quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Doutor Sono



Sem qualquer herança da genialidade de Kubrick

O cineasta, roteirista, produtor e fotógrafo norte-americano Stanley Kubrick consagra a sua peculiar genialidade, como diretor cinematográfico, no trato com fantasmas, telepatia e surtos psicóticos, ao adaptar, para as telas do cinema, o romance de terror de Stephen King – “O Iluminado” e ao transformá-lo em um enigmático clássico em 1980 que, desde então, se faz intrigante, muito em função de seu complexo conteúdo psicológico. A despeito da frustração de King – em decorrência do distanciamento de Kubrick das suas expectativas, relativamente à leitura de sua obra, “O Iluminado” ainda ocupa o destaque de um dos mais sinistros filmes de terror na história do cinema.

Confrontando o seu olhar contra a direção de Kubrick, em 2013, King escreve uma sequência para sua obra original, intitulada “Doutor Sono” – adaptada para o cinema pelo cineasta e escritor Mike Flanagan – sem qualquer herança da genialidade de Kubrick e surfando na superfície da obviedade.

O longa se apresenta como solo fértil às ideologias através das quais os bons merecem viver e os maus merecem morrer – como em contos de fadas, com uma visão escassa sobre a complexidade humana ou sobre humana – com duração aproximada de extensos cento e oitenta minutos, para contar uma história que tem início em 1980, extensiva aos dias atuais. A sequência é protagonizada por Danny Torrance – jovem telepata, em vias de aprender a lidar com os fantasmas que o atormenta, desde a ocorrência do surto que tomou conta de seu pai, que tenta matá-lo juntamente com sua mãe, no remoto Overlook Hotel – localizado nas Montanhas Rochosas, no estado norte-americano do Colorado e fonte de inspiração para a obra “kubrickiana” – “O Iluminado”.

Danny (Ewan McGregor) – agora, um alcoólatra de meia-idade – se esforça para manter a sua capacidade paranormal, contudo, em segredo para o mundo. As subtramas periféricas contidas no longa conferem a dignidade contida no título, com potencial de indução à madornice.


“Doutor Sono” representa a encampação de um clássico cinematográfico de quarenta anos de idade – do qual se ramifica uma história que negligencia o aprofundamento de contextos essenciais – que não deveria ter assumido o formato de um longa metragem, mas de uma minissérie televisiva, em total respeito às suas fontes originais e o que representaram no passado como um clássico de sucesso.

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