quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

O Diabo Em Mrs. Davis




‘Malvada’

“O Diabo Em Mrs. Davis” é um espetáculo monologado com base em uma série de palestras – também conhecidas como One Woman Shows – proferidas por uma das atrizes mais reverenciadas da história do cinema – Bette Davis – realizadas entre 1985 e 1986, quando já se encontrava afastada das telas.


Involuntária e despretensiosamente, a atriz Andrea Dantas se auto condecora a partir da frase de autoria da personagem a quem cedeu sua capacidade interpretativa – ‘Que culpa eu tenho de ser brilhante?’. O esplendor da intérprete toma conta da boca de cena quando da sua entrega ao texto de Jau Sant’Angelo, que acaba por se abstrair relativamente aos atributos físico-estéticos de Davis, abusa da sua capacidade de síntese e se empenha em explorar todo o universo dramático de Dantas no qual, sem qualquer esforço, encarna a ‘malvada’ cuja morte deixou um vazio nas telas do cinema há cerca de 30 anos. O conceito de ‘mulher independente’ idealizado pelo cinema americano é a principal engrenagem da direção de Aloisio de Abreu que, não somente expõe ao público, a essência do ícone do cinema reconhecida pela sua fama de má, sádica e autoritária, mas também revela a sua dedicação, generosidade e obstinação pelo perfeccionismo – tudo, admiravelmente, sem exagero artístico ou pirotecnia cênica. A imagem da sofisticação e da sensualidade da atriz ganha contorno impiedoso pelo figurino de  Marcelo Marques, que personifica a sua beleza nada convencional, dotada de muito charme,  em conjunto com o visagismo de Walter do Valle, que delineia seus olhos, com formatos refinadamente incomuns, salientando, notavelmente, sua expressão dramática. A magnitude do espetáculo conta com uma ambientação cênica que preserva a sua força, talento e suas explosões sentimentais, desenhadas por Dantas e Sant’Angelo, como se o espectador fosse parte integrante da plateia de One Woman Shows, hipnotizado pelo peculiar e enigmático olhar, digno da canção interpretada por Kim Carnes, em 1974.

Cinquenta e oito minutos com Andrea Dantas representam nada menos do que um intenso mergulho na essência de Mrs. Davis, revelando o diabo que deixa de habitar as profundezas do fogo do inferno e se muda para o céu, para junto de uma estrela de grande magnitude, cuja própria luz é capaz de ofuscar os holofotes de Hollywood.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Nefelibato



A desestabilização do estado passivo do espectador frente às agressões emocionais promovidas pela política


“Abater a inflação com um só tiro” – um dos compromissos assumidos por Fernando Collor de Mello durante a sua campanha eleitoral para o cargo do 32º Presidente do Brasil. Em 1990, o então mais jovem presidente a assumir o cargo, aos quarenta anos de idade, implementa o plano econômico mais polêmicos da História do Brasil – o “Plano Collor” – cuja plataforma assume, como base, o sistema neoliberal, definido por um ‘Estado Mínimo’, contemplando: a extinção de órgãos públicos, a demissão de funcionários públicos em massa, a deflagração do processo das privatizações e uma reforma econômica a partir do congelamento das contas bancárias de todos os brasileiros.

Chafurdado nesse fato histórico, o texto assinado pela atriz e escritora Regiana Antonini conduz o monólogo “Nefelibato”, onde o desalento e a insolvência social assumem ares de loucura que acomete o protagonista Anderson que, ao devanear perante o público, compartilha a sua total perda financeira, sentimental, agridocemente interpretado por Luiz Machado, como se estivesse carregando consigo toda a angústia e desespero de milhares de brasileiros afetados pelo trauma do confisco. Em compasso com o potencial de desempenho de Machado, a derrocada do governo, cuminada pelo impeachment, torna-se solo fértil para o deslanchar da direção de Fernando Philbert, ancorada nos impactos e traumas acumulados decorrentes da implantação de programas econômicos e pela gestão da política irresponsável no cotidiano dos brasileiros, até os dias de hoje. O entendimento de que os impactos dos planos econômicos não se distanciam da essência humana é retratado pelo projeto cenográfico e pelo figurino assinados por Teca Fichinski, que presenteia o espectador com uma instalação viva a amostra, em pleno palco descortinado, mimetizando o protagonista à obra de arte, como fruto de uma tradução juramentada da forma com que o povo brasileiro vem sendo tratado ao longo dos anos – verdadeiro lixo. A dramatização fomentada por violentos contrastes de luz e sombra definidos pelo desenho de luz cênica de Vilmar Olos preenche o olhar do espectador – em franca alusão à esperança e à morte de um povo sofrido de uma nação chamada Brasil – apurando o seu olhar para os momentos de desespero, para os sentimentos de angústia, para as dores da tristeza e para as decepções incalculáveis que afloram do peito do que hoje é apenas a sombra de um cidadão, outrora bem-sucedido e, atualmente, um homem em situação de rua. A banalização da miséria aos olhos dos políticos e dos transeuntes que lidam com essa realidade no dia a dia é chamada ao primeiro plano, graças à atenção, em preciosismo laboratorial, da expressão corporal conduzida, de forma avassaladora, pela direção corporal de Marina Salomon. A descrença do protagonista, relativamente aos seus governantes, é aprofundada pela trilha sonora de Maíra Freitas, como um catalisador ideológico de um povo privado de irem às urnas para eleger o presidente de seu país, além de ter seus direitos políticos suspensos, pela ditadura militar, por um período de trinta anos.

