domingo, 3 de novembro de 2019

Versão de 2



A comédia e seus exageros


O casamento, para muitos, é de suprema importância para a conquista de status ou de estabilidade psicossocial. Contudo, quando a união não corresponde às expectativas dos envolvidos, crescem as possibilidades do desejo de separação, como consequência das projeções das mentes estruturadas para viverem as suas individualidades, em prol do próprio ego.

Contemplando todas as ferramentas para conquistar a cumplicidade do espectador, ao compartilhar os sentimentos do casal protagonista do espetáculo, “Versão de 2” aposta no potencial risível de sua mensagem pois, sem quaisquer apelo à reflexão ou compromisso intelectual, apresenta um patchwork de coisas categorizadas como engraçadas, de fácil assimilação. O texto, assinado por Mariana Rebelo, desenvolve situações e conflitos do cotidiano de um casal recém separados, sempre a partir de dois pontos de vista - o dele e o dela. Os conflitos rasgados no palco, que se enquadram em diversas relações do complexo sóciofamiliar, se enquadram, no espetáculo, timidamente no universo da relação, pura e simplesmente, conjugal, sugerindo estarem sob uma lente de aumento, que compartilha suas propriedades com diálogos interpretados, espirituosamente exagerados, visando, exclusivamente, à comicidade em detrimento da sagacidade.

A dinâmica entre flashback e tempo presente conta com a perspicaz direção de Rodrigo Sant’anna, que explora a comédia e seus exageros, sem a preocupação de alinhar sensibilidade a humor. O jogo da vida à dois é desenhado por Mariana e Paulo Mathias Jr. que assumem o protagonismo do espetáculo e abusam de linguagem corporal e modulação vocal - muitas vezes atravessando os limites entre teatro e animação. O tom adotado ao longo do desenvolvimento narrativo é, por muitas vezes, estabelecido pelo desenho de luz de Genilson Barbosa, que garante o vigor das interpretações de Rebelo e de Mathias, facilitando o entendimento de que a saída natural de um relacionamento insatisfatório e desgastado, é a separação. Uma solução que se traduz em se jogar uma pá de cal sobre uma vida à dois, para cujo desgaste, não há solução - da mesma forma que o conteúdo do espetáculo poderá chegar inerte na consciência do espectador.

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