quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Carcereiros - O Filme



Deixa a desejar


Desprezando a possibilidade de realizar uma produção amparada por denúncia social, focada no dia a dia dos profissionais carcerários e os de seus detentos – como o fora impresso nas duas temporadas da série ‘Carcereiros’ veiculadas pela TV – José Eduardo Belmonte modela a sua direção de “Carcereiros - O Filme”, segundo os moldes dos filmes contemplando, eminentemente, ação explosiva.

Rodrigo Lombardi torna-se o ícone da série televisiva e, consequentemente, leva o longa de Belmonte nas costas, como Adriano – um historiador graduado, defensor da antiviolência, que segue os passos de seu pai e torna-se carcereiro no Complexo Penitenciário do Carandiru, na zona oeste da grande São Paulo.

Em “Carcereiros - O Filme”, a chegada do perigoso terrorista internacional – Abdel (Kaysar Dadour) – ao Carandiru deflagra um estado de tensão entre duas facções criminosas. A partir de então, Adriano assume a difícil tarefa na qual enfrenta a rebelião, ao mesmo tempo que deve garantir proteção ao terrorista – uma overdose de cenas que contempla uma fotografia digna de filme de terror, através da qual é impossível identificar o que acontece diante de câmeras nervosas, sob flashes de luz em meio a escuridão, sem uma trilha sonora que, pelo menos, instigue a imaginação do espectador, enquanto tenta entender quem corre atrás de quem, quem corre de quem, quem atira em quem e quem é baleado por quem.

No frigir dos ovos, o longa – mesmo com ressalvas de que se trata de um filme baseado na série televisiva de mesmo nome – deixa a desejar e desmerece, em muito, as histórias de Drauzio Varella publicadas no livro “Carcereiros” em 2012.

Aspirantes



Uma autêntica história sobre a natureza humana


Ao se apropriar da temática futebolística, como foco do seu olhar diante das minorias, o diretor Ives Rosenfeld constrói uma autêntica história sobre a natureza humana, através da figura de um jovem que tem, como meta de vida, se tornar um profissional do futebol. Para isso, precisa travar uma luta pessoal contra a inveja, latente e crescente, das conquistas de seu melhor amigo, com quem compartilha as atividades atléticas como aspirante – comprometendo o amor que lhe é dedicado pelo próprio amigo e por sua namorada.

O confronto entre a vida dura da periferia e a ambição pelo controle da bola em campo define narrativa de “Aspirantes” que, durante o seu desenvolvimento, estanca do nada e passa a bola para o espectador que, por sua conta e risco, se incumbe de estabelecer o seu nível de empatia com os personagens.

Os conflitos existenciais suportados pelo protagonista passam ao largo das experiências de vida dos demais personagens, configurando uma luta, intimamente pessoal, entre o inconformismo diante do que a vida lhe reserva e a expectativa da sociedade – em especial, daqueles que lhe são próximos – enquanto deveres e compromissos morais.  O jovem ator cearense, Ariclenes Barroso, incorpora esse papel e o defende sob a ótica de quem vê, no futebol, a única saída para sair miséria – estampando, em seu semblante, a revolta do protagonista, de forma exuberantemente real.

Rosenfeld não dá sinais de preocupação para com um final ameno, retratando fatos que minam e destroçam o ser humano que, nem mesmo sendo um craque, sem qualquer marcação, consegue a proeza de realizar um chute a gol, sequer.

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Entre Cinzas, Ossos e Elefantes



Criatividade que implica no começo temporal, sem a possibilidade de recuperação do que foi realizado em seu início


Uma força criadora – que dispensa definições e rótulos, e que assume configuração misteriosa, desprovida de nomenclatura estética – expande-se como um Big Bang durante o espetáculo “Entre Cinzas, Ossos e Elefantes”.

Cem por cento dependente da interação do público, a dinâmica definida pela direção de Renato Rocha manipula o espectador, remotamente, através de um fluxo exploratório informal, em busca da compreensão da essência da obra escrita por intermédio de seus performers Claudia Wer, Dani Barbosa, Daniel Bouzas, Dandara Patroclo, Eduardo Ibraim, Gabriela Freire, Gabrielle Novello, Luiz Marques, Maria Cândida Portugal, Miguel Kalahary, Nina Rodrigues, Raquel Polistchuck, Renan Fidalgo, Stella Brajterman, Tatyane Meyer e Thaisa Santoth. O cenário é composto pelo conjunto de instalações efêmeras que renascem de suas cinzas, a cada espetáculo que, por sua vez, se desenrola na multiplicidade de cômodos e recantos que compõem a Casa da Glória, no Rio de Janeiro – na temporada de novembro a dezembro de 2019.

