereiros - O Filme”, a chegada do perigoso terrorista internacional – Abdel (Kaysar Dadour) – ao Carandiru deflagra um estado de tensão entre duas facções criminosas. A partir de então, Adriano assume a difícil tarefa na qual enfrenta a rebelião, ao mesmo tempo que deve garantir proteção ao terrorista – uma overdose de cenas que contempla uma fotografia digna de filme de terror, através da qual é impossível identificar o que acontece diante de câmeras nervosas, sob flashes de luz em meio a escuridão, sem uma trilha sonora que, pelo menos, instigue a imaginação do espectador, enquanto tenta entender quem corre atrás de quem, quem corre de quem, quem atira em quem e quem é baleado por quem.

No frigir dos ovos, o longa – mesmo com ressalvas de que se trata de um filme baseado na série televisiva de mesmo nome – deixa a desejar e desmerece, em muito, as histórias de Drauzio Varella publicadas no livro “Carcereiros” em 2012.

Aspirantes



Uma autêntica história sobre a natureza humana


Ao se apropriar da temática futebolística, como foco do seu olhar diante das minorias, o diretor Ives Rosenfeld constrói uma autêntica história sobre a natureza humana, através da figura de um jovem que tem, como meta de vida, se tornar um profissional do futebol. Para isso, precisa travar uma luta pessoal contra a inveja, latente e crescente, das conquistas de seu melhor amigo, com quem compartilha as atividades atléticas como aspirante – comprometendo o amor que lhe é dedicado pelo próprio amigo e por sua namorada.

O confronto entre a vida dura da periferia e a ambição pelo controle da bola em campo define narrativa de “Aspirantes” que, durante o seu desenvolvimento, estanca do nada e passa a bola para o espectador que, por sua conta e risco, se incumbe de estabelecer o seu nível de empatia com os personagens.

Os conflitos existenciais suportados pelo protagonista passam ao largo das experiências de vida dos demais personagens, configurando uma luta, intimamente pessoal, entre o inconformismo diante do que a vida lhe reserva e a expectativa da sociedade – em especial, daqueles que lhe são próximos – enquanto deveres e compromissos morais.  O jovem ator cearense, Ariclenes Barroso, incorpora esse papel e o defende sob a ótica de quem vê, no futebol, a única saída para sair miséria – estampando, em seu semblante, a revolta do protagonista, de forma exuberantemente real.

Rosenfeld não dá sinais de preocupação para com um final ameno, retratando fatos que minam e destroçam o ser humano que, nem mesmo sendo um craque, sem qualquer marcação, consegue a proeza de realizar um chute a gol, sequer.

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Entre Cinzas, Ossos e Elefantes



Criatividade que implica no começo temporal, sem a possibilidade de recuperação do que foi realizado em seu início


Uma força criadora – que dispensa definições e rótulos, e que assume configuração misteriosa, desprovida de nomenclatura estética – expande-se como um Big Bang durante o espetáculo “Entre Cinzas, Ossos e Elefantes”.

Cem por cento dependente da interação do público, a dinâmica definida pela direção de Renato Rocha manipula o espectador, remotamente, através de um fluxo exploratório informal, em busca da compreensão da essência da obra escrita por intermédio de seus performers Claudia Wer, Dani Barbosa, Daniel Bouzas, Dandara Patroclo, Eduardo Ibraim, Gabriela Freire, Gabrielle Novello, Luiz Marques, Maria Cândida Portugal, Miguel Kalahary, Nina Rodrigues, Raquel Polistchuck, Renan Fidalgo, Stella Brajterman, Tatyane Meyer e Thaisa Santoth. O cenário é composto pelo conjunto de instalações efêmeras que renascem de suas cinzas, a cada espetáculo que, por sua vez, se desenrola na multiplicidade de cômodos e recantos que compõem a Casa da Glória, no Rio de Janeiro – na temporada de novembro a dezembro de 2019.

