domingo, 27 de outubro de 2019

A Ira de Narciso




Marcas de uma desconstrução humana

A escrita, como instrumento de autodestruição, é materializada através da representação literária pelo fascínio do palco, tomando-se o sacrifício como ato poético do ser, com a sua própria morte. O autor dramaturgo e diretor de teatro franco-uruguaio Sergio Blanco se apropria do conceito da autoficção cênica, promovendo a aproximação do seu desejo por algo e de como algo é, independentemente de seu desejo.

O espetáculo idealizado por Celso Curi “A Ira de Narciso” institui a realidade fictícia contemplando as hipóteses de homicídio de um personagem ou do suicídio de seu homônimo, concedendo, ao espectador, o benefício da dúvida e o privilégio de decisão com base na sua própria leitura do espetáculo.  


A previsibilidade contida na história sobre a estada do protagonista na cidade de Ljubljana, na Eslovênia – para onde é convidado a dar uma palestra sobre o mito de Narciso – é nítida e, ao mesmo tempo, imersiva ao relato de um crime violento que acontece no mesmo quarto de hotel onde se encontra hospedado. A tradicional dramaturgia, que brinca com diferentes gêneros e estilos dramáticos, parece desmascarar o real objetivo da direção de Yara de Novaes – desnudar o artista. “A Ira de Narciso” soa como um documentário “pseudo-monólogo” e reforça a provocante e solitária atuação do ator Gilberto Gawronski, que enfatiza a criação da linguagem artística em prol do fenecimento das palavras do autor da obra, desenhado pelo ator Renato Krueger em meio à tristeza, à alegria e à paixão. As linhas de ficção e de realidade se cruzam em meio a verdades e mentiras, através de um simbólico labirinto composto pelos elementos cenográficos – engenhosamente mimetizados segundo equipamentos sonotécnicos, concebidos em um contexto orgânico por André Cortez que se mesclam aos equipamentos e projeções luminotécnico-cênicas componentes do desenho de luz de Wagner Antonio, que geometrizam a dramaticidade da atmosfera do quarto da “hospedaria” – vitimado pela presença de um convocado virtual e maculado pelas marcas de uma desconstrução humana – quiçá, frutos de sua concupiscência dissimulada. Fábio Namatame assina o figurino e o “desfigurino” responsáveis pelo espelhamento disforme do narcisismo e de suas minicertezas que acrescentam, ainda mais, tinta na fantasia intitulada “modernidade”.

O ego mal encaixado no manuseio de misturas no tempo do jogo cênico resulta em um trabalho vital, apreciado tanto visual quanto intelectualmente. “A Ira de Narciso” faz  parte de uma trilogia de Sergio Blanco que eclode com Édipo (Tebas Land) e tem o seu ciclo fechado, ao questionar os limites da arte no, ainda inédito no Brasil, “El bramido de Düsseldorf”.

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