Os fragmentos de arte viva aspergidos pelos palcos internos e externos da casa de espetáculos são inspirados em produções das artes plásticas e literárias de consagrados artistas e escritores - dentre os quais: Paul Klee, Walter Benjamin, Michel Foucault, Richard Schechner e Ericson Pires - que se manifestam diante do progresso em direção ao futuro; dos estudos sobre lugares transitórios, construções de lugares possíveis e dos novos habitats; de histórias e memórias soterradas por escombros; do processo de vida e morte, renascimento e semeadura; e da estética carnavalizada e o espírito do carnaval de rua do Rio de Janeiro. Trata-se de um processo que estimula os cinco sentidos do espectador, vitimado por experiências pessoais e intransferíveis, e dosadas pelo seu envolvimento nos episódios que desconstroem, que movimentam, que reeditam e que humanizam os espaços, amparados pela energia e o pelo prazer, beirando ao bacante, em seu desfecho épico e festivo, inscritos pela alucinógena instalação sonora de Daniel Castanheira.

Performers, em franco desempenho enérgico, se alternam e se camuflam em meio às instalações sob a direção de movimento de Eléonore Guisnet, que molda os caminhos traçados pelo espectador diante de uma obra pulsante. Renato Machado concebe um desenho de luz de tal forma a conduzir a atenção do espectador para que, os quatro cantos do casarão sejam aleatoriamente explorados. Sem a esfera da inércia humana, o desbloqueio dinâmico da percepção do que está sendo contado só é possível pelo figurino da NAI – Núcleo de Artes Integradas, que fornece a fixidez necessária para a farsa que inflama a curiosidade.

“Entre Cinzas, Ossos e Elefantes” é um ato de criatividade que implica no começo temporal, sem a possibilidade de recuperação do que foi realizado em seu início – o infinito que prolonga o conceito do finito que se vê a olhos nus; o ciclo do fim dos vínculos; a circularidade dos movimentos que não elimina a norma que independe de onde se começa a caminhada, através da qual, nem sempre, chegamos ao nosso destino.

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Pink Floyd Experience in Concert



Uma noite soberba a uma legião de fãs da banda britânica mais influente e bem-sucedida da história do rock


Em única apresentação – sábado, dia 16 de novembro de 2019, no Teatro VillageMall, Barra da Tijuca, Rio de Janeiro – o fascinante show “Pink Floyd Experience in Concert” oferece uma noite soberba a uma legião de fãs da banda britânica mais influente e bem-sucedida da história do rock. Sem qualquer demérito para com o espetáculo, não se trata de show de uma banda cover, mas um tributo, mais do que respeitoso e generoso, prestado às mentes brilhantes e únicas, de David Gilmour e Rogert Waters.

A genialidade contida na experiência musical tem início com ‘Shine on you crazy diamond” que arrebata a plateia, surpreendida  pelos primeiros acordes e efeitos visuais promovidos pelas projeções em mapping 3D e pelo pirotécnico desenho de luz, que acompanham os embalos de sucessos consagrados da banda, tais como: ‘Wish you were here’, ‘Time’ e ‘Money’. Fato notório, a banda transita por entre sutis variações dos arranjos originais das gravações de estúdio sem, com isso, prejudicar a sua leitura e credibilidade por parte do espectador.

O clímax tão esperado pelo público em transe e sedento por mais “Pink Floyd” acontece ao final da apresentação – sob as luzes e sons de helicópteros que simulam sobrevoo na plateia e que assumem a ótica e a acústica da sala de apresentação – com a apresentação de  ‘Another Brick in the Wall’.

Assumem, à frente da banda, três interativos instrumentistas – de guitarra, de violão e de baixo – dois dos quais, vocalistas masculinos. Bateria e teclado dividem o segundo plano do palco com a surpreendente backing vocal feminina. A generosidade do projeto leva ao palco uma compacta orquestra regida pelo maestro Eduardo Pereira, que faz de cada canção um espetáculo à parte ao promover emoção coletiva para todos os presentes no teatro lotado, em pleno feriadão, na cidade do Rio de Janeiro.

