terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Os Miseráveis



Um coquetel molotov


A construção de um confronto define o viés dramático do novo longa de Ladj Ly – “Os Miseráveis”. O panorama do filme apresenta o distrito de Montfermeil, localizado a leste de Paris, conhecido por seu alto índice de violência e, também, como o cenário do romance homônimo de Victor Hugo.

O novato policial Stéphane (Damien Bonnard) ingressa na patrulha da unidade de crimes de rua, sob o comando de Gwada (Djibril Zonga) – notoriamente cínico e reacionário – e Chris (Alexis Manenti) – que inicia o treinamento de Stéphane. Durante a ronda pelas ruas de Montfermeil, as abordagens junto à comunidade local demonstra uma total falta de afinidade e empatia da polícia para com os cidadãos - todos tidos como suspeitos e, consequentemente, passíveis de assédio policial, sem qualquer justificativa plausível. 

Ao trazer à tona temas polêmicos como racismo e violência, Ladj Ly arremessa um coquetel molotov no espectador que, ao mesmo tempo, vitimado pelo impacto, aplaude o resultado de uma Copa do Mundo, fervorosamente, como se fosse o bastante para a conquista da alegria de viver. Esse mesmo espectador também se demonstra abalado pela opressão profundamente enraizada nos atuais governos de quase todo o mundo – só restando o pensamento de Victor Hugo como consolo – “Meus amigos, lembrai-vos sempre de que não há ervas daninhas nem homens maus: - Há, sim, maus cultivadores”.

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