domingo, 20 de outubro de 2019

Sylvia



A ilusória alma do bichinho cheio de vontades – desenhado sem pelos num corpo bem torneado, como se a sua silhueta remetesse a de um Cocker Spaniel

Uma cadelinha – cuja classificação etária pode defini-la ainda como filhote que, por sua vez, transborda em impulsividade e em egoísmo instintivo – torna-se coerentemente encantadora ao ser incorporada pela atriz Simone Zucato e concede o seu nome ao título do espetáculo dirigido com extrema candura por Gustavo Wabner – “Sylvia”.

Sem qualquer vestígio de pudor, Sylvia fareja virilhas das visitas, se impõe de forma ameaçadora frente a gatos e, em franco exibicionismo de sua nata crueldade canina, devasta a ordem e corrompe o princípio de asseio da casa como um tsunami. Seu comportamento desencadeia o que há de mais selvagem na psiquê do casal formado por Greg – modelado, despretensiosa e confortavelmente, por Alexandre Dantas, como o marido que se permitiu vulnerabilizar pela paixão pela cadela sem lar Sylvia – e Kate – a esposa centrada, capaz de controlar os seus afetos a partir de uma visão clara entre razão, paixão incorporada e tocante sensibilidade, pela atriz Cláudia Ventura. Greg retrata o típico homem bem sucedido porém, infeliz profissional e emocionalmente, acometido, juntamente com Kate, pela síndrome do ninho vazio após a saída de seus filhos de casa, com vistas à condução de suas próprias vidas. Diante desse quadro, repleto de fragilidade emocional, Greg encontra consolo em Sylvia, ao resgatá-la em uma praça e levá-la para casa, para o terror de Kate, que encara a sua nova fase de vida, sem os filhos em casa, como uma oportunidade de um recomeço sem amarras, sequer pela adoção de um cão.

O texto de A.R. Gurney lança mão da cativante figura canina para discorrer, de forma leve e poética, sobre a socialização durante a crise de meia-idade do marido e a insensibilidade da esposa diante da crise existencial do companheiro. A liberdade poética presente na tradução de Simone Zucato, abre campo para que Wabner canalize a energia selvagem da história e filtre o seu teor misógino e sexista, aparentemente, latente na obra de 1995. Contribuindo para com a  atenuação dos momentos de conflito entre o casal, o ator comediante Rodrigo Fagundes se desdobra em três personagens que sustentam o termo comédia, da classificação do espetáculo como romântico – o machão, dono de um cão; a requintada amiga de Kate; e o terapeuta, cuja indefinição sobre sua sexualidade fica por conta de sua marcante androginia. A precisão contida na evolução do espetáculo é muito bem acomodada pelo cenário poli temático de Camila Schimtz que modula a exasperação estridente, muito próximo ao caos de um lar doce lar - uma perfeita sobreposição alternante de interior com exterior, presente durante todo o espetáculo. A mulher-animal, embora tenha a sua mística conectada à humanização dos seres vivos, parece bem analisada pelo figurino de Marcelo Marques, que brinca com essa presunção, sem domesticar a ideia feminista. A sombria psicopatia, com tendências bestiais, é atenuada pelo equilibrado e lúdico desenho de luz de Wagner Freire que contempla, respeitosamente, o fluxo das passagens sensuais, com muita consciência e respeito para com o espectador. Seja durante a prática de um certo Le Parkour pelos quatro cantos do apartamento do casal, nos momentos que dedica a lamber seu dono ou à destruição dos sapatos de Kate, Sylvia baila ao som da trilha sonora de Daniel Maia, que confere o afloramento d’alma do belo animalzinho de estimação e, porque não dizer, um certo apelo sexual. O embaraçoso comportamento instintivo e primitivo de Sylvia conta com a direção de movimento de Sueli Guerra, que exibe, de maneira sutil e, algumas vezes desconcertantes, as peripécias da cativante cadelinha. A ilusória alma do bichinho cheio de vontades – desenhado sem pelos num corpo bem torneado, como se a sua silhueta remetesse a de um Cocker Spaniel – é muito bem dimensionada pelo visagismo de Tainá Lasmar.

“Sylvia” fala do amor interespécies, das pessoas que antropomorfizam seus animais e esquecem de categorizar os seres pensantes com os quais se deparam todos os dias – em casa, nas ruas e pela vida a fora.

Nenhum comentário:

Postar um comentário