sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Nefelibato



A desestabilização do estado passivo do espectador frente às agressões emocionais promovidas pela política


“Abater a inflação com um só tiro” – um dos compromissos assumidos por Fernando Collor de Mello durante a sua campanha eleitoral para o cargo do 32º Presidente do Brasil. Em 1990, o então mais jovem presidente a assumir o cargo, aos quarenta anos de idade, implementa o plano econômico mais polêmicos da História do Brasil – o “Plano Collor” – cuja plataforma assume, como base, o sistema neoliberal, definido por um ‘Estado Mínimo’, contemplando: a extinção de órgãos públicos, a demissão de funcionários públicos em massa, a deflagração do processo das privatizações e uma reforma econômica a partir do congelamento das contas bancárias de todos os brasileiros.

Chafurdado nesse fato histórico, o texto assinado pela atriz e escritora Regiana Antonini conduz o monólogo “Nefelibato”, onde o desalento e a insolvência social assumem ares de loucura que acomete o protagonista Anderson que, ao devanear perante o público, compartilha a sua total perda financeira, sentimental, agridocemente interpretado por Luiz Machado, como se estivesse carregando consigo toda a angústia e desespero de milhares de brasileiros afetados pelo trauma do confisco. Em compasso com o potencial de desempenho de Machado, a derrocada do governo, cuminada pelo impeachment, torna-se solo fértil para o deslanchar da direção de Fernando Philbert, ancorada nos impactos e traumas acumulados decorrentes da implantação de programas econômicos e pela gestão da política irresponsável no cotidiano dos brasileiros, até os dias de hoje. O entendimento de que os impactos dos planos econômicos não se distanciam da essência humana é retratado pelo projeto cenográfico e pelo figurino assinados por Teca Fichinski, que presenteia o espectador com uma instalação viva a amostra, em pleno palco descortinado, mimetizando o protagonista à obra de arte, como fruto de uma tradução juramentada da forma com que o povo brasileiro vem sendo tratado ao longo dos anos – verdadeiro lixo. A dramatização fomentada por violentos contrastes de luz e sombra definidos pelo desenho de luz cênica de Vilmar Olos preenche o olhar do espectador – em franca alusão à esperança e à morte de um povo sofrido de uma nação chamada Brasil – apurando o seu olhar para os momentos de desespero, para os sentimentos de angústia, para as dores da tristeza e para as decepções incalculáveis que afloram do peito do que hoje é apenas a sombra de um cidadão, outrora bem-sucedido e, atualmente, um homem em situação de rua. A banalização da miséria aos olhos dos políticos e dos transeuntes que lidam com essa realidade no dia a dia é chamada ao primeiro plano, graças à atenção, em preciosismo laboratorial, da expressão corporal conduzida, de forma avassaladora, pela direção corporal de Marina Salomon. A descrença do protagonista, relativamente aos seus governantes, é aprofundada pela trilha sonora de Maíra Freitas, como um catalisador ideológico de um povo privado de irem às urnas para eleger o presidente de seu país, além de ter seus direitos políticos suspensos, pela ditadura militar, por um período de trinta anos.

“Nefelibato” tem como meta a desestabilização do estado passivo do espectador frente às agressões emocionais promovidas pela política de interesses pessoais e pelo descaso dos governantes frente aos direitos básicos dos cidadãos – como uma seta no alvo, inacessível à maioria dos cidadãos comuns.

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