Os fragmentos de arte viva aspergidos pelos palcos internos e externos da casa de espetáculos são inspirados em produções das artes plásticas e literárias de consagrados artistas e escritores - dentre os quais: Paul Klee, Walter Benjamin, Michel Foucault, Richard Schechner e Ericson Pires - que se manifestam diante do progresso em direção ao futuro; dos estudos sobre lugares transitórios, construções de lugares possíveis e dos novos habitats; de histórias e memórias soterradas por escombros; do processo de vida e morte, renascimento e semeadura; e da estética carnavalizada e o espírito do carnaval de rua do Rio de Janeiro. Trata-se de um processo que estimula os cinco sentidos do espectador, vitimado por experiências pessoais e intransferíveis, e dosadas pelo seu envolvimento nos episódios que desconstroem, que movimentam, que reeditam e que humanizam os espaços, amparados pela energia e o pelo prazer, beirando ao bacante, em seu desfecho épico e festivo, inscritos pela alucinógena instalação sonora de Daniel Castanheira.

Performers, em franco desempenho enérgico, se alternam e se camuflam em meio às instalações sob a direção de movimento de Eléonore Guisnet, que molda os caminhos traçados pelo espectador diante de uma obra pulsante. Renato Machado concebe um desenho de luz de tal forma a conduzir a atenção do espectador para que, os quatro cantos do casarão sejam aleatoriamente explorados. Sem a esfera da inércia humana, o desbloqueio dinâmico da percepção do que está sendo contado só é possível pelo figurino da NAI – Núcleo de Artes Integradas, que fornece a fixidez necessária para a farsa que inflama a curiosidade.

“Entre Cinzas, Ossos e Elefantes” é um ato de criatividade que implica no começo temporal, sem a possibilidade de recuperação do que foi realizado em seu início – o infinito que prolonga o conceito do finito que se vê a olhos nus; o ciclo do fim dos vínculos; a circularidade dos movimentos que não elimina a norma que independe de onde se começa a caminhada, através da qual, nem sempre, chegamos ao nosso destino.

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Pink Floyd Experience in Concert



Uma noite soberba a uma legião de fãs da banda britânica mais influente e bem-sucedida da história do rock


Em única apresentação – sábado, dia 16 de novembro de 2019, no Teatro VillageMall, Barra da Tijuca, Rio de Janeiro – o fascinante show “Pink Floyd Experience in Concert” oferece uma noite soberba a uma legião de fãs da banda britânica mais influente e bem-sucedida da história do rock. Sem qualquer demérito para com o espetáculo, não se trata de show de uma banda cover, mas um tributo, mais do que respeitoso e generoso, prestado às mentes brilhantes e únicas, de David Gilmour e Rogert Waters.

A genialidade contida na experiência musical tem início com ‘Shine on you crazy diamond” que arrebata a plateia, surpreendida  pelos primeiros acordes e efeitos visuais promovidos pelas projeções em mapping 3D e pelo pirotécnico desenho de luz, que acompanham os embalos de sucessos consagrados da banda, tais como: ‘Wish you were here’, ‘Time’ e ‘Money’. Fato notório, a banda transita por entre sutis variações dos arranjos originais das gravações de estúdio sem, com isso, prejudicar a sua leitura e credibilidade por parte do espectador.

O clímax tão esperado pelo público em transe e sedento por mais “Pink Floyd” acontece ao final da apresentação – sob as luzes e sons de helicópteros que simulam sobrevoo na plateia e que assumem a ótica e a acústica da sala de apresentação – com a apresentação de  ‘Another Brick in the Wall’.

Assumem, à frente da banda, três interativos instrumentistas – de guitarra, de violão e de baixo – dois dos quais, vocalistas masculinos. Bateria e teclado dividem o segundo plano do palco com a surpreendente backing vocal feminina. A generosidade do projeto leva ao palco uma compacta orquestra regida pelo maestro Eduardo Pereira, que faz de cada canção um espetáculo à parte ao promover emoção coletiva para todos os presentes no teatro lotado, em pleno feriadão, na cidade do Rio de Janeiro.

