quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Maria do Caritó



Doce e vigorosa entrega de Lília Cabral


Maria (Lília Cabral) – uma mulher solteirona porém, ingênua e romântica. Desde o dia de seu nascimento, guardada por seu pai para ser entregue ao desconhecido São Djalminha, Maria se mantém virgem – embora não desconheça os seus desejos íntimos e sonhe em encontrar um grande amor. Sempre na companhia e apoiada por sua amiga e confidente Fininha (Kelzy Ecard), Maria experimenta novas sensações perante a possibilidade de se apaixonar e desfrutar de um novo olhar frente à vida, com a chegada do Circo Eita em sua cidade.

Como se preservada numa prateleira ou nicho rústico – como aqueles típicos encontrados nas paredes das casas sertanejas, denominados caritós – a preservação da virgindade da protagonista da história lhe rende o codinome de ‘Maria do Caritó’ – título de mais uma surpreendente obra cinematográfica nacional, baseada em texto teatral homônimo, assinado pelo diretor, ator e autor pernambucano - Newton Moreno.

Com uma pegada fortemente ‘suassuana’ (de Ariano) e ‘gomesiana’ (de Dias), Moreno denuncia a extremada e falsa religiosidade corrompida pelo machismo e pela política. Não obstante, respeitosa ao viés definido pelo dramaturgo, a direção de  João Paulo Jabu confere ao sacrossanto interesse político-religioso, o status de coadjuvante, optando por enfatizar a essência da narrativa cinematográfica, em detrimento da ‘cordelização’ (de cordel) enraizada na peça teatral.

Contemplando fotografia, trilha sonora, figurino, visagismo, cenografia e luminotécnica de excelência, associados à doce e vigorosa entrega de Lília Cabral ao seu personagem, ‘Maria do Caritó’ é forte candidato à veiculação televisiva sob forma de minissérie – generosa divulgação de uma obra genuinamente brasileira, dentre tantas que acabam não saindo do seu caritó – guardadas, esquecidas, sem a possibilidade de despertar interesse por parte de uma legião de interessados em potencial.

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