O bis ratifica não se tratar, apenas, de um banda que canta e toca músicas do Pink Floyd, mas um grupo que presta seu testemunho de paixão e louvor à banda icônica do rock, visivelmente entregue ao seu ofício quando da interpretação de ‘Comfortably numb’ – que fecha a inesquecível noite de show que se enquadra na categoria "não perca esse espetáculo quando de seu retorno ao Brasil”.

Fogo Contra Fogo



Destaque dentre os dramas biográficos sobre a luta contra o sistema segregacionista promovido pelo Apartheid


“Fogo Contra Fogo” – longa de estreia da diretora Mandla Dube, contemplando conteúdo dramático e biográfico fascinante.
Conta a história do ambulante de dezenove anos – Solomon Kalushi Mahlangu (Thabo Rametsi), nascido em 10 de julho de 1956, na cidade de Mamelodi, localizada nos arredores de Pretória - África do Sul.

Quando do Levante de Soweto em 16 de junho de 1976 – um dos mais sangrentos episódios de rebelião negra, desencadeado pela repressão policial à passeata de protesto contra a política racista do governo que alimentava a inferioridade das ‘escolas’ para negros na África do Sul – Kalushi é barbaramente espancado pela polícia, pelo simples fato de ser negro. Em busca pelo exílio, Kalushi se associa ao movimento de libertação junto ao Congresso Nacional Africano (ANC) para ser treinado como soldado, em Angola. De volta à África do Sul, durante sua primeira missão, seu amigo camarada Mondi (Thabo Malema) perde o controle psicológico e atira em duas pessoas inocentes na Goch Street, em Joanesburgo. Enquanto Mondi passa por um brutal processo de espancamento e tortura, Kalushi é julgado de forma assustadora, sob a ameaça, pelo Estado, de ser condenado à maior pena – morte por enforcamento.

A comovente direção de Dube retrata, de maneira convincente, o drama das pessoas que perderam a vida lutando pela liberdade na África do Sul. Sem qualquer escrúpulo capaz de deslocar o espectador da sua zona de conforto, o longa registra a dura, violenta, injusta e dolorosa história que transformou Kalushi em um ícone internacional do Levante de Soweto.

A veracidade embutida no longa, muito se deve ao elenco composto por artistas totalmente locais. “Fogo Contra Fogo” ocupa lugar de destaque dentre os dramas biográficos sobre a luta contra o sistema segregacionista promovido pelo Apartheid, no final dos anos 1970, na África do Sul. 

A Grande Mentira




Um suspense familiar

O ano é 2009; local, Londres. Um homem e uma mulher, ambos septuagenários, mantém contato através de um site de namoro, até transferirem o relacionamento virtual para a vida real. O início da amizade entre Roy (Ian McKellan) e Betty (Helen Mirren) é amparado pelo fato da mulher ser viúva recente. Certo dia, a caminho de um encontro com Betty, Roy sente o seu joelho - devido a uma anomalia pré-existente – sendo, prontamente, acolhido pela viúva, em sua própria casa. A partir de então, Betty abre a sua guarda de tal forma a assumirem compromissos contratuais, envolvendo bens de ambos, deflagrando o início de uma relação em meio a qual, verdades e mentiras podem ser conjecturadas e dimensionadas proporcionalmente aos dramas vivenciados, no passado, por cada um dos protagonistas.


“A Grande Mentira” é um suspense familiar, articulado pela perspicaz direção de Bill Condon, prologado com ares de comédia romântica. Não obstante, a sequência de cenas assume contornos sombrios e desconfortáveis, até os momentos finais da película, maciçamente sustentada pelo desempenho do elenco protagonista e pelo rocambolesco roteiro assinado por Jeffrey Hatcher, baseado no romance de Nicholas Searle - ‘The Good Liar’.

Midway - Batalha em Alto Mar



Cenas que impressionam pela excelência da carga de realidade com que foram elaboradas


Roland Emmerich não é um cineasta que se empenha pela inclusão da tranquilidade em seus filmes – tampouco, “Midway - Batalha em Alto mar”, foge à regra.