O bis ratifica não se tratar, apenas, de um banda que canta e toca músicas do Pink Floyd, mas um grupo que presta seu testemunho de paixão e louvor à banda icônica do rock, visivelmente entregue ao seu ofício quando da interpretação de ‘Comfortably numb’ – que fecha a inesquecível noite de show que se enquadra na categoria "não perca esse espetáculo quando de seu retorno ao Brasil”.

Fogo Contra Fogo



Destaque dentre os dramas biográficos sobre a luta contra o sistema segregacionista promovido pelo Apartheid


“Fogo Contra Fogo” – longa de estreia da diretora Mandla Dube, contemplando conteúdo dramático e biográfico fascinante.
Conta a história do ambulante de dezenove anos – Solomon Kalushi Mahlangu (Thabo Rametsi), nascido em 10 de julho de 1956, na cidade de Mamelodi, localizada nos arredores de Pretória - África do Sul.

Quando do Levante de Soweto em 16 de junho de 1976 – um dos mais sangrentos episódios de rebelião negra, desencadeado pela repressão policial à passeata de protesto contra a política racista do governo que alimentava a inferioridade das ‘escolas’ para negros na África do Sul – Kalushi é barbaramente espancado pela polícia, pelo simples fato de ser negro. Em busca pelo exílio, Kalushi se associa ao movimento de libertação junto ao Congresso Nacional Africano (ANC) para ser treinado como soldado, em Angola. De volta à África do Sul, durante sua primeira missão, seu amigo camarada Mondi (Thabo Malema) perde o controle psicológico e atira em duas pessoas inocentes na Goch Street, em Joanesburgo. Enquanto Mondi passa por um brutal processo de espancamento e tortura, Kalushi é julgado de forma assustadora, sob a ameaça, pelo Estado, de ser condenado à maior pena – morte por enforcamento.

A comovente direção de Dube retrata, de maneira convincente, o drama das pessoas que perderam a vida lutando pela liberdade na África do Sul. Sem qualquer escrúpulo capaz de deslocar o espectador da sua zona de conforto, o longa registra a dura, violenta, injusta e dolorosa história que transformou Kalushi em um ícone internacional do Levante de Soweto.

A veracidade embutida no longa, muito se deve ao elenco composto por artistas totalmente locais. “Fogo Contra Fogo” ocupa lugar de destaque dentre os dramas biográficos sobre a luta contra o sistema segregacionista promovido pelo Apartheid, no final dos anos 1970, na África do Sul. 

A Grande Mentira




Um suspense familiar

O ano é 2009; local, Londres. Um homem e uma mulher, ambos septuagenários, mantém contato através de um site de namoro, até transferirem o relacionamento virtual para a vida real. O início da amizade entre Roy (Ian McKellan) e Betty (Helen Mirren) é amparado pelo fato da mulher ser viúva recente. Certo dia, a caminho de um encontro com Betty, Roy sente o seu joelho - devido a uma anomalia pré-existente – sendo, prontamente, acolhido pela viúva, em sua própria casa. A partir de então, Betty abre a sua guarda de tal forma a assumirem compromissos contratuais, envolvendo bens de ambos, deflagrando o início de uma relação em meio a qual, verdades e mentiras podem ser conjecturadas e dimensionadas proporcionalmente aos dramas vivenciados, no passado, por cada um dos protagonistas.


“A Grande Mentira” é um suspense familiar, articulado pela perspicaz direção de Bill Condon, prologado com ares de comédia romântica. Não obstante, a sequência de cenas assume contornos sombrios e desconfortáveis, até os momentos finais da película, maciçamente sustentada pelo desempenho do elenco protagonista e pelo rocambolesco roteiro assinado por Jeffrey Hatcher, baseado no romance de Nicholas Searle - ‘The Good Liar’.

Midway - Batalha em Alto Mar



Cenas que impressionam pela excelência da carga de realidade com que foram elaboradas


Roland Emmerich não é um cineasta que se empenha pela inclusão da tranquilidade em seus filmes – tampouco, “Midway - Batalha em Alto mar”, foge à regra.