“Nefelibato” tem como meta a desestabilização do estado passivo do espectador frente às agressões emocionais promovidas pela política de interesses pessoais e pelo descaso dos governantes frente aos direitos básicos dos cidadãos – como uma seta no alvo, inacessível à maioria dos cidadãos comuns.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Um lindo dia na vizinhança



Um lindo conto para adultos tolinhos


A produção cinematográfica classificada como cinebiografia – "Um lindo dia na vizinhança" – aparenta não ter previsto, voluntariamente, espaço em seu roteiro, visando a uma cobertura mais ampla da vida do pedagogo Fred Rogers –  um artista norte-americano, ministro de uma Igreja Presbiteriana, que tornou-se o famoso apresentador do programa televisivo ‘Mister Rogers Neighborhood’, musicalizado por canções educativas infanto-juvenis, com letras de sua autoria.

Infância, juventude, maturidade, conquistas, a gênesis do programa –  nada disso é revelado ao longo do filme assinado pela escritora, diretora e atriz norte-americana Marielle Heller. Na prática, o espectador passa a conhecer a vida do jornalista Lloyd Vogel (Matthew Rhys) e a sua conturbada relação com seu pai, que abandona a família em um momento crucial para a estabilidade daquele núcleo. Mas o acaso faz de Fred Rogers (Tom Hanks) o homem que muda a sua vida. Ao assumir um viés espiritualista, estruturado por autodescobertas, o roteiro passa a ser direcionado por um sentimentalismo que requalifica o papel de Rogers como um salvador da alma humana, capaz de curar os estados de tristeza e de raiva que cometem os homens – uma fórmula incapaz de fazer de “Um lindo dia na vizinhança” uma história biográfica de Fred Rogers mas, somente, um lindo conto para adultos tolinhos que procuram um antídoto para suas vidas amarguradas, onde o cinismo partidário celebra o retrocesso em nome da família e de Deus. E quem sabe, como isso, são promovidos a discentes de uma eficaz aula de autossugestão para pessoas influenciáveis, dominada por um discurso contaminado pela programação neurolinguística.

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Os Miseráveis



Um coquetel molotov


A construção de um confronto define o viés dramático do novo longa de Ladj Ly – “Os Miseráveis”. O panorama do filme apresenta o distrito de Montfermeil, localizado a leste de Paris, conhecido por seu alto índice de violência e, também, como o cenário do romance homônimo de Victor Hugo.

O novato policial Stéphane (Damien Bonnard) ingressa na patrulha da unidade de crimes de rua, sob o comando de Gwada (Djibril Zonga) – notoriamente cínico e reacionário – e Chris (Alexis Manenti) – que inicia o treinamento de Stéphane. Durante a ronda pelas ruas de Montfermeil, as abordagens junto à comunidade local demonstra uma total falta de afinidade e empatia da polícia para com os cidadãos - todos tidos como suspeitos e, consequentemente, passíveis de assédio policial, sem qualquer justificativa plausível. 

Ao trazer à tona temas polêmicos como racismo e violência, Ladj Ly arremessa um coquetel molotov no espectador que, ao mesmo tempo, vitimado pelo impacto, aplaude o resultado de uma Copa do Mundo, fervorosamente, como se fosse o bastante para a conquista da alegria de viver. Esse mesmo espectador também se demonstra abalado pela opressão profundamente enraizada nos atuais governos de quase todo o mundo – só restando o pensamento de Victor Hugo como consolo – “Meus amigos, lembrai-vos sempre de que não há ervas daninhas nem homens maus: - Há, sim, maus cultivadores”.

O Escândalo



Uma produção que denuncia erros que se fazem presentes em tempos passados e atuais


A partir de narrativas de mulheres assediadas por um, não somente, poderoso homem do mundo da mídia, mas também um desprezível assediador sexual, o irretocável longa “O Escândalo” dispara contra o sol, com o que há de mais podre na imprensa racista, machista e homofóbica, da republicana Fox News. Nos bastidores, política se mistura com o desrespeito às minorias, por sua vez, objeto de denúncia pelas âncoras femininas da emissora que, para serem admitidas ou promovidas, rendem lealdade e, até mesmo, favores sexuais ao presidente da FNC – Roger Ailes - capturado pelo consagrado ator e cantor norte americano, John Lithgow, que presta uma interpretação digna de premiação.

