quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Rogéria - Senhor Astolfo Barroso Pinto



Sob o manto da afetividade


“Rogéria - Senhor Astolfo Barroso Pinto” entra para o rol dos documentários-arte, por mérito de sua produção a partir de um projeto desenvolvido com dedicação visceral de Pedro Gui, que acumula a direção do longa. Apesar da atmosfera afetiva que envolve o roteiro, em momento algum, Gui demonstra qualquer ambição no desenvolvimento de uma cinebiografia – muito porque sua abordagem não tem como meta a cobertura da vida da protagonista, contemplando uma cronologia nos moldes de um começo, de um meio e de um fim de vida e de carreira. 

Pedro Gui assume o projeto, empenhado em dirigi-lo, claramente, sob o manto da afetividade, a partir da coletânea de depoimentos de amigos e familiares do menino Astolfo que se metamorfoseia no eximio maquiador de astros e estrelas – Rogério que, por sua vez, no carnaval de 1964, ao participar de um concurso de fantasias, é aclamado pelo público como “Rogéria” – nascendo, assim, a travesti mais famosa do país, em meio ao golpe militar.

A estrutura e o ritmo do documentário aparentam conflituosos por meandrarem em meio à realidade e o glamour e por não vislumbrarem a finalização de qualquer ciclo. Como um registro histórico que resgata passagens e aspectos relevantes da vida de Rogéria e a sua importância na atual conjuntura de um país retomado pela subjugação aos costumes moralistas retrógrados, “Rogéria - senhor Astolfo Barroso Pinto” serve como uma bússola que orienta os questionamentos sobre o caráter ideológico dos discursos dominantes pelas “pessoas de bem”, elaborados e pigmentados, historicamente, por vários tons de hipocrisia.

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