quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Malévola: Dona do Mal



Uma produção generosa, cheia de mensagens subliminares e com grande potencial de se tornar uma franquia longeva


A partir de “Malévola: Dona do Mal”, é possível compreender a ambição da Walt Disney Pictures quanto ao provável desenvolvimento de uma saga – aparentemente baseada no clássico de animação “A Bela Adormecida”, de 1959 – que tem como embrião o live-action “Malévola”, de 2014.

O viés infanto-juvenil integrante do mundo da fantasia de “A Bela Adormecida”, que segue a fórmula do conto de fadas no qual uma pobre menina encontra toda a sorte de barreiras para realizar seu sonho, até que, após uma batalha contra o mal, um príncipe encantado a resgata da amargura ou de um sono profundo e vivem felizes para sempre – uma livre adaptação de contos originais seculares, no caso da história da princesa Aurora – de Disney, que remonta às versões de Giambattista Basile (1634), de Charles Perrault (1697) e dos irmãos Grimm (1821).

Considerando-se o potencial criativo dedicado à versão animada de 1959, capaz de subtrair os assuntos tabus para o público infanto-juvenil das obras de Basile e Perrault, as versões live-action resgatam a essência do mundo da fantasia e investe na filosofia dos mundos das fadas e dos humanos e na psicologia dos personagens, lhes conferindo surpreendentes redefinições de papéis e de suas atribuições enquanto heróis e vilões.

“Malévola: Dona do Mal” dá continuidade à desconstrução dos paradigmas aos quais todos foram induzidos a conceber como verdade – como Aurora ser despertada de seu sono profundo por um beijo de amor que, no live-action de 2014, teve como agente, ninguém menos que, Malévola, em vez de um beijo por parte do príncipe Philip.

Laços de afinidade, que acabaram unindo Aurora (Elle Fanning) a Malévola (Angelina Jolie) numa relação de mãe e filha, deram frutos para a formação de uma nova família, triangulada pelo corvo Diaval (Sam Riley). Com isso, Aurora se torna a rainha de Moors – um reino nos moldes de uma floresta encantada, habitado por fadas e outras criaturas, até então, governado por Malévola.

Ao contrário do final “e viveram felizes para sempre” da animação clássica, Aurora e o príncipe Philip (Harris Dickinson) não se casam após o despertar da princesa, mas anunciam seu casamento em “Malévola: Dona do Mal” – enlace que evidencia a tentativa de união entre os reinos das fadas e o dos humanos - mas que intensifica, aparentemente, os sentimentos maternos da rainha Ingrith (Michele Pfeifer) para com a futura esposa de seu filho Philip e acirra, a olhos vistos, a ira de Malévola frente ao desafio pela luta contra a possibilidade da perda do amor de Aurora.

O contraste entre o bem e o mal é evidenciado, não somente, através das cenas líricas e belicosas, mas também pelo contraste entre o cromatismo acentuado e a neutralidade da penumbra – tal e qual um prenúncio dicotômico entre Sol e Lua, promovendo ao espectador uma experiência digna de reflexão sobre a evolução dos contos de fadas e a dura realidade do mundo real contemporâneo.

“Malévola: Dona do Mal” é uma produção generosa, cheia de mensagens subliminares e com grande potencial de se tornar uma franquia longeva – quem sabe, a partir do fruto do amor entre Aurora e Philip.

Nenhum comentário:

Postar um comentário