A ação presente nas sequências das batalhas aeronavais toma quase a totalidade das cenas do longa que, só pela dose de adrenalina injetada no espectador, vale cada centavo investido na aquisição do ingresso para assistir à produção de Roland Emmerich e Harald Kloser e passar pela experiência de participar de uma diversidade dentre as mais disputadas batalhas da Segunda Guerra Mundial – o ataque a Pearl Harbor, o Raid de Doolittle e a Batalha de Midway. Cenas que impressionam pela excelência da carga de realidade com que foram elaboradas, conferindo, ao longa, o status de um forte candidato a uma série de premiações conferidas às produções cinematográficas.

A história, baseada em fatos reais, se desenvolve a partir de 1937, quando uma visita diplomática dos Estados Unidos da América ao Japão progride um ataque a Pearl Harbor no final de 1941, estendendo-se até a Batalha de Midway – durante a qual os Estados Unidos confrontam a Marinha Imperial Japonesa, em junho de 1942.

“Midway - Batalha em Alto Mar” é repleto de informações bélicas que se fundem com a narrativa dos personagens, retratando o drama da batalha que marcou uma das grandes vitórias americanas durante a Segunda Guerra Mundial - citada como o mais importante ato na alteração do curso da guerra no Pacífico. Emmerich foi cauteloso ao afastar sua obra das homenagens clichês aos heróis de guerra envolvidos, a despeito da galeria de referências aos personagens reais – e breves desdobramentos de suas vidas, até os dias atuais – ao final do filme, tais como: o piloto Dick Best (Ed Skrein), o oficial de inteligência Edwin Layton (Patrick Wilson), o almirante Chester W. Nimitz (Woody Harrelson), o tenente-comandante Wade McClusky (Luke Evans) e naval o radialista Bruno Gaido (Nick Jonas), dentre outros.

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Crocodilagem




“Lágrimas de crocodilo”

Ao devorarem suas presas, crocodilos e jacarés as ‘mastigam’, promovendo intensa pressão no céu da boca e, consequente, compressão de suas glândulas lacrimais, a ponto de lhes estimular a lacrimação – daí surgindo a expressão “lágrimas de crocodilo”, usada quando alguém simula o choro, mesmo sem um sentimento genuíno por detrás daquela manifestação. Não somente a expressão alusiva à hipocrisia é imputada às espécies de animais que, atualmente, depois das aves, são as mais próximas das dos dinossauros, mas também, o  termo “crocodilagem” expressa, informal e pejorativamente, o ato ou efeito de trair ou enganar.


Em meio aqueles conceitos, Afonso e Luci são protagonistas de uma passagem comum, cuja aproximação os leva, assustados e ofegantes, à copa de um jatobá – árvore considerada sagrada por povos indígenas, cujos frutos eram servidos previamente aos rituais de meditação. Para Afonso e Luci, a tábua de salvação como porto seguro contra a perseguição de um jacaré é ponto de partida para uma DR entre desconhecidos, ligados por laços comerciais.

Afonso é o guia de uma excursão que tem Luci como cliente única – cujo encontro pode ser justificado, hipoteticamente, pelo desejo de realização de um sonho, através do qual, Luci se aproximaria da natureza, ao visitar algum paraíso ecológico pantaneiro, repleto de animais silvestres. Espreitados pelo jacaré, Afonso e Luci travam uma batalha de modo a conceber uma forma de descer da árvore sem serem devorados pelo animal – argumento do espetáculo “Crocodilagem”, a partir do qual são expurgados arrependimentos, dores e mágoas, ao longo de um tempo que se esvai, aproximando-se, cada vez mais, do horário biológico da próxima refeição do réptil.

As impressões do Circuito Geral, relativamente ao texto e à direção de Cláudio Torres Gonzaga, denunciam um espetáculo que é entregue ao expectador com vocação desejável cem por cento cômica, ao mesmo tempo que contempla ameaças, perigos, medos e perturbações de ordem piscoemocionais minimizados, numa situação muito pouco provável, negligenciando a possibilidade de alavancar o produto traçado a partir de uma leitura mais contemporânea de humor.

