segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Mojo Mickybo



Dura realidade potencializada pela certeza da inexistência de heróis


No auge das sectárias adversidades vivenciadas em uma cidade no início dos anos 1970, dois meninos que crescem juntos compartilham o vislumbre de suas experiências através de seus olhares modelados pelo seriado televisivo ‘Batman e Robin’ e pelo longa metragem ‘Butch Cassidy e Sundance Kid’.

Com base nesse argumento, o espetáculo “Mojo Mickybo” mergulha no melancólico facciosismo causado pela guerra e por adversidades econômicas, sociais e religiosas que corrompem a amizade entre ambos – uma dura realidade potencializada pela certeza da inexistência de heróis que possam aplacá-la.

O texto de 1998, assinado pelo dramaturgo irlandês Owen Mccaferty – cuja montagem, sob a meticulosa direção de Diego Morais, é inédita nos palcos brasileiros – confere, ao espectador, primorosos momentos de embarque rumo ao passado, matizado por prazeres favorecidos pela inocência da infância. Não obstante – de forma incômoda e lastimável – em distintos momentos, o espectador atento, ao exercitar o seu olhar crítico, é capaz de traçar paralelos com o que se passa nas esferas político-econômicas atuais, com reflexos avassaladores nas relações sociais, uma vez que, a gradual evolução do potencial de colisão entre os dois amigos parece ser causada por diferentes persuasões ideológicas. Pedro Henrique Lopes, que dá vida a Mojo, também assina a adaptação do texto original de Mccaferty e parece polarizar o posicionamento geográfico dos seu personagem – o do "lado da estrada" e de Mickybo – o do "sobre a ponte", segundo um panorama entrelaçado por alusões e subtextos que ronda a ascensão da violência atrelada ao poder, de maneira sombria e contumaz.

As lentes nostálgicas da cândida meninice resgata e aflora a essência pueril integrantes d’alma dos atores Pedro Henrique Lopes e Cirillo Luna – no papel de Mickybo – diante de uma plateia contempladora que torce, em uníssono com os personagens, para que os super-heróis idolatrados pela dupla impeçam que a ameaça das bombas da guerra atinjam a sua cidade natal. Os interlúdios narrativos e a interpretação de Lopes e Luna assumem o status visual de um graphic novel frente ao cenário e figurino de Clívia Cohen e José Cohen – intensificando os momentos durante os quais o espectador decifra o tema amizade em uma sociedade turbulenta e repleta de privações sociais e emocionais – carregados no contraste entre sombras e luzes promovidos pelo desenho de luz de Paulo Cesar Medeiros, que se anuncia para o que veio anteriormente ao trágico epílogo e, se faz presente, em doses homeopáticas, como um irregular e desconfortável pano de fundo dos infortúnios enfrentados pelos protagonistas.

“Mojo Mickybo” contempla um rito de passagem que não ignora o que deveria ser ignorado e promove o adequado equilíbrio à temática a partir do olhar de duas crianças, ao mesmo tempo que oferece a ingênua constatação de que sequer Batman teria vez, nos dias atuais, como paladino da justiça.

Nenhum comentário:

Postar um comentário