A ação presente nas sequências das batalhas aeronavais toma quase a totalidade das cenas do longa que, só pela dose de adrenalina injetada no espectador, vale cada centavo investido na aquisição do ingresso para assistir à produção de Roland Emmerich e Harald Kloser e passar pela experiência de participar de uma diversidade dentre as mais disputadas batalhas da Segunda Guerra Mundial – o ataque a Pearl Harbor, o Raid de Doolittle e a Batalha de Midway. Cenas que impressionam pela excelência da carga de realidade com que foram elaboradas, conferindo, ao longa, o status de um forte candidato a uma série de premiações conferidas às produções cinematográficas.

A história, baseada em fatos reais, se desenvolve a partir de 1937, quando uma visita diplomática dos Estados Unidos da América ao Japão progride um ataque a Pearl Harbor no final de 1941, estendendo-se até a Batalha de Midway – durante a qual os Estados Unidos confrontam a Marinha Imperial Japonesa, em junho de 1942.

“Midway - Batalha em Alto Mar” é repleto de informações bélicas que se fundem com a narrativa dos personagens, retratando o drama da batalha que marcou uma das grandes vitórias americanas durante a Segunda Guerra Mundial - citada como o mais importante ato na alteração do curso da guerra no Pacífico. Emmerich foi cauteloso ao afastar sua obra das homenagens clichês aos heróis de guerra envolvidos, a despeito da galeria de referências aos personagens reais – e breves desdobramentos de suas vidas, até os dias atuais – ao final do filme, tais como: o piloto Dick Best (Ed Skrein), o oficial de inteligência Edwin Layton (Patrick Wilson), o almirante Chester W. Nimitz (Woody Harrelson), o tenente-comandante Wade McClusky (Luke Evans) e naval o radialista Bruno Gaido (Nick Jonas), dentre outros.

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Crocodilagem




“Lágrimas de crocodilo”

Ao devorarem suas presas, crocodilos e jacarés as ‘mastigam’, promovendo intensa pressão no céu da boca e, consequente, compressão de suas glândulas lacrimais, a ponto de lhes estimular a lacrimação – daí surgindo a expressão “lágrimas de crocodilo”, usada quando alguém simula o choro, mesmo sem um sentimento genuíno por detrás daquela manifestação. Não somente a expressão alusiva à hipocrisia é imputada às espécies de animais que, atualmente, depois das aves, são as mais próximas das dos dinossauros, mas também, o  termo “crocodilagem” expressa, informal e pejorativamente, o ato ou efeito de trair ou enganar.


Em meio aqueles conceitos, Afonso e Luci são protagonistas de uma passagem comum, cuja aproximação os leva, assustados e ofegantes, à copa de um jatobá – árvore considerada sagrada por povos indígenas, cujos frutos eram servidos previamente aos rituais de meditação. Para Afonso e Luci, a tábua de salvação como porto seguro contra a perseguição de um jacaré é ponto de partida para uma DR entre desconhecidos, ligados por laços comerciais.

Afonso é o guia de uma excursão que tem Luci como cliente única – cujo encontro pode ser justificado, hipoteticamente, pelo desejo de realização de um sonho, através do qual, Luci se aproximaria da natureza, ao visitar algum paraíso ecológico pantaneiro, repleto de animais silvestres. Espreitados pelo jacaré, Afonso e Luci travam uma batalha de modo a conceber uma forma de descer da árvore sem serem devorados pelo animal – argumento do espetáculo “Crocodilagem”, a partir do qual são expurgados arrependimentos, dores e mágoas, ao longo de um tempo que se esvai, aproximando-se, cada vez mais, do horário biológico da próxima refeição do réptil.

As impressões do Circuito Geral, relativamente ao texto e à direção de Cláudio Torres Gonzaga, denunciam um espetáculo que é entregue ao expectador com vocação desejável cem por cento cômica, ao mesmo tempo que contempla ameaças, perigos, medos e perturbações de ordem piscoemocionais minimizados, numa situação muito pouco provável, negligenciando a possibilidade de alavancar o produto traçado a partir de uma leitura mais contemporânea de humor.

