segunda-feira, 14 de outubro de 2019

A Luz no Fim do Mundo



Um aguçado sentido crítico


A longuíssima cena inicial do filme “A Luz no Fim do Mundo” já deixa bem claro que o espectador está servindo de cobaia para o estreante na cadeira do diretor – Casey Affleck, que também assina o roteiro do longa e nele, também atua.

Em uma barraca, à noite, Affleck inventa uma história de ninar para a sua filha adolescente e, tomado por intensa sutileza, conta as aventuras de uma raposa fêmea e de seu companheiro, abarcando no contexto, até mesmo, a Arca de Noé. Na metade do conto, a raposa fêmea perde o protagonismo, sendo este, repassado para o seu companheiro – desenhando, dessa forma, a descentralização da figura feminina. O fato é notoriamente percebido por sua filha, que lhe indaga se ela seria a única garota da sua espécie.

“A Luz no Fim do Mundo” revela um aguçado sentido crítico em um mundo pós-apocalíptico onde uma pandemia dizima a população feminina do planeta e, estranhamente, a sua filha se torna a única sobrevivente. Apesar de sã, para não ser tomada por ser capaz de transmitir a peste contraída somente pelas mulheres, a menina deve se comportar como um garoto. Por muito tempo, durante o filme, pai e filha são os únicos humanos na tela, em meio a uma paisagem desértica e assustadoramente estéril – obra do diretor de fotografia Adam Arkapaw que, através das imagens, impõe o drama necessário aos solitários personagens.

O ritmo arrastado negligencia a incongruência e a falta de lógica que justifiquem a ocorrência da hecatombe, mas constrói, lentamente, a relação pai e filha. As aparições repentinas de outros humanos se mostram ameaçadoras, pois não enxergam a jovem como um garoto - a despeito de seu disfarce, colocando a vida da menina em risco – em decorrência de que pode ser tomada como uma ameaça aos homens sobreviventes e de que nenhuma mulher deve permanecer viva após o surgimento da praga.

O posicionamento do longa “A Luz no Fim do Mundo” soa autocongratulatório, ao mesmo tempo machista, tendo em vista a abordagem de partir da visão do status do homem como provedor pois também é o homem quem protege, do mundo, o único ser do gênero feminino. Anna Pniowsky, como a filha que precisa se disfarçar de menino, não permite que o filme termine com essa impressão tão retrógrada. O seu olhar confiante, frio e avaliador desenha uma criança porém, cônscia da fluidez entre a maturidade e o que representa um mundo dominado somente por homens.

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