A estrutura dos sintomas possível de ser observada, pelo desempenho de Dani Brescianini e Pablo Diego Garcia, intensifica a avaliação de quão longa se traduz a estrada através da qual os personagens devem trilhar, com vistas a atingirem a maturidade compatível com a vida de um adulto. O comportamento de ambos frente a incapacidade de conceber uma solução outra que não se transformarem em comida de jacaré, promove uma inerte desorganização conflitante com a lógica do pensamento racional do espectador. A despeito de tais distorções, o figurino de Brescianini e Fabio Camara se aproxima de uma verdade subjetiva, que funciona, levando-se em conta a veia cômica proposta. O mérito da concepção do micromundo sugerido pelo texto, contemplando a copa de um jatobá, se deve ao projeto cenográfico minimalista assinado por Tôrres, capaz de se adequar às dimensões das bocas de cena que se apresentem ao longo das temporadas do espetáculo, muito em função do desenho de luz por César Pivetti, cuja sutileza aplicada à dinâmica intensidade e à mutação cromática definem a dramaticidade e a linha temporal traçada pela incidência da luz solar, durante um aflitivo dia, em meio à nebulosa armadilha reservada aos protagonistas. A privação das necessidades primárias dos personagens, tais como fome e sede, da mesma forma que os instintos básicos de sobrevivência são amenizados pela trilha sonora de Tomas Gonzaga que, não permite que a plateia se esqueça de que tudo se trata de uma comédia.

Em meio aos perceptíveis esforços empenhados com vistas a provocar reações risíveis por parte da plateia, a veia cabeça de “Crocodilagem” deixa claro que não existe ponto de vista imparcial e, muito menos, verdades toleráveis, quando se trata de luta pela sobrevivência - mesmo que, para isso, se lance mão de mentiras sinceras, mesmo que, em solo sagrado

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Doutor Sono



Sem qualquer herança da genialidade de Kubrick

O cineasta, roteirista, produtor e fotógrafo norte-americano Stanley Kubrick consagra a sua peculiar genialidade, como diretor cinematográfico, no trato com fantasmas, telepatia e surtos psicóticos, ao adaptar, para as telas do cinema, o romance de terror de Stephen King – “O Iluminado” e ao transformá-lo em um enigmático clássico em 1980 que, desde então, se faz intrigante, muito em função de seu complexo conteúdo psicológico. A despeito da frustração de King – em decorrência do distanciamento de Kubrick das suas expectativas, relativamente à leitura de sua obra, “O Iluminado” ainda ocupa o destaque de um dos mais sinistros filmes de terror na história do cinema.

Confrontando o seu olhar contra a direção de Kubrick, em 2013, King escreve uma sequência para sua obra original, intitulada “Doutor Sono” – adaptada para o cinema pelo cineasta e escritor Mike Flanagan – sem qualquer herança da genialidade de Kubrick e surfando na superfície da obviedade.

O longa se apresenta como solo fértil às ideologias através das quais os bons merecem viver e os maus merecem morrer – como em contos de fadas, com uma visão escassa sobre a complexidade humana ou sobre humana – com duração aproximada de extensos cento e oitenta minutos, para contar uma história que tem início em 1980, extensiva aos dias atuais. A sequência é protagonizada por Danny Torrance – jovem telepata, em vias de aprender a lidar com os fantasmas que o atormenta, desde a ocorrência do surto que tomou conta de seu pai, que tenta matá-lo juntamente com sua mãe, no remoto Overlook Hotel – localizado nas Montanhas Rochosas, no estado norte-americano do Colorado e fonte de inspiração para a obra “kubrickiana” – “O Iluminado”.

Danny (Ewan McGregor) – agora, um alcoólatra de meia-idade – se esforça para manter a sua capacidade paranormal, contudo, em segredo para o mundo. As subtramas periféricas contidas no longa conferem a dignidade contida no título, com potencial de indução à madornice.


“Doutor Sono” representa a encampação de um clássico cinematográfico de quarenta anos de idade – do qual se ramifica uma história que negligencia o aprofundamento de contextos essenciais – que não deveria ter assumido o formato de um longa metragem, mas de uma minissérie televisiva, em total respeito às suas fontes originais e o que representaram no passado como um clássico de sucesso.

