quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Entre Cinzas, Ossos e Elefantes



Criatividade que implica no começo temporal, sem a possibilidade de recuperação do que foi realizado em seu início


Uma força criadora – que dispensa definições e rótulos, e que assume configuração misteriosa, desprovida de nomenclatura estética – expande-se como um Big Bang durante o espetáculo “Entre Cinzas, Ossos e Elefantes”.

Cem por cento dependente da interação do público, a dinâmica definida pela direção de Renato Rocha manipula o espectador, remotamente, através de um fluxo exploratório informal, em busca da compreensão da essência da obra escrita por intermédio de seus performers Claudia Wer, Dani Barbosa, Daniel Bouzas, Dandara Patroclo, Eduardo Ibraim, Gabriela Freire, Gabrielle Novello, Luiz Marques, Maria Cândida Portugal, Miguel Kalahary, Nina Rodrigues, Raquel Polistchuck, Renan Fidalgo, Stella Brajterman, Tatyane Meyer e Thaisa Santoth. O cenário é composto pelo conjunto de instalações efêmeras que renascem de suas cinzas, a cada espetáculo que, por sua vez, se desenrola na multiplicidade de cômodos e recantos que compõem a Casa da Glória, no Rio de Janeiro – na temporada de novembro a dezembro de 2019.

Os fragmentos de arte viva aspergidos pelos palcos internos e externos da casa de espetáculos são inspirados em produções das artes plásticas e literárias de consagrados artistas e escritores - dentre os quais: Paul Klee, Walter Benjamin, Michel Foucault, Richard Schechner e Ericson Pires - que se manifestam diante do progresso em direção ao futuro; dos estudos sobre lugares transitórios, construções de lugares possíveis e dos novos habitats; de histórias e memórias soterradas por escombros; do processo de vida e morte, renascimento e semeadura; e da estética carnavalizada e o espírito do carnaval de rua do Rio de Janeiro. Trata-se de um processo que estimula os cinco sentidos do espectador, vitimado por experiências pessoais e intransferíveis, e dosadas pelo seu envolvimento nos episódios que desconstroem, que movimentam, que reeditam e que humanizam os espaços, amparados pela energia e o pelo prazer, beirando ao bacante, em seu desfecho épico e festivo, inscritos pela alucinógena instalação sonora de Daniel Castanheira.

Performers, em franco desempenho enérgico, se alternam e se camuflam em meio às instalações sob a direção de movimento de Eléonore Guisnet, que molda os caminhos traçados pelo espectador diante de uma obra pulsante. Renato Machado concebe um desenho de luz de tal forma a conduzir a atenção do espectador para que, os quatro cantos do casarão sejam aleatoriamente explorados. Sem a esfera da inércia humana, o desbloqueio dinâmico da percepção do que está sendo contado só é possível pelo figurino da NAI – Núcleo de Artes Integradas, que fornece a fixidez necessária para a farsa que inflama a curiosidade.

“Entre Cinzas, Ossos e Elefantes” é um ato de criatividade que implica no começo temporal, sem a possibilidade de recuperação do que foi realizado em seu início – o infinito que prolonga o conceito do finito que se vê a olhos nus; o ciclo do fim dos vínculos; a circularidade dos movimentos que não elimina a norma que independe de onde se começa a caminhada, através da qual, nem sempre, chegamos ao nosso destino.

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