A estrutura dos sintomas possível de ser observada, pelo desempenho de Dani Brescianini e Pablo Diego Garcia, intensifica a avaliação de quão longa se traduz a estrada através da qual os personagens devem trilhar, com vistas a atingirem a maturidade compatível com a vida de um adulto. O comportamento de ambos frente a incapacidade de conceber uma solução outra que não se transformarem em comida de jacaré, promove uma inerte desorganização conflitante com a lógica do pensamento racional do espectador. A despeito de tais distorções, o figurino de Brescianini e Fabio Camara se aproxima de uma verdade subjetiva, que funciona, levando-se em conta a veia cômica proposta. O mérito da concepção do micromundo sugerido pelo texto, contemplando a copa de um jatobá, se deve ao projeto cenográfico minimalista assinado por Tôrres, capaz de se adequar às dimensões das bocas de cena que se apresentem ao longo das temporadas do espetáculo, muito em função do desenho de luz por César Pivetti, cuja sutileza aplicada à dinâmica intensidade e à mutação cromática definem a dramaticidade e a linha temporal traçada pela incidência da luz solar, durante um aflitivo dia, em meio à nebulosa armadilha reservada aos protagonistas. A privação das necessidades primárias dos personagens, tais como fome e sede, da mesma forma que os instintos básicos de sobrevivência são amenizados pela trilha sonora de Tomas Gonzaga que, não permite que a plateia se esqueça de que tudo se trata de uma comédia.

Em meio aos perceptíveis esforços empenhados com vistas a provocar reações risíveis por parte da plateia, a veia cabeça de “Crocodilagem” deixa claro que não existe ponto de vista imparcial e, muito menos, verdades toleráveis, quando se trata de luta pela sobrevivência - mesmo que, para isso, se lance mão de mentiras sinceras, mesmo que, em solo sagrado

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Doutor Sono



Sem qualquer herança da genialidade de Kubrick

O cineasta, roteirista, produtor e fotógrafo norte-americano Stanley Kubrick consagra a sua peculiar genialidade, como diretor cinematográfico, no trato com fantasmas, telepatia e surtos psicóticos, ao adaptar, para as telas do cinema, o romance de terror de Stephen King – “O Iluminado” e ao transformá-lo em um enigmático clássico em 1980 que, desde então, se faz intrigante, muito em função de seu complexo conteúdo psicológico. A despeito da frustração de King – em decorrência do distanciamento de Kubrick das suas expectativas, relativamente à leitura de sua obra, “O Iluminado” ainda ocupa o destaque de um dos mais sinistros filmes de terror na história do cinema.

Confrontando o seu olhar contra a direção de Kubrick, em 2013, King escreve uma sequência para sua obra original, intitulada “Doutor Sono” – adaptada para o cinema pelo cineasta e escritor Mike Flanagan – sem qualquer herança da genialidade de Kubrick e surfando na superfície da obviedade.

O longa se apresenta como solo fértil às ideologias através das quais os bons merecem viver e os maus merecem morrer – como em contos de fadas, com uma visão escassa sobre a complexidade humana ou sobre humana – com duração aproximada de extensos cento e oitenta minutos, para contar uma história que tem início em 1980, extensiva aos dias atuais. A sequência é protagonizada por Danny Torrance – jovem telepata, em vias de aprender a lidar com os fantasmas que o atormenta, desde a ocorrência do surto que tomou conta de seu pai, que tenta matá-lo juntamente com sua mãe, no remoto Overlook Hotel – localizado nas Montanhas Rochosas, no estado norte-americano do Colorado e fonte de inspiração para a obra “kubrickiana” – “O Iluminado”.

Danny (Ewan McGregor) – agora, um alcoólatra de meia-idade – se esforça para manter a sua capacidade paranormal, contudo, em segredo para o mundo. As subtramas periféricas contidas no longa conferem a dignidade contida no título, com potencial de indução à madornice.


“Doutor Sono” representa a encampação de um clássico cinematográfico de quarenta anos de idade – do qual se ramifica uma história que negligencia o aprofundamento de contextos essenciais – que não deveria ter assumido o formato de um longa metragem, mas de uma minissérie televisiva, em total respeito às suas fontes originais e o que representaram no passado como um clássico de sucesso.

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Link Perdido



Trama com perspicácia e emoção


A rica mixagem entre animação stop motion e os aprimorados efeitos de computação – potencializados pela impressionante técnica de indução à percepção em 3D – aponta para novos caminhos para visualização de filmes de animação, a partir da produção do longa “Link Perdido”, com seu enredo intelectualizado – o que o configura como um filme de assimilação não trivial por parte de um público infantil não habituado a ser estimulado intelectualmente por seus responsáveis.

Substancial e ambientado na Era Vitoriana, o filme conta a história de um explorador – cujas ideias não são aceitas pelo clube de elite de aventureiros, do qual ele deseja pertencer – e um ser ancestral primitivo solitário – o último de sua raça, que quer deixar o noroeste do Pacífico e se juntar a seus primos no Himalaia.