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Link Perdido



Trama com perspicácia e emoção


A rica mixagem entre animação stop motion e os aprimorados efeitos de computação – potencializados pela impressionante técnica de indução à percepção em 3D – aponta para novos caminhos para visualização de filmes de animação, a partir da produção do longa “Link Perdido”, com seu enredo intelectualizado – o que o configura como um filme de assimilação não trivial por parte de um público infantil não habituado a ser estimulado intelectualmente por seus responsáveis.

Substancial e ambientado na Era Vitoriana, o filme conta a história de um explorador – cujas ideias não são aceitas pelo clube de elite de aventureiros, do qual ele deseja pertencer – e um ser ancestral primitivo solitário – o último de sua raça, que quer deixar o noroeste do Pacífico e se juntar a seus primos no Himalaia.

Ao tecer trama com perspicácia e emoção, o roteirista, escritor e cineasta britânico Chris Butler, habilmente, impressiona o público com tamanha energia emocional, a ponto de envolvê-lo, durante todo o longa. A habilidade com que o humor é introduzido na história é muito bem sucedida e funciona para a abordagem de assuntos, tais como: insulamento e distinção.

A duração de “Link Perdido” é agradavelmente dimensionada, com ritmo milimetricamente pensado e objetivo em sua mensagem, embora, para alguns, parecerá um tanto quanto ausente – possivelmente, por não terem atentado para a importância do combate à obsolescência.

terça-feira, 5 de novembro de 2019

Bate Coração



Um conto espírita


Segundo a doutrina espírita, as células humanas são governadas pelas leis da natureza, sob o influxo do espírito, tornando-as, assim, um organismo individualizado. Uma vez retiradas desse organismo, as células voltam à sua condição primitiva, adaptando-se, com certa facilidade, aos organismos para os quais são transplantadas. Um coração retirado, por exemplo, perde a relação com o espírito do doador.

Lançando mão da liberdade poética, o filme “Bate Coração” conta a história de Sandro – um playboy mulherengo, interpretado por André Bankoff, que sofre um infarto em plena noite de réveillon. A alguns quilômetros do evento, a travesti Isadora – vivida por Aramis Trindade – morre em um acidente. O garanhão recebe o coração de Isadora e, dessa forma, ganha uma segunda chance de vida. Desse momento em diante, o diretor e roteirista cearense Glauber Filho atira para todos os lados – em direção à doação de órgãos, à homofobia, ao abandono e ao espiritismo – mas sem a menor intenção de se aprofundar nos assuntos abordados, tornando o filme pouco eficiente como denúncia e raso como serviço social.

Pelo simples fato das constatações hipotéticas, que influenciam a história dos protagonistas, não chegarem a lesionar o bom humor e a moral da história tatibitati, assistir “Bate Coração” não se torna um sacrifício – para quem não espera, do longa, mais do que um conto espírita.

domingo, 3 de novembro de 2019

Versão de 2



A comédia e seus exageros


O casamento, para muitos, é de suprema importância para a conquista de status ou de estabilidade psicossocial. Contudo, quando a união não corresponde às expectativas dos envolvidos, crescem as possibilidades do desejo de separação, como consequência das projeções das mentes estruturadas para viverem as suas individualidades, em prol do próprio ego.

Contemplando todas as ferramentas para conquistar a cumplicidade do espectador, ao compartilhar os sentimentos do casal protagonista do espetáculo, “Versão de 2” aposta no potencial risível de sua mensagem pois, sem quaisquer apelo à reflexão ou compromisso intelectual, apresenta um patchwork de coisas categorizadas como engraçadas, de fácil assimilação. O texto, assinado por Mariana Rebelo, desenvolve situações e conflitos do cotidiano de um casal recém separados, sempre a partir de dois pontos de vista - o dele e o dela. Os conflitos rasgados no palco, que se enquadram em diversas relações do complexo sóciofamiliar, se enquadram, no espetáculo, timidamente no universo da relação, pura e simplesmente, conjugal, sugerindo estarem sob uma lente de aumento, que compartilha suas propriedades com diálogos interpretados, espirituosamente exagerados, visando, exclusivamente, à comicidade em detrimento da sagacidade.

