quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Follow me, Baby



Nem sempre, é possível deter o poder da escolha


“O marketing como filosofia de vida” – mote que se adensa como denúncia, com sutil dose de comicidade, ao longo do espetáculo “Follow me, Baby”.

Com extrema habilidade, o texto assinado por Ivan Jaf – consagrado dramaturgo carioca e autor de livros de ficção direcionados aos leitores infanto-juvenis – aborda as demandas do universo composto por fabricantes de novos produtos e seus consumidores em potencial – um prato cheio para o dinâmico jogo de direção de Rose Abdallah que, como atriz, acumula a sua inclusão na ficha técnica do espetáculo – no papel de Laura, ao lado dos atores Diogo Camargos e Ivan Vellame que interpretam Cavalcante, em dias alternados.

“Follow me, Baby” denuncia a “comercialização” da história de vida de Laura – uma atriz decadente que volta a trabalhar em uma grande emissora de TV – que recebe uma proposta comercial de grande monta e considerada irrecusável pelo ambicioso diretor de marketing Cavalcante. Diante da oferta, Laura se sente pressionada a optar pela preservação do seu passado ou pela a conquista de sua estabilidade econômica. Ao confrontar, friamente, os interesses empresariais como agente ativo com os sonhos de consumo como agente passivo, Jaf define pontos de vista distintos, através da divergência entre interesses e ações humanas, sob o ponto de vista ético. O conceito transmitido pelo personagem diretor de marketing, de que a vida em sociedade não é possível sem a realização de trocas, é a base propulsora para o planejamento e execução de cada cena dramatizada pela dupla de protagonistas, com total domínio do contexto que define o tênue limite entre drama e comédia, capaz de embarcar o espectador em uma deliciosa experiência, seja numa pequena arena, seja numa sala de espetáculos de maiores proporções.

Estética, funcionalidade e relevância - nomenclaturas presentes na essência do espetáculo - são estrategicamente introduzidas no palco quando da concepção do despretensioso projeto cenográfico, assinado por Lorena Lima, através de elementos destacados pelo fundo infinito negro, que interagem na teórica montagem de um sistema, a partir do qual, ambos os lados se beneficiam da mesma jogada de marketing. O aporte do casamento de interesses que une os personagens ganha distinção ao caracterizar “vendedor” e “consumidor” através do figurino de Trinca de Ás e pelo visagismo de Diego Nardes e Lucas Souza, que modelam os dois lados da mesma moeda porém, concedendo ao espectador, a visualização do produto final – o fator humano.  Da mesma forma, de mãos dadas à voluntária proposta de uma modéstia montagem, a luminotecnia cênica de Ricardo Meteoro surpreende, ao lançar mão de uma diversidade de efeitos de luz, capazes de aproximar e distanciar cenas do espectador, além de demarcar, nitidamente, os momentos cômicos e dramáticos do espetáculo – uma fidelidade que também é identificada quando da radiografia do caráter dos personagens pela trilha sonora de Paulo Mendes.

Ao reconhecer que a tomada de decisão, nem sempre, é algo fácil e que, quase sempre, os caminhos a serem trilhados podem se mostrar mais árduos do que se espera, o espetáculo “Follow me, Baby” transmite saciedade e estabelece a serenidade necessária, para quem está ciente de que, nem sempre, é possível deter o poder da escolha.

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