domingo, 15 de dezembro de 2019

Embarque Imediato



A condição do negro diante de uma sociedade preconceituosa


Em “Embarque Imediato” – espetáculo inédito nos palcos – a família Pitanga dá vida a personagens que estabelecem teorias sobre a histórias dos negros e o preconceito racial.

Antônio, Rocco e, em off, Camila apresentam um encontro paradoxal entre um velho africano e um jovem pesquisador brasileiro, a partir do qual afloram experiências distintas de cada um dos personagens. A condição do negro diante de uma sociedade preconceituosa é principal foco de abordagem do texto de Aldri Anunciação. Contudo, a propensão pela vitimização da raça pela direção de Márcio Meirelles não acrescenta aos inevitáveis questionamentos por parte do espectador, deixando em aberto uma demanda mais do que necessária por um debate aberto, após cada apresentação.

O mosaico composto por som e voz é concebido pela competência de Jarbas Bittencourt, que assina a trilha sonora. O embate da força dramática da história se passa em um cenário concebido por Erick Saboya que, não só remete a uma sala de um aeroporto internacional, mas torna a quarta dimensão atuante em meio a sobreposição de planos que definem uma rica diversidade de focos de encenação mixados a projeções. As condicionantes que viabilizam o direito de ir e vir encontram-se vinculadas a uma determinada identidade, que se apropria das condições diaspóricas que transitam conectadas a direção de vídeos de Rafael Grilo que, por sua vez, articula a malha virtual com Camila Pitanga, permitindo-se elucidar os discursos dos protagonistas. Chico Peres – o responsável pela identidade dos protagonistas a partir de suas vestimentas – assina o figurino do espetáculo, evidenciando o teor político contido na essência dos dois homens.

“Embarque Imediato” também marca uma singela celebração dos 80 anos do artista Antônio Pitanga e o fechamento de uma trilogia composta por “Namíbia, Não!” e “O Campo de Batalha” – a primeira sob a direção de Lázaro Ramos e, a segunda, dirigida por Márcio Meirelles e Fernando Philbert – durante a qual, é possível perceber, uma fusão dialética a partir de um, mais que necessário, discurso político integrado a uma sutil subversão de propriedade de grupos e de condições humanas.

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