A dinâmica entre flashback e tempo presente conta com a perspicaz direção de Rodrigo Sant’anna, que explora a comédia e seus exageros, sem a preocupação de alinhar sensibilidade a humor. O jogo da vida à dois é desenhado por Mariana e Paulo Mathias Jr. que assumem o protagonismo do espetáculo e abusam de linguagem corporal e modulação vocal - muitas vezes atravessando os limites entre teatro e animação. O tom adotado ao longo do desenvolvimento narrativo é, por muitas vezes, estabelecido pelo desenho de luz de Genilson Barbosa, que garante o vigor das interpretações de Rebelo e de Mathias, facilitando o entendimento de que a saída natural de um relacionamento insatisfatório e desgastado, é a separação. Uma solução que se traduz em se jogar uma pá de cal sobre uma vida à dois, para cujo desgaste, não há solução - da mesma forma que o conteúdo do espetáculo poderá chegar inerte na consciência do espectador.

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

A Cidade dos Piratas




Inquietante e abusiva metalinguagem

Baseado nas HQs de Laerte Coutinho, a animação “A Cidade dos Piratas” é construída por personagens emblemáticos da obra do cartunista. A obra contempla várias tramas desenvolvidas e muito bem marcadas para facilitar o entendimento do espectador, com tópicos sobre críticas políticas, sobre a elaboração do longa, sobre dupla identidade e repleto de entrevistas. O resultado é condizente com o espírito de subversão, historicamente conhecido desde 1983, quando o Capitão de “Piratas do Tietê” estreou na revista ‘Chiclete com Banana’.


O cineasta Otto Guerra é responsável pela mistura corrosiva que, dentre diversos assuntos, insere Laerte, bombardeado pela imprensa, vendo a sua intimidade tornar-se domínio público. Matheus Nachtergaele e Marco Ricca dão voz à inquietante e abusiva metalinguagem do longa, que costura retalhos de várias narrativas misturadas à poesia de Fernando Pessoa, em ritmo frenético, que parecem muitas vezes não fazer sentido. Mas tudo não passa de uma questão de tempo para que opiniões sejam revistas, levando-se em conta a jornada de vida percorrida por Laerte e por Otto – em meio à prática pública do crossdressing e pela identificação como transgênero, por parte do primeiro e pelo diagnóstico de câncer conferido ao segundo.

Tudo em “A Cidade dos Piratas” e, talvez por isso, a realidade se misture à fantasia da animação, como uma compulsão de um não alado em se lançar num abismo.

Follow me, Baby



Nem sempre, é possível deter o poder da escolha


“O marketing como filosofia de vida” – mote que se adensa como denúncia, com sutil dose de comicidade, ao longo do espetáculo “Follow me, Baby”.

Com extrema habilidade, o texto assinado por Ivan Jaf – consagrado dramaturgo carioca e autor de livros de ficção direcionados aos leitores infanto-juvenis – aborda as demandas do universo composto por fabricantes de novos produtos e seus consumidores em potencial – um prato cheio para o dinâmico jogo de direção de Rose Abdallah que, como atriz, acumula a sua inclusão na ficha técnica do espetáculo – no papel de Laura, ao lado dos atores Diogo Camargos e Ivan Vellame que interpretam Cavalcante, em dias alternados.

“Follow me, Baby” denuncia a “comercialização” da história de vida de Laura – uma atriz decadente que volta a trabalhar em uma grande emissora de TV – que recebe uma proposta comercial de grande monta e considerada irrecusável pelo ambicioso diretor de marketing Cavalcante. Diante da oferta, Laura se sente pressionada a optar pela preservação do seu passado ou pela a conquista de sua estabilidade econômica. Ao confrontar, friamente, os interesses empresariais como agente ativo com os sonhos de consumo como agente passivo, Jaf define pontos de vista distintos, através da divergência entre interesses e ações humanas, sob o ponto de vista ético. O conceito transmitido pelo personagem diretor de marketing, de que a vida em sociedade não é possível sem a realização de trocas, é a base propulsora para o planejamento e execução de cada cena dramatizada pela dupla de protagonistas, com total domínio do contexto que define o tênue limite entre drama e comédia, capaz de embarcar o espectador em uma deliciosa experiência, seja numa pequena arena, seja numa sala de espetáculos de maiores proporções.