Baseado em eventos reais vivenciados pela comentarista da Fox News, Gretchen Carlson, em 2016, o longa, dirigido com intensidade ímpar pelo realizador e produtor cinematográfico Jay Roach, reencaminha às telas de cinema, a inebriante estrela Nicole Kidman, no papel de Carlson, que se diz forçada a abandonar o seu emprego após a sua recusa frente aos avanços sexuais de Ailes. Mas não somente de Kidman e de Lithgow, Roach extrai fortes interpretações, mas de outras tantas estrelas que desempenham papéis de forte relevância no drama, presenteando o espectador com uma história definida por uma narrativa instigante e pela nitidez com que é traçado o universo psicológico dos homens assediadores e da forma que o sofrimento atinge as suas vítimas.

“O Escândalo” é uma produção que denuncia erros que se fazem presentes em tempos passados e atuais, e se mostra eficaz ao juntar as histórias de um grupo improvável de mulheres em prol de uma nova narrativa de um mundo empresarial menos misógino, numa era marcada por imponentes torres codinominadas Trump.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Ameaça Profunda



Excesso de superficialidade


Um thriller de ficção reúne uma equipe científica que enfrenta riscos desconhecidos nas profundezas abissais de algum ponto do oceano, retratado pelo cineasta William Eubank, como um ambiente inóspito onde um gigantesco complexo de estações de pesquisa foi construído, sem maiores esclarecimentos sobre sua origem e o objeto de sua investigação.

Dessa forma, é montado o cenário de “Ameaça Profunda” – um longa cujo roteiro foi desenvolvido de tal forma a fadá-lo ao hall das produções desnecessárias, apesar da tentativa de levar às telas um filme condecorado por classificações que percorrem o horror, à claustrofobia e ao apocalipse, espelhado a partir de produções já, há muito, exploradas em meio ao espaço intergaláctico. Não obstante, Eubank deflagra um processo de destruição das estações de pesquisa a partir do ataque de um ser marinho nos moldes da criatura de Ridley Scott, concebida segundo um ser alienígena resgatado por uma nave de pesquisa interestelar. Não fosse suficiente o acumulado paralelismo à saga alienígena, Eubank aposta suas fichas no desempenho dos personagens Norah Price e o Capitão da missão, incorporados por Kristen Stewart e por Vincent Cassel, respectivamente, como se num resgate de protagonistas da quadrilogia iniciada há cerca de quarenta anos.

Nem mesmo o padrão da matriarca Xenomorfo com sua ninhada escapa da mira do jovem diretor – em seu “nada a acrescentar” sci-fi – sendo retratados quando de um ataque coletivo da espécie aos humanos, sob a projeção de uma luz escarlate, contrastante com a mesmice cromática azul esverdeada que toma conta de, praticamente, todo o longa - o mesmo que assume o nervosismo trêmulo de uma lente que impede, intencionalmente, a visualização consciente da forma dos seres abissais. Em tempo, as duas personagens femininas, a despeito do corte de cabelo e do figurino que, além de remeterem aos concebidos para a estrela de Alien – Sigourney Weaver protagonizando Ellen Ripley – assumem uma configuração Miles Cyrus em seu Wrecking Ball – sugerindo uma exploração do corpo feminino, tão em desuso, em tempos de empoderamento feminino.

A instauração do naufrágio de "Ameaça Profunda" ocorre a partir dos primeiros minutos de projeção do longa, quando um abalo estrutural fatal da estação modular, onde se encontram os pesquisadores, os obriga a migrar para o módulo onde estão localizadas as cápsulas de escape de volta à superfície, fundamentais para salvar as suas vidas. Mas uma criatura desconhecida e, perigosamente fatal, escondida na profundeza das águas, ameaça a integridade da estação submarina e de todos os seus ocupantes, como uma reação dos habitantes das profundezas à tentativa de ocupação de seu território.

A histérica demanda por emoção constante desenhada para "Ameaça Profunda" torna os noventa minutos mais exaustivos do início do ano cinematográfico, dispensando qualquer empenho por uma sequência, devido ao excesso de superficialidade do roteiro, concretizando, somente, a soberania do oitavo passageiro de Scott.

Adoráveis Mulheres



Extremo requinte e relevante atualidade


Escrito na década de 1860, o romance “Adoráveis Mulheres” conta a história de quatro irmãs – a impulsiva Jo (Saoirse Ronan), a moleca Meg (Emma Watson), a pacificadora Beth (Eliza Scanlen) e a artística Amy (Florence Pugh) – e de sua amada mãe Marmee (Laura Dern), que lutam para sobreviver durante a Guerra Civil Americana. Enquanto o pai das meninas encontra-se em combate na guerra, as quatro iniciam uma amizade com Laurie (Timothée Chalamet) – o garoto que mora na casa defronte.

Com extremo requinte e relevante atualidade, o clássico escrito por Louisa May Alcott é adaptado pela cineasta Greta Gerwig – com potencial de ser considerada a melhor dentre aquelas levadas ao público cinéfilo em 1933, 1949 e 1994 – através da qual molda quatro lindas mulheres, que sentem sede de conhecimento, batalham para o crescimento pessoal e desbravam a vida para que possam entender a morte.