Ao tecer trama com perspicácia e emoção, o roteirista, escritor e cineasta britânico Chris Butler, habilmente, impressiona o público com tamanha energia emocional, a ponto de envolvê-lo, durante todo o longa. A habilidade com que o humor é introduzido na história é muito bem sucedida e funciona para a abordagem de assuntos, tais como: insulamento e distinção.

A duração de “Link Perdido” é agradavelmente dimensionada, com ritmo milimetricamente pensado e objetivo em sua mensagem, embora, para alguns, parecerá um tanto quanto ausente – possivelmente, por não terem atentado para a importância do combate à obsolescência.

terça-feira, 5 de novembro de 2019

Bate Coração



Um conto espírita


Segundo a doutrina espírita, as células humanas são governadas pelas leis da natureza, sob o influxo do espírito, tornando-as, assim, um organismo individualizado. Uma vez retiradas desse organismo, as células voltam à sua condição primitiva, adaptando-se, com certa facilidade, aos organismos para os quais são transplantadas. Um coração retirado, por exemplo, perde a relação com o espírito do doador.

Lançando mão da liberdade poética, o filme “Bate Coração” conta a história de Sandro – um playboy mulherengo, interpretado por André Bankoff, que sofre um infarto em plena noite de réveillon. A alguns quilômetros do evento, a travesti Isadora – vivida por Aramis Trindade – morre em um acidente. O garanhão recebe o coração de Isadora e, dessa forma, ganha uma segunda chance de vida. Desse momento em diante, o diretor e roteirista cearense Glauber Filho atira para todos os lados – em direção à doação de órgãos, à homofobia, ao abandono e ao espiritismo – mas sem a menor intenção de se aprofundar nos assuntos abordados, tornando o filme pouco eficiente como denúncia e raso como serviço social.

Pelo simples fato das constatações hipotéticas, que influenciam a história dos protagonistas, não chegarem a lesionar o bom humor e a moral da história tatibitati, assistir “Bate Coração” não se torna um sacrifício – para quem não espera, do longa, mais do que um conto espírita.

domingo, 3 de novembro de 2019

Versão de 2



A comédia e seus exageros


O casamento, para muitos, é de suprema importância para a conquista de status ou de estabilidade psicossocial. Contudo, quando a união não corresponde às expectativas dos envolvidos, crescem as possibilidades do desejo de separação, como consequência das projeções das mentes estruturadas para viverem as suas individualidades, em prol do próprio ego.

Contemplando todas as ferramentas para conquistar a cumplicidade do espectador, ao compartilhar os sentimentos do casal protagonista do espetáculo, “Versão de 2” aposta no potencial risível de sua mensagem pois, sem quaisquer apelo à reflexão ou compromisso intelectual, apresenta um patchwork de coisas categorizadas como engraçadas, de fácil assimilação. O texto, assinado por Mariana Rebelo, desenvolve situações e conflitos do cotidiano de um casal recém separados, sempre a partir de dois pontos de vista - o dele e o dela. Os conflitos rasgados no palco, que se enquadram em diversas relações do complexo sóciofamiliar, se enquadram, no espetáculo, timidamente no universo da relação, pura e simplesmente, conjugal, sugerindo estarem sob uma lente de aumento, que compartilha suas propriedades com diálogos interpretados, espirituosamente exagerados, visando, exclusivamente, à comicidade em detrimento da sagacidade.

A dinâmica entre flashback e tempo presente conta com a perspicaz direção de Rodrigo Sant’anna, que explora a comédia e seus exageros, sem a preocupação de alinhar sensibilidade a humor. O jogo da vida à dois é desenhado por Mariana e Paulo Mathias Jr. que assumem o protagonismo do espetáculo e abusam de linguagem corporal e modulação vocal - muitas vezes atravessando os limites entre teatro e animação. O tom adotado ao longo do desenvolvimento narrativo é, por muitas vezes, estabelecido pelo desenho de luz de Genilson Barbosa, que garante o vigor das interpretações de Rebelo e de Mathias, facilitando o entendimento de que a saída natural de um relacionamento insatisfatório e desgastado, é a separação. Uma solução que se traduz em se jogar uma pá de cal sobre uma vida à dois, para cujo desgaste, não há solução - da mesma forma que o conteúdo do espetáculo poderá chegar inerte na consciência do espectador.