Estética, funcionalidade e relevância - nomenclaturas presentes na essência do espetáculo - são estrategicamente introduzidas no palco quando da concepção do despretensioso projeto cenográfico, assinado por Lorena Lima, através de elementos destacados pelo fundo infinito negro, que interagem na teórica montagem de um sistema, a partir do qual, ambos os lados se beneficiam da mesma jogada de marketing. O aporte do casamento de interesses que une os personagens ganha distinção ao caracterizar “vendedor” e “consumidor” através do figurino de Trinca de Ás e pelo visagismo de Diego Nardes e Lucas Souza, que modelam os dois lados da mesma moeda porém, concedendo ao espectador, a visualização do produto final – o fator humano.  Da mesma forma, de mãos dadas à voluntária proposta de uma modéstia montagem, a luminotecnia cênica de Ricardo Meteoro surpreende, ao lançar mão de uma diversidade de efeitos de luz, capazes de aproximar e distanciar cenas do espectador, além de demarcar, nitidamente, os momentos cômicos e dramáticos do espetáculo – uma fidelidade que também é identificada quando da radiografia do caráter dos personagens pela trilha sonora de Paulo Mendes.

Ao reconhecer que a tomada de decisão, nem sempre, é algo fácil e que, quase sempre, os caminhos a serem trilhados podem se mostrar mais árduos do que se espera, o espetáculo “Follow me, Baby” transmite saciedade e estabelece a serenidade necessária, para quem está ciente de que, nem sempre, é possível deter o poder da escolha.

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Maria do Caritó



Doce e vigorosa entrega de Lília Cabral


Maria (Lília Cabral) – uma mulher solteirona porém, ingênua e romântica. Desde o dia de seu nascimento, guardada por seu pai para ser entregue ao desconhecido São Djalminha, Maria se mantém virgem – embora não desconheça os seus desejos íntimos e sonhe em encontrar um grande amor. Sempre na companhia e apoiada por sua amiga e confidente Fininha (Kelzy Ecard), Maria experimenta novas sensações perante a possibilidade de se apaixonar e desfrutar de um novo olhar frente à vida, com a chegada do Circo Eita em sua cidade.

Como se preservada numa prateleira ou nicho rústico – como aqueles típicos encontrados nas paredes das casas sertanejas, denominados caritós – a preservação da virgindade da protagonista da história lhe rende o codinome de ‘Maria do Caritó’ – título de mais uma surpreendente obra cinematográfica nacional, baseada em texto teatral homônimo, assinado pelo diretor, ator e autor pernambucano - Newton Moreno.

Com uma pegada fortemente ‘suassuana’ (de Ariano) e ‘gomesiana’ (de Dias), Moreno denuncia a extremada e falsa religiosidade corrompida pelo machismo e pela política. Não obstante, respeitosa ao viés definido pelo dramaturgo, a direção de  João Paulo Jabu confere ao sacrossanto interesse político-religioso, o status de coadjuvante, optando por enfatizar a essência da narrativa cinematográfica, em detrimento da ‘cordelização’ (de cordel) enraizada na peça teatral.

Contemplando fotografia, trilha sonora, figurino, visagismo, cenografia e luminotécnica de excelência, associados à doce e vigorosa entrega de Lília Cabral ao seu personagem, ‘Maria do Caritó’ é forte candidato à veiculação televisiva sob forma de minissérie – generosa divulgação de uma obra genuinamente brasileira, dentre tantas que acabam não saindo do seu caritó – guardadas, esquecidas, sem a possibilidade de despertar interesse por parte de uma legião de interessados em potencial.