quinta-feira, 31 de outubro de 2019

A Cidade dos Piratas




Inquietante e abusiva metalinguagem

Baseado nas HQs de Laerte Coutinho, a animação “A Cidade dos Piratas” é construída por personagens emblemáticos da obra do cartunista. A obra contempla várias tramas desenvolvidas e muito bem marcadas para facilitar o entendimento do espectador, com tópicos sobre críticas políticas, sobre a elaboração do longa, sobre dupla identidade e repleto de entrevistas. O resultado é condizente com o espírito de subversão, historicamente conhecido desde 1983, quando o Capitão de “Piratas do Tietê” estreou na revista ‘Chiclete com Banana’.


O cineasta Otto Guerra é responsável pela mistura corrosiva que, dentre diversos assuntos, insere Laerte, bombardeado pela imprensa, vendo a sua intimidade tornar-se domínio público. Matheus Nachtergaele e Marco Ricca dão voz à inquietante e abusiva metalinguagem do longa, que costura retalhos de várias narrativas misturadas à poesia de Fernando Pessoa, em ritmo frenético, que parecem muitas vezes não fazer sentido. Mas tudo não passa de uma questão de tempo para que opiniões sejam revistas, levando-se em conta a jornada de vida percorrida por Laerte e por Otto – em meio à prática pública do crossdressing e pela identificação como transgênero, por parte do primeiro e pelo diagnóstico de câncer conferido ao segundo.

Tudo em “A Cidade dos Piratas” e, talvez por isso, a realidade se misture à fantasia da animação, como uma compulsão de um não alado em